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1478 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 58

Segundo ponto: tenho presente, pelo muito respeito que me merecem e pela autoridade da inteligência que as ditou, as palavras que foram ditas nesta Assembleia pelo Sr. Presidente da Assembleia Nacional aquando da abertura desta sessão legislativa.
Tenho presente as palavras do Sr. Doutor Mário de Figueiredo quando afirmou que cada um de nós, quando falasse, deveria medir bem aquilo que dizia, porque as nossas palavras são sempre maldosamente julgadas e inpretadas lá fora. Por isso mesmo, daqui por diante, como tenho sempre presente as palavras de S. Exa., prometo, firmemente, que nunca mais interromperei V. Ex.ª

O Orador: - AS ideias não se opuseram ideias. Estas, por conveniência ou ignorância, foram postas de parte ou esquecidas. Apenas foram visadas pessoas em defesa de conveniências pessoais. E não faltaram saragoçanos e bandarras envolvidos em esoterismos de seita a levantarem misteriosos espantalhos com que pretenderam perturbar a parte sã da Nação, aquela que não tem senão um único desejo - o de ver a nau do Estado atravessar sem rombos a procela e entrar a navegar em mar bonançoso.
Se não tivesse opinião segura, há dezenas de anos firmada à custa de algum estudo e da permanente observação dos factos da vida de Angola, talvez me tivesse desorientado. Mas nada houve que me forçasse a uma mudança de rumo. Já em 1932, em discurso público que pronunciei nos Paços do Conselho de Luanda, por ocasião da visita do que foi um grande Ministro do Ultramar - Prof. Doutor Armindo Monteiro -, pude afirmar, com a convicção e o entusiasmo dos meus 25 anos: «Para quê a designação de colónias? É para mostrar que temos o domínio de muitos territórios ou apenas para figurarmos na Sociedade das Nações como grande potência colonial? Mas nós não temos domínios; temos, sim, em todos os cantos do Universo, fracções da Pátria, que, somadas, se completam. Pois, a principal causa da fraca e errada concepção que o povo da metrópole tem do Portugal ultramarino e do mau resultado da nossa colonização precisamente reside no facto de o ensino não ser feito com aquela orientação que era de esperar. Os mestres também não têm culpa: ensinam com a mesma consciência com que aprenderam. O ensino é que não esto orientado segundo os sagrados interesses da Pátria».
E quase a finalizar esse mesmo discurso, disse ainda: «... um povo que se lança a novos destinos, abandonando a tradição que o tornou livre, esquecendo os deveres que lhe impõe a memória dos maiores que maior tornaram essa tradição, é como um homem que perdeu a firmeza moral para honrar um nome grande legado pelo pai e não fez caso do que ele lhe ensinou e pediu transmitisse aos filhos».

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - É que a tradição é a bússola dos povos. E aqueles que a perderam ou despedaçaram jamais farão marcha gloriosa através das idades enquanto a não reouverem ou consertarem».
Por isto, sou pela integração,, sem necessidade de ir emporcalhar-me ao Leste para forragear argumentos a favor de uma solução portuguesa ou contra os que a têm combatido, os quais, aliás e em boa verdade, não foram ainda suficientemente corajosos para declararem a causa que defendem, muito embora lhes venha sobrando coragem para outras coisas ... E é caso agora para perguntar: porque caminhos, nestes 80 anos, andaram e andam os homens da minha idade e os mais idosos? Eu encontro-me no mesmo caminho, que continuo a ver claro, amplo e direito; por isso, sem necessidade de andar às curvas e deter-me nos cruzamentos.

O Sr. Lopes de Almeida: - V. Ex.ª dá-me licença?

O Orador: - Faz favor.

O Sr. Lopes de Almeida: - Então não é consciência, mas sim inconsciência.

O Orador: - Devo dizer a V. Ex.ª que nessa altura tinha 25 anos.

O Sr. Lopes de Almeida: - Com 25 anos já se sabe muita coisa.

O Orador: - Noutro passo desse mesmo discurso, ao fazer a crítica da nossa colonização, afirmei: «E não é dentro do actual estado social que poderemos conseguir tão alevantado fim - almejado por todos os que de alma e coração se sentem portugueses. Porque, quando aqui devíamos ter constituído uma sociedade intolerante, dentro das normas de rectidão e justiça que a todas deve presidir - mormente quando nos propusermos criá-la onde não existia -, criámos uma sociedade que ultrapassa os limites da tolerância, cujos resultados estão patentes: rios de dinheiro estèrilmente consumidos com uma finalidade sem programa e civilização apenas constituída por aquilo que é desassimilado por efeito da colonização, que, não sendo da pior, também não é a melhor que podíamos ter realizado».

O Sr. Fernando Frade: -~V. Ex.ª dá-me licença?

O Orador: - Faz favor.

O Sr. Fernando Frade: - Tenho estado a ouvir muito atentamente as palavras de V. Ex.ª e com a maior serenidade, porque gosto sempre de valorizar os meus estudos, mesmo que as opiniões possam ser diferentes das minhas. Simplesmente, está-me a causar uma certa confusão, porque recordo que em Março deste ano V. Ex.ª terá sido a única pessoa que apoiou as palavras do Sr. Deputado Vítor Barros.

O Orador: - V. Ex.ª não escutou na altura desse discurso, ou então não leu com atenção o Diário das Sessões.
Eu apoiei aquele discurso quando o Sr. Deputado Vítor Barros fulminou a acção do Ministro do Ultramar, e continuo contra essa mesma acção.

O Sr. Armando Cândido: - Fulminou, não! Pretendeu fulminar.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Considero-me certo nos princípios e nas soluções. E nunca receei encontrar-me só, por nunca duvidar que tal acontecesse. E, felizmente, não aconteceu. Mas, se o contrário tivesse acontecido, não mudaria de rumo: seguiria o meu destino convencido, como o grande soldado de África que foi o general João de Almeida, de que, mais uma vez, um pode ter razão contra todos.

O Sr. Joaquim de Jesus Santos: - V. Ex.ª dá-me licença?

O Orador: - Com certeza.