1208 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 158
pequena ou numerosa, que depende da sua remuneração para existir. Está ali mecânica e utilitàriamente, com mira na hora de saída, sequioso de deixar a atmosfera mórbida de tensões nervosas, que alteram a sua actividade e diminuem o seu esforço.
A única (preocupação ou, antes, a mais forte preocupação durante as horas que passa nas oficinas, na herdade, na fábrica ou no escritório é o final do período que corresponde ao contrato de trabalho, que lhe assegura a remuneração necessária ao seu viver e dos seus e a estabilidade nessa remuneração.
Esta é, em muitos aspectos da vida social, uma das causas de desassossego, de incompreensão, de abalos, de lutas, de ineficiências, enfim, dos métodos de trabalho aias sociedades humanas.
Estabeler a harmonia e a confiança dentro da empresa, com o objectivo de anular o maior somatório possível de tensões que opõem os homens uns aos outros, aparece assim como primeiro passo de relevo para o êxito dos fins da própria, empresa - até no seu .processo produtivo. Com este aspecto se preocupa a organização corporativa, para ele se dirige em primeiro plano o serviço social no trabalho.
Através do serviço social procurar-se-á dar ao operário dentro da empresa condições que permitam o sentimento de liberdade e confiança, a certeza de que a sua vida mão está acorrentada ao trabalho, mas sim que o trabalho é inerente à sua própria vida - uma condição da própria vida humana.
Este sentimento de liberdade e confiança do trabalhador em si próprio e nos que o rodeiam tem de partir da certeza de que também o director, o engenheiro, o capataz, todos os outros elementos que constituem a empresa têm deveres como os seus, cada um dentro da sua esfera e conforme as suas aptidões.
O operário tem de sentir que não é um isolado a trabalhar para obter uma remuneração: é um elemento de uma engrenagem humana.
Creio, Sr. Presidente, ser bem isto o que se pretende quando se diz na proposta que o plano se destina a difundir e fortalecer a consciência dos deveres de cooperação social - criar harmonia entre os componentes das empresas e criar espírito corporativo do mais são e mais profundo.
Esta é a exacta compreensão da justiça, que, no dizer de alguém, representa «a única de todas as virtudes da ordem social» livremente aceite.
A noção de justiça dentro da empresa é um clarão que ilumina fortemente todos os actos e todas as questões: os problemas de ordem moral, a remuneração e até o progresso técnico.
O serviço social levará ao operário a confiança nos organismos ou pessoas que o rodeiam, a certeza de que, em caso de acidente ou doença, se farão os esforços no sentido de reduzir ao mínimo os seus efeitos; procurará dar-lhe remuneração adequada aos seus méritos e dar-lhe a consciência de que o é, e que, na relatividade das remunerações, a sua está em consonância com a dos outros, incluindo a dos patrões. Procurará fazê-lo sentir que aqueles que dirigem são seus aliados e cumprem como ele unia função no conjunto da empresa e como ele tendem, com seu esforço, para o seu êxito. Procurará que lhe seja atribuída a parte que lhe compete no rendimento da empresa, como justa representação do seu esforço e da sua qualidade.
Assim será possível que, trabalhando em condições humanas, o operário possa contribuir para assegurar melhoria apreciável na produtividade da empresa ou empresas, por consequência na produtividade do conjunto de todas elas, que constituem o nervo motor da vida económica.
A respeito desta melhor produtividade posso dar um facto:
Quando em França se procurou a sério estudar as causas da baixa produtividade em muitos ramos industriais, enviaram-se missões de investigação à América do Norte. A maior parte dessas missões, verificou que, em muitos casos, nem o nível técnico de fábricas nem até a sua grandeza era superior à de fábricas francesas, e, contudo, a produtividade, rigorosamente medida, era bem superior.
Um estudo mais profundo e cuidadoso veio a revelar que a razão fundamental desse desnível entre a produtividade dos dois países residia essencialmente nas relações de comportamento dos homens - dos patrões e dos operários.
Haviam-se feito esforços no sentido de estabelecer aquela confiança e harmonia de que falei há pouco, e cada um, certo da justiça e da sua missão, procurava melhorar a produtividade da empresa. E o somatório de esforços harmónicos conduziu justamente a um grau de produtividade superior ao prevalente em idênticas circunstâncias na Europa.
Assim, O aspecto social de justiça - de que é elemento activo o serviço social- não tende apenas a dignificar a pessoa humana, a dar-lhe a consciência da sua própria condição: indirectamente concorre para o progresso económico, para a melhoria das condições de vida e, em última análise, para a prosperidade e paz no aglomerado nacional.
Com o que se disse quereria ter elucidado que o serviço social corporativo, sendo essencial e fundamentalmente um serviço em ordem às relações humanas, à paz social, procura pelo que toca à empresa torná-la mais social, mais rendosa, mais humana. Quero acentuar bem que fazer serviço social no trabalho não é criar à volta e dentro da empresa obras sociais: creches, cantinas, postos médicos - obras, muitas obras sociais, que infelizmente servem de capa a profundas injustiças de salário, a falta de condições de higiene e outras.
O serviço social na empresa pode supervisar todas essas obras quando a existência delas se justifique, mas não pode nem deve ocupar-se delas em pormenor. Vou mais longe: deve trabalhar para que a sua existência se não torne necessária. Mas, a terem de existir, essas obras devem ser, sempre que possível, geridas por operários, pois para eles essas actividades se criam.
O programa do serviço social na empresa, sendo difícil de concretizar, é fácil de sistematizar: é sua missão «fazer com que todos se sintam bem no seu trabalho; tem de aproximar os homens e ligá-los de tal maneira por interesses materiais, espirituais e morais que se permita técnica e moralmente à mais gigantesca empresa viver de modo semelhante ao da pequena oficina artesanal».
Ora, aqui, como em muitos outros aspectos que já foram profunda e claramente estudados pelo Dr. Sedas Nunes no citado trabalho, o serviço social opera no mesmo sentido que o ideal corporativo: «vem realizar ou promover - como lá se escreve - a progressiva realização de condições fora das quais não se afigura possível que as ideias corporativas de colaboração profissional possam algum dia traduzir-se em extensas e fecundas realizações jurídicas, artificialmente desenhadas e mantidas».
Mas na proposta de lei em discussão não se fala só do serviço social da empresa: supõe-se o alargamento do plano a todo o mundo do trabalho, inclusive o trabalho rural, através das Casas do Povo. Esse serviço comunitário integrará assim todos os aspectos da vida rural.