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14 DE JULHO DE 1956 1329

que a sua estrutura assenta fundamentalmente numa separação inorgânica entre o homem que produz e a finalidade da sua própria produção, que é a compensação económica da obra realizada.
Se interesses que deviam ser solidária e harmònicamente estabelecidos entre todas as actividades dum mesmo ciclo económico perderam essa comunicabilidade ao passarem, em parte, de mão, duma classe para outra, necessário se torna reajustá-los, na medida do possível, numa recomposião de forma corporativa. E para que essa recomposição se torne mais perfeita ainda do que era forçoso se torna que ao lado dos legítimos interesses da produção e do comércio passem a tomar lugar os interesses do consumidor.
De que forma? Quem poderá representar os interesses do consumo dentro da orgânica particular da corporação? O Estado, naturalmente. Mais do que a ninguém, é a ele que compete zelar pelo bem comum, intervindo dentro de cada corporação por intermédio dos seus representantes e sobre todas as corporações por intermédio do Conselho Corporativo.
Não está no plano desta minha pequena intervenção imiscuir-me nos pormenores da orgânica corporativa no que se refere à articulação entre a corporação e o Estado. Não se põe aqui o problema dum corporativismo de Estado a cercear a justa independência da vida corporativa.
Porém, sem prejudicar a sua relativa autonomia, o Estado deverá estar-lhe definidamente sobranceiro, para exercer a função equilibradora dos interesses das actividades económicas entre si e dos interesses do bem comum, que ele sempre representa. E não se diga que a sua participação nestes termos pode representar qualquer intromissão, porque sem ela a corporação seria um organismo amputado sob o ponto de vista social.
É agora a altura de me ocupar, embora ligeiramente, do valor da corporação em relação à psicologia das massas.
Torna-se necessário considerar reflectidamente que os fenómenos sociais representam apenas formas de reacção de ordem psicológica, potenciadas pelo número e fomentadas por uma estrutura social que divide a humanidade em classes distintas, que se organizam em extensão, e, por consequência, se vão dispondo em camadas sobrepostas.
Desta sobreposição resulta um sentimento imediato de desigualdade entre as categorias que representam actividades desconexadas do ciclo económico vertical.
Para evitar confusões e mal-entendidos, devo dizer que, contrariamente a uma sugestão derivada das palavras, é na organização horizontal que mais se faz sentir a desigualdade vertical das posições sociais.
Pelo contrário, na verticalidade do ciclo de trabalho é que os indivíduos de classes sociais diferentes se encontram irmanados num interesse comum, que eles vivem e sentem em constante proximidade.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Ao interesse comum de uma classe, indiscriminado em relação ao rendimento do trabalho que produz o género, opõe-se o interesse comum de todos quantos colaboram na mesma obra, estabelecendo uma identidade de interesses que leva à comunicação espiritual das diferentes classes que trabalham com uma finalidade comum. Mais do que organização vertical, e para evitar sugestões confusas de palavras, deveríamos adoptar antes o designativo de «organização nuclear».
Por virtude da comunicabilidade estrutural desta organização nuclear se irá diluindo aquela disposição hostil de ressentimento da classe operária em face da
classe patronal, ressentimento que constitui um fermento psíquico de desagregação e luta social que não existia no artesanato, mas que psicólogos mais próximos da alma popular couberam definir e colocar era devido relevo nas organizações horizontais das empresas produtoras.
Aquela comunidade de interesses, imediatamente sentida no ciclo das actividades da organização nuclear, tende para diluir o ressentimento que a horizontalidade de classes gerou. E é isto para o que tendem as novas organizações de trabalho nas grandes empresas dos Estados Unidos da América.
Este ressentimento, a que Max Scheler dedica um estudo profundo no seu trabalho A Crise dos Valores, tem a sua origem, não só nas circunstâncias referidas, mas ainda nos recalques duma orgânica disciplinar mais realizada por imposições patronais do que pela consciência devidamente esclarecida do operário interessado na produção e em comunhão com os interesses patronais.
Aguilhoado por este ressentimento, é o operário conduzido para o interesse na participação da política do Estado, por pensar que ali encontra um campo de interesses em que pode intervir em pé de igualdade com os patrões na direcção duma empresa mais alta, onde porventura os poderá dominar.
Integrado, porém, no ciclo económico da corporação nuclear já o seu interesse será orientado para um novo rumo, em que a sua intervenção se situa no campo mais acessível à sua competência e mais proximamente ligado nos interesses reais da sua vida.
É por isso que, longe de temer as consequências políticas duma organização corporativa em que as classes trabalhadoras colaborem mais conscientemente nos ramos económicos da produção, julgo que, muito pelo contrário, é este o meio de as desligar duma actuação na política superior do Estado (para a qual são necessários conhecimentos especializados e uma larga preparação geral, que poucos possuem), lançando o seu interesse para os problemas económicos e culturais em cujo âmbito se movem e dos quais depende o seu bem-estar.
Teremos, assim, a criação de um estímulo que tem faltado ao nosso operário para o enriquecimento da sua cultura, cuja deficiência o coloca tanto abaixo das classes operárias dos países mais industrialmente desenvolvidos.

Vozes : - Muito bem!

O Orador: - É esta a altura de fazer notar que este sistema da organização nuclear da corporação não significa um pensamento de exclusividade em face da organização corporativa horizontal. É evidente que muitos ramos de actividades não atingiram ainda a importância e a morfologia necessárias para constituírem desde já corporações especializadas entre as múltiplas actividades económicas. E, entretanto, subsistirão naturalmente as corporações horizontais capazes de englobar, na sua maior extensão, as múltiplas actividades menos diferenciadas.
Apraz-me reconhecer, porém, que neste ponto a proposta governamental comunga no espírito da Câmara Corporativa, ao estabelecer, ao lado de extensas corporações horizontais, a Corporação nuclear da Pesca e Conservas.
Por seu lado, o ilustre Prof. Mário de Figueiredo já nos esclareceu no seu notabilíssimo discurso, de que a proposta de lei do Governo se não opunha à orientação para o caminho de verticalidade nas actividades económicas mais complexas e de maior importância na vida económica da Nação.