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3052 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 123

o segredo do êxito da adaptação, e é o que interessa, está na conjugação dos factores professor; aluno e ambiente.
Não deve a adaptação ter prazo, ou escalonar-se, ou revestir formas especiais. Depende do estado e das necessidades de cada aluno, nem deve sequer dar-se por adquirida mediante exame, porque deixará de ser uma adaptação escolar, aliciante, carinhosa e promotora.
Todas estas considerações, muito sumárias, visam pôr aos nossos pedagogos a essência de um problema nacional, o que me leva a exprimir o desejo de ver estas coisas seriamente consideradas pelo Ministério da Educação Nacional nas reformas que tem entre mãos.
Ainda por isso não me quero esquecer de pedir concretamente, e insistentemente, que sejam convenientemente revistos os programas das escolas do magistério primário. Dois anos de curso é francamente pouco.
Há, aliás, que preparar o professorado primário para leccionar nas escolas primárias a maior parte das matérias dos primeiros anos do ensino liceal e técnico se queremos, como é preciso e urgente, alargar o âmbito da nossa educação de base. Mas no ultramar dois anos de curso de magistério primário são perigosamente insuficientes, porque o ensino da língua comum, que é o português, o ensino da vida portuguesa e da nossa ética são coisas que requerem tempo e não podem fazer-se de afogadilho.
O ensino do português, falado e redigido, põe problemas delicados de métodos, de técnicas, de glossários, de textos de literatura corrente, de processos audiovisuais, de intensidade e durabilidade do ensino, de preparação de pessoal e material, porque, sem os povos assimilarem o que se chama o génio da língua, o nosso idioma não se radica nem perdurará e terá o destino de servir apenas para enriquecer as línguas coloquiais locais.
Não esqueçamos que Moçambique está sujeita à pressão psicológica da língua inglesa como língua universal.
O Ministério da Educação Nacional, que, desde que me conheço, tem andado positivamente arredio das implicações ultramarinas (com a honrosa excepção dos últimos programas de instrução primária, para os quais, porém, não existem livros capazes), não pode deixar de ter em conta a realidade nacional no ultramar e de subordinar neste ponto o interesse metropolitano ao interesse nacional, que nesta época é relevantemente ultramarino. E uma exigência peremptória que lhe fazemos.

O Sr. Gonçalves Rodrigues: - V. Ex.ª dá-me licença?
Não seria preferível dizer que o Ministério do Ultramar é que tem, também em muitos casos, andado arredio da educação nacional?

O Orador: -Eu sou de opinião contrária e peço licença para a ter.

O Sr. Gonçalves Rodrigues: - Com certeza! Fiz apenas uma interrogação.

O Orador: - Devo também chamar a atenção do Ministério da Educação Nacional para as situações grotescas, ridículas, vergonhosas, criadas por tanta ignorância, tantas vezes estampada em livros por ele aprovados, escritos por professores que afinal não sabem e se propõem ensinar.
Tem sido regra os livros metropolitanos que se referem ao ultramar conterem erros, apresentarem omissões graves ou referirem-se u situações ultrapassadas há dezenas de anos quanto a vida das províncias. O que não está certo.

O Sr. Gonçalves Rodrigues: - Muito bem!

O Orador: - Em matéria de livros escolares as províncias estão já a pôr de parte os da metrópole, pela simples razão de que estes não satisfazem.
Reportando-me a uma geografia aprovada oficialmente para a instrução primária na metrópole, por onde meu filho estuda, numa edição de 1961, acho que está errado incluir-se o algodão nas produções de Cabo Verde ou dizer-se que o arquipélago é muito frequentado pelos vapores que fazem as carreiras entre a Europa e a América do Sul, «o que facilita as comunicações entre as várias ilhas e entre estas e o continente» (risos).
A mesma geografia não enumera todos os territórios que compõem o Estado da índia; diz que o território de Damão é muito acidentado; afirma que «em quase toda a colónia o clima é quente e doentio».
Acerca de Macau pode ler-se que «Portugal exerce ainda a sua soberania sobre as ilhas da Lapa, de D. João e da Montanha» (risos). Por essa geografia, que examinei para ver o que é que o Ministério da Educação Nacional manda ensinar aos meus filhos, fiquei a saber que os habitantes de Macau trabalham o ópio (o que eu julgava proibido) e a cidade é notável «pelas suas hortas e quintais» (finos). Das produções de Timor diz que a principal é o café e acrescenta que, «além deste, tem ainda cacau, cana-de-açúcar, carvão, petróleo, cobre, ferro, ouro, etc.», ficando-se, pois, com a errada impressão de que Timor produz tudo isto.
A minha província é porém, a mais maltratada, a começar por estar errada a enumeração dos países vizinhos. Vem a seguir que «o território de Moçambique é essencialmente montanhoso» e lêem-se estropiados os nomes das serras.
Diz-se erradamente que no porto de Lourenço Marques podem entrar navios de toda a lotação e que a ilha de Moçambique fica em frente da cidade do mesmo nome, o que muito naturalmente se considera nos meus sítios uma calinada de alto coturno (risos).
A cabeça das indústrias moçambicanas apresentam-se na citada geografia os artefactos de palha, cerâmica e manufactura de utensílios de ferro.
Se em Moçambique adoptarem este livro inefável, que está oficialmente aprovado pelo Ministério da Educação Nacional para uso das escolas portuguesas, ficarão ali a saber que o caminho de ferro de Quelimane a Mocuba «é para ser prolongado até Tete e daí ao caminho de ferro do Cabo». Também aprenderão que a linha de Quelimane tem um ramal para o Maquival. E deverão fixar muito bem este mimo:

O Trans-ambeziano vai da Beira a Murraça. na margem direita do rio Zambeze, com 251 km. Neste troço de linha férrea há uma ponte sobre o rio Zambeze. em extensão considerada como a maior do Mundo, e depois levará este caminho de ferro até ao interior da Niassalândia.

Ora quando eu estive na Zambézia pela primeira vez, há 21 anos, isto já não era assim haveria uns 10 anos. Também se poderá notar que os grandes aeroportos da província aparecem confundidos com simples pistas de terra e capim numa velha lista já sem interesse, anterior à última guerra. Nampula e o Lumbo não figuram, mas aponta-se em compensação um campo de aviação na cidade do Moçambique, o que seria excelente se fosse verdade.
O campo não existe, porque nem sequer há espaço para ele, mas o meu filho irá aprender que há uma carreira aérea «a ligar a cidade de Lourenço Marques com a cidade de Moçambique». O caminho de ferro de Tete, construído