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DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 68 1796

o estabelecimento, dentro da mesma Universidade, de vários graus de engenharia, com a consequente integração num desses graus dos diplomados pelos institutos industriais.

Razões ponderosas levam-nos também a pedir ao Governo as medidas que atrás formulamos, a fim de que se desperte na juventude o interesse pelos cursos médios de Engenharia, tão necessários para o desenvolvimento industrial na "hora certa de Portugal".

Ao tratarmos de problemas do ensino técnico, constituiria imperdoável ingratidão se neste momento não prestássemos as homenagens do concelho de Tavira a dois grandes estadistas - o Prof. Engenheiro Leite Pinto e o Prof. Doutor Lopes de Almeida -, felizmente entre nós para honra desta Assembleia.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Ao primeiro deve Tavira a fundação da sua escola técnica, ao segundo o prosseguimento das suas actividades escolares, com a criação dos cursos profissionais e de formação feminina.

Por estes inestimáveis benefícios aqui deixamos a SS. Ex.ªs os nossos mais rendidos agradecimentos.

Disse.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Gamboa de Vasconcelos: - Sr. Presidente, Srs. Deputados: na sessão de 16 de Fevereiro do ano findo, desta mesma bancada, ergui um brado de inquietação e de angústia, chamando a atenção da Assembleia e do Governo para as múltiplas agruras que o isolamento e a distância causavam à vida dos habitantes dos Açores.

Coloquei então na base das suas necessidades mais instantes a resolução do problema das comunicações aéreas, fortemente agravado, a partir dos últimos meses de 1961, pelo abandono, quase completo, da escala de Santa Maria pelos aviões das linhas da América do Norte e, desde há muito, prejudicado pela precariedade de condições do aeroporto de S. Miguel e inexistência de qualquer pista de descolagem ou aterragem em toda a metade ocidental do arquipélago.

Os Açores - todos o sabem - são aqueles minúsculos pontos que os mapas indicam, como acidentes geográficos de somenos importância, no meio do Atlântico.

O que muitos, porém, parecem ignorar é que esses diminutos pontos correspondem a outras tantas ilhas habitadas, cuja superfície anda por metade da área territorial do Algarve e cuja população, de 336 000 almas, excede, de alguns milhares, as 320000 desta província.

Tão grande densidade demográfica bastaria para aumentar, em regime assencialmente agrícola, a acuidade dos problemas económicos e sociais de qualquer agregado humano do continente.

Mas no caso especial das ilhas açorianas um outro elemento surge a onerar e dificultar o labor da sua gente - o mar.

O mar fragmenta o seu pequeno território em nove pedaços, que se espalham dispersos por mais de 200 milhas.

O mar separa-os da Mãe-Pátria por distância superior a 1500 km.

O mar afasta-os do resto do Mundo por rotas que parecem infindáveis.

A vida em semelhantes condições torna-se, assim, incómoda e difícil, exigindo de cada ser não só vigor e coragem para os combates de cada dia, mas resignação e fé para os desanimes de cada hora.

Particularmente em S. Miguel, onde se concentra mais de metade da população do arquipélago e onde, depois da saída de cerca de 20 000 emigrantes, nos últimos dez anos, ainda se regista, no momento presente, a densidade de 229 indivíduos por cada quilómetro quadrado de campo arável ou de serra inacessível, a luta pela sobrevivência é dura em demasia.

Mais de 60 por cento dos homens são compelidos a aceitar a simples condição de assalariado agrícola a troco de reduzido salário, que mal chega para as despesas elementares da manutenção do lar.

A parte restante esfalfa-se na actividade contínua de variadíssimos misteres, sem curar do direito das horas de repouso.

Por mais que o habitante da ilha se debruce, porém, sobre a terra fértil e generosa, esta só por si não basta para a satisfação de todas as suas necessidades pessoais.

Há que trocar o que lhe sobra por tudo o que lhe falta. E, para isso, ele tem de galgar o mar. Tem de vencer u enorme distância que o separa dos centros industriais, comerciais ou educacionais para neles vender ou obter o trabalho, o produto ou o saber que o ajuda a suprir, no regresso, todas as carências que o envolvem.

O Sr. Sousa Meneses: - Muito bem!

O Orador: - E o mar, meus senhores, não é fácil de galgar.

Não é a pé nem mesmo de automóvel que Neptuno deixa invadir os seus domínios.

Para vencer a extensão do seu poder são indispensáveis gigantes bem armados, e os actuais gigantes, quer se chamem navios de turbina, quer se chamem aviões a jacto, necessitam de vastos campos de manobra para que neles se trave, vitoriosa, a batalha do progresso.

Eis, Sr. Presidente e Srs. Deputados, porque em Fevereiro do ano findo aqui me bati, com veemência, pela solução do problema das comunicações dos Açores, problema este que implica, como é óbvio, melhor apetrechamento dos seus portos e construção imediata de mais aeroportos.

O brado quase não foi meu.

Não passei de simples arauto do clamoroso estado de desgosto e de cansada expectativa que então perpassava pela alma dos ilhéus. Quando em Julho próximo passado ouvi que S. Ex.ª o Sr. Presidente da República havia aceitado o convite que lhe havia sido dirigido para visitar as ilhas adjacentes, confesso-lhes que tremi pelos Açores.

Sabia que todos os açorianos estavam profundamente gratos ao antigo e eminente Ministro da Marinha pelo despacho n.º 100, que havia convertido o "zero naval" em 600 000 t de bons navios.

Não ignorava que todos eles se haviam conscientemente decidido pelo seu nome nas últimas eleições presidenciais, oferecendo-lhe, sem reserva, a mais alta percentagem dos seus votos.

Eu não podia desconhecer tudo quanto os Açores deviam, como parcela da Nação, aos ilustres Ministros do seu Governo e ao génio do seu Chefe.

Mas temia que a depressão que avassalava nessa altura os seus habitantes pudesse, por qualquer forma, impedir a exteriorização dos verdadeiros sentimentos de respeito, de admiração e de gratidão que traziam no âmago da consciência.

E à mente, receosa, aflorou-me então o seu comportamento em anteriores acontecimentos semelhantes.

Revi o que havia sido em 1901 a visita do rei D. Carlos e deparei com o povo, que pouco antes protestara energicamente contra a decadência geral, a exigir a sua auto-