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11 DE DEZEMBRO DE 1959 147

Mantém-se, no. entanto, estacionário há cerca de onze anos o preço do trigo, não obstante as variadíssima dificuldades que a lavoura tem de enfrentar com encargos resultantes do fisco e da organização corporativa, com o aumento do material destinado à exploração s do custo da mão-de-obra, este agravado pela escassez de braços, desviados pela construção civil, pelas obras públicas, pela indústria e pela ânsia da conquista de mais favoráveis posições, verificando-se que os jovens abandonam a terra e poucos são aqueles que ingressam nas lides e nos quadros da vida agrícola.
São decorridos trinta anos após o lançamento da primeira semente da Campanha do Trigo, feito na Herdade de Águas de Peixe, nos limites dos distritos de Évora e Beja.
Foi o saudoso presidente Carmona quem a lançou à terra, em presença do grande entusiasta e impulsionador da Campanha, coronel Linhares de Lima, ao tempo Ministro da Agricultura, e, ainda, com a assistência de numerosa representação da lavoura alentejana.
Os objectivos fundamentais e primaciais do empreendimento destinavam-se substancialmente a fomentar e a desenvolver a cultura do trigo, por forma que pudéssemos satisfazer as nossas necessidades alimentares sem o recurso ao estrangeiro, de modo que o pão que entrasse na boca de todos os portugueses _ fosse produzido e amassado com o suor do seu próprio esforço.
A lavoura, sempre pronta a cooperar na valorização da terra e a contribuir para o progresso económico da Nação, soube corresponder com a desejada solicitude ao apelo que lhe foi dirigido.
Assim, desbravando matagais, vencendo serramos e sulcando, com o labor do arado, charnecas até então abandonadas, transformou por completo o nosso panorama cerealífero.
Graças à iniciativa do Governo, ao abnegado espírito de compreensão dos homens da terra, foi possível fazer prodígios neste importante sector da agricultura, passando o nosso país da preocupante condição de deficitário à situação desafogada de auto-abastecido, verificando-se, até, que o volume dos colheitas de 1957-1958 excederam largamente o quantitativo das necessidades internas.
Este facto deve-se, como já referi, não só à política do Governo e ao esforço da lavoura, mas ainda à notória melhoria dos métodos de produção, resultante principalmente do emprego cada vez mais generalizado da maquinaria adequada, do uso mais racional de fertilizantes, quer em quantidade, quer em qualidade, e da utilização de sementes calibradas, o que representa, sem dúvida, um sensível progresso na técnica cultural.
O esforço solicitado e tão decididamente correspondido tem de continuar a merecer do Governo a indispensável protecção, sob pena de poder verificar-se um retrocesso, motivado pelo desinteresse das produções ou pelo deficiente tratamento das culturas, o que poderá traduzir-se em precária diminuição do produto e, consequentemente, do próprio rendimento nacional
Devemos estar sempre acautelados com as necessárias previsões e reservas, pois há que contar com os anos maus, com as pragas, com as guerras, com as calamidades e com o aumento sempre crescente da população.
Desta sorte, não parece aconselhável uma substancial redução da área utilizado na cultura do trigo.
Parece antes indicado que se adoptem novas providências no fabrico de pão de trigo, de modo que na sua manipulação não sejam utilizadas farinhas provenientes de outros cereais.
Só assim será possível dar-se ao consumidor pão de trigo de boa qualidade, libertando-o ao mesmo tempo.
das investidas da especulação e dos desmandos dos falsificadores.
Para os restantes cereais panificáveis, tais como o centeio e o milho, deverão fazer-se estudos para possíveis derivantes de industrialização e colocação nos mercados externos dos excedentes destinados ao consumo regional ou local, podendo ainda limitar-se a área ocupada com o centeio, cuja cultura é, regra geral, de lucros acentuadamente negativos.
Mais provas de dedicação, de energia e deliberado espírito de iniciativa vão ser dadas pela lavoura, para que, numa conjugação de esforços com os organismos especializados de que depende, o sector agrário português possa tirar o maior proveito dos grandiosos investimentos que o II Plano de Fomento lhe reserva.
Para que dos investimentos se possam tirar todos os benefícios e alcançar os objectivos visados torna-se necessário e útil que se organizem planos devidamente estudados e que os técnicos acompanhem de perto a vida do agricultor, para que do confronto entre a ciência e as realidades da prática se possa com mais segurança determinar o caminho a seguir.
O problema do regadio é daqueles que requerem uma , meditada e rápida atenção e exige que se façam os mais apurados e sérios estudos acerca da forma do seu melhor aproveitamento.
Foram já investidos volumosos capitais no levantamento de barragens e de represas, para que a água torne mais frescas, verdejantes e férteis vastas extensões de sequeiro, pode as culturas são, regra geral, mais contingentes e menos produtivas.
Impõe-se, no entanto, que o regadio se não deixe entregue aos seus próprios destinos, mas antes se lhe preste a conveniente e cuidada assistência, levando aos respectivos proprietários - até então habituados a outros processos e a velhas técnicas - os convenientes ensinamentos e sistemas de rega e ainda o conhecimento de quais as espécies de cultivo mais adequado.
De contrário, continuaremos a assistir à plantação de oliveiras no regadio - ameaçado até por certas espécies florestais - e à tradicional sementeira do milho ou de outros produtos de reduzido valor alimentar e comercial, não sendo assim possível tirar-se do empreendimento os resultados económicos e sociais que o determinaram.
Assim, a água corre lépida e vaidosa pelos canais, e quantas vezes o proprietário lhe fica indiferente, por não saber tirar dela as necessárias vantagens, e sem que ao menos o ambicionado líquido, assim livremente derramado, possa satisfazer necessidades candentes das populações vizinhas.
Isto acontece, por exemplo, com a populosa freguesia de Ladoeiro, que, estando localizada, em pleno coração da campina da Idanha-a-Nova, vê sequiosa e amofinada a água correr farta e serenamente a seus pés, muitas vezes sem qualquer aproveitamento imediato e útil, não podendo todavia utilizá-la para dar de beber aos seus habitantes, que, não possuindo água potável em abundância, lutam com as maiores dificuldades para a sua obtenção, pois a pouca água de que dispõe a freguesia é captada nas piores condições de higiene, causando por vezes apreensivos casos tifosos, geradores de justificado alarme entre a população
Há que reconhecer, sem dúvida, o valor das áreas regadas, mas torna-se necessário seleccionar e escolher as espécies culturais que lhes são mais adequadas, dotá-las de centros industriais -, onde os produtos possam ser mais convenientemente aproveitados, por forma a poderem com mais optimismo concorrer aos mercados internos e externos, e conceder aos proprietários mais amplas e fáceis possibilidades do recurso ao crédito.