28 DE JUNHO DE 1956 1207
propósito, implícito na proposta, de difundir o sentido social na gente nova.
O relator do douto parecer expõe magistralmente esta matéria. Apenas acrescento julgar imprescindível que a campanha de educação social comece, não na Universidade, mas na família, na escola pré-primária, acompanhando depois os vários graus de ensino.
Quando o jovem estudante atingir a Universidade completará então técnica e praticamente a sua formação.
O sentido social não é inato. Veja-se como a criança tende naturalmente para o egoísmo e egocentrismo.
É necessário então semear o sentido social nas primeiras idades, fazê-lo desabrochar na adolescência e dar-lhe força na juventude, para que possa produzir os seus frutos na idade adulta. Inocular no homem uma educação social não é obedecer à tendência corrente da moda; é antes formar homens.
Quanto podem aqui ajudar as actividades dos centros sociais, as reuniões ide pais nas Casas do Povo, as equipas sociais das empresas e tantas outras iniciativas dependentes da missão da assistente social!
Sempre houve razões ponderosas para preparar os homens para a vida social, mas hoje há a juntar às razões de sempre muitas outras de imperiosa actualidade.
O mundo actual divide, esmaga, desenraíza, minimiza; o sentido social une, enobrece, estabiliza, dá forças e valor aos homens e às sociedades.
Para a formação de um estado de espírito social como quer a proposta de lei é necessário mais ambiência do que teorias. Os cursos trazem às vezes mais inconvenientes do que vantagens.
Não se precisa de muitas matérias, urge antes criar um espírito, uma alma. Sem nada acrescentar a programas, será necessário disseminar no ensino um fermento que levede todos os conhecimentos do aluno, de modo a fazer sobressair nitidamente uma concepção social da vida.
Não se trata tanto de introduzir capítulos novos na pedagogia, como de infundir novo espírito nas disciplinas e na vida: e o homem é filho da criança.
Se se descura a formação social da criança, o homem adulto não será social.
Não encontraremos aqui a explicação da crise enorme de vocações para as carreiras de enfermagem, serviço social, auxiliares sociais, educadores, jardineiros de infância, dirigentes sindicais e corporativos?
Não encontraremos também aqui explicação para fracassos nas realizações da vida corporativa do País?
Pode e deve o serviço social doutrinar, através da acção, e ajudar, até pelo estabelecimento de um novo espírito na vida comunitária, industrial ou rural, a remediar estes males.
Sr. Presidente: porque creio no empreendimento a que se vai meter ombros, eu chamar-lhe-ia, em vez de "serviço social do trabalhos, "serviço social no trabalhos. E preferia esta forma porque desejaria que o serviço social ficasse, como é da sua própria essência, liberto de todo e qualquer sentido utilitário.
O serviço social não é pertença da corporação e do trabalho. A sua missão é ir ao mundo do trabalho dar-lhe uma alma, um espírito, um sentido, sem que fique institucionalmente preso a ele, e muito menos incrustado na empresa.
O seu objectivo é fundamentalmente o de actuar na harmonia das relações humanas. O serviço social no trabalho surgiu quando os homens se deram conta de que existia uma ciência do trabalho, no dia em que, tomados como que por uma consciência colectiva, começaram a observar as leis, os fins, a evolução histórica do trabalho.
Esta consciência nasceu quando o homem viu o trabalho, mercê das suas transformações radicais, não através do seu esforço, mas através do seu espírito. E o trabalho aparece então como uma realidade nova, cujas condições e estruturas modificaram profundamente o género de vida do homem, com certeza, mas também o seu nível de vida.
A passagem do utensílio à máquina iniciou certamente uma fase na vida económica, mas inaugurou também nova era nas relações humanas, no social.
O mundo do trabalho sofreu, assim, uma quase nova criação, que exigiu, quer da moral, quer da sociologia, atenção especial - e daí o serviço social.
E que tudo ficar a em meras considerações marginais do problema se "não se estudasse - como diz um eminente professor de Sociologia - o novo solo humano que o trabalho assim produziu na era da máquina e que não tem comparação possível com o produzido durante milénios, tal a transformação que sofreu nos seus fins e nas suas estruturas".
Esta "civilização", esta "teologia de trabalho", que a própria Igreja nos trouxe, é campo onde o serviço social tem de dar a sua colaboração.
De facto, a falha trágica entre mecanização e humanização não pode resolver-se apenas com pregações do amor ao trabalho manual, com o alto sentido da disciplina educativa, e até no campo da fé como função ascética que o trabalho desempenha num mundo em que o sofrimento, o pecado e a libertação não podem separar-se.
Não, Sr. Presidente, temos, se queremos criar um mundo de trabalho melhor do que o do passado, de desenvolver seriamente, com energia, os fundamentos da doutrina social católica e de encarar a realidade, todas as realidades psicológicas, espirituais, sociais e humanas que esse mesmo mundo supõe e exige. Até porque o trabalhador, o operário, já não se satisfaz com sedativos de boa doutrina e promessas de melhores dias.
Deu-se ùltimamente, além da intensificação quantitativa, uma transformação qualitativa no trabalho humano. Quer se exerça na aglomeração das grandes fábricas, quer nas pequenas empresas e no artesanato, o trabalho tem, nos meios que emprega e nas condições que reveste, exigências de concentração física e psicológica tremendas.
Acaba de ser publicado em França um estudo muito completo sobre o equilíbrio psíquico e o mundo do trabalho. Aí se refere toda uma série de aspectos que conduzem a nevroses. Estas, na sua maioria, são provenientes da falta de adaptação do operário ao trabalho que executa.
Também aqui a assistente social tem o seu lugar. Ela pode, conhecendo o trabalho e o operário, intervir para uma melhor adaptação de forças físicas e espirituais. Diz-se, a propósito, que uma das mais graves consequências das técnicas actuais da organização do trabalho é a que se pode chamar a supressão do bill, isto é, da capacidade de iniciativa.
São estes aspectos psicológicos e os das relações humanas que determinam o decorrer harmónico da vida dentro da empresa. Pode a fábrica estar bem apetrechada, podem ter introduzido nela ou na exploração agrícola os mais modernos e aperfeiçoados progressos: se o comportamento dos homens, nas suas relações mútuas, for desarmónico a empresa não produzirá os resultados convenientes.
O homem, duma maneira geral, dentro das empresas não se sente livre, não está em condições de manifestar as suas facilidades de equilíbrio produtivo. Está ali porque é necessário receber um salário, porque precisa de viver, porque tem muitas vezes uma família