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3056 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 123

Não basta, porém, acreditar no seu instinto de conservação, é preciso distribuir com permanência, aos novos e aos velhos, o alimento próprio para aumentar as suas energias, a sua inspiração criadora, o seu espírito de sacrifício ë de missão.
Temos cuidado bastante das necessidades físicas do homem português, debruçamo-nos, continuadamente, sobre as suas privações, mas é tempo de também nos preocuparmos de outras necessidades vitais que constituem o alimento da própria alma.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Esse alimento é fornecido por cada comunidade com sabor e cheiro próprio e específico e não tem equivalente.
Nele se encontram comprometidos, em doseamento subtil, o perfume da própria terra, o calor e a bênção das gerações e creio que a música dos ninhos.
Deve servir-se na praça pública e pode recolher-se nas horas altas de vigília e de comunhão nacional.
Mas eu sei, porque mo vêm ensinando a minha perceptora e guia do dia de hoje, que há colectividades que em lugar de servirem de alimento comem elas mesmas as próprias almas.
Quando assim acontece, quando esta desgraça acontece, ou quando as almas definhem, há graves sintomas de doença no corpo social e é preciso urgente tratamento, médico e cirúrgico.
Não quero saber de programas, nem de esquemas; nem de quadros, nem de cifras, nem de escolas, nem de métodos, nem de resultados do ensino.
Quero apenas inquirir, desejo conhecer, como se educam, como se alimentam as energias cívicas dos portugueses de todos os credos, de todas as cores, de todas as idades, de todas as raças, de todos as latitudes, de todos os continentes.
Tenho de averiguar das necessidades da alma, das necessidades vitais do homem português sujeito a uma prova duríssima, sofrendo, sangrando, num clima que lhe arrasa os nervos e queima a pele, cercado, incompreendido, injuriado, combatendo em diversas frentes com o mealheiro partido e derramado, a casa em reconstrução e a Índia cativa.
Creio que esta situação não tem paralelo na história da nossa existência de nação livre e que somos nada menos do que escândalo do Mundo.
Escândalo, porque vivemos, porque teimamos em viver, sossegados em nossa casa, e o fazemos naturalmente, com a naturalidade de quem repete um gesto familiar e vai andando e suando indiferente ao tempo e à temperatura.
Sem alarde, sem bazófia, sem arreganho, conscientes das nossas acanhadas forças e das nossas muitas fraquezas, mas dignos, firmes, seguros, do nosso direito e da nossa vontade.
Cumprimos um mandato imperativo desde aquele dia histórico em que ouvimos uma ordem clara, precisa, curta, que fez estremecer todos os lares portugueses - «vamos para Angola e em força».
Ninguém duvidou, ninguém discutiu, ninguém mais mediu o risco, nem deitou conta à fazenda, nem se queixou do sacrifício.
O Sr. Presidente do Conselho exerceu um admirável magistério, mostrou-se naquela emergência igual a si mesmo, símbolo de perfeita fidelidade à Nação/
Começava um capítulo novo da nossa história ê da nossa vida pública com este exemplo de maior projecção na educação política do País.
Era uma vez um soldado, regista Simone Weil, que contava o seu comportamento em campanha, e, contando-o, dizia que sempre tinha obedecido às ordens recebidas. Porém, reconhecia que lhe teria sido impossível, por infinitamente superior à sua coragem, caminhar voluntariamente, decididamente, para o perigo, sem essas tais ordens.
E comenta depois: «Encerra-se aqui uma verdade profunda; a ordem é um estimulante de uma eficácia incrível, contendo em si, dadas certas circunstâncias, a energia indispensável à acção que determina. Está na definição dessas circunstâncias a chave dos problemas essenciais da vida política.»
Pois aquela ordem pôs em movimento o nosso povo, redobrou-lhe as energias, e ainda se sente subir a seiva das raízes, inundar o tronco e reverdecer os ramos.
É nosso estrito dever alimentar as mesmas raízes, e esse alimento é a própria essência da educação cívica e política que reclamo.
Sr. Presidente e Srs. Deputados: o meu outro propósito foi exactamente conceber a acção do Estado, a acção pública, como modo de educação do País.
Reconhecida a utilidade e a urgência desse magistério, pretendo que tomemos perfeita consciência desta hora crucial em que se moldam e se fundem as nossas estruturas do futuro.
Educação política quer dizer, em primeiro lugar, interesse pela coisa pública.
Diz um doutrinador nosso vizinho de ao pé da porta, doutrinador de grande classe, que o homem de hoje, salvo escassas excepções, vive na mais lamentável penúria doutrinal.
Tem poucas ideias acerca da sociedade e do Estado e dos seus múltiplos problemas.
E a verdade é que também lhe não fazem muita falta, porque o que o move na vida política é o interesse ou a ambição.
Por isso, não tem espírito de sacrifício em relação à comunidade, nem de obediência em relação a quem manda.
A sua ideologia é determinada, em parte, pelo seu interesse pessoal, de burguês ou proletário, e noutra parte por uma peculiar filosofia da historia.
Não sei se querem mais, esta é uma pequena amostra do panorama arrepiante que nos cerca, arrepiante e confrangedor.
Substituiu-se, diz o nosso vizinho, a teologia política pela filosofia da história, è toda a propaganda nas massas se consome na demonstração de que se está do lado das coisas que vêm.
As coisas que vêm só podem fazer-nos mal se não mantivermos a decisão de fazer outras coisas, caminhando em frente, completando o nosso esquema doutrinário, corrigindo erros, usando com exemplaridade dos poderes que nos foram confiados, aperfeiçoando as instituições, exigindo, em nome da Nação, que todos os que são chamados a servir - sirvam; a combater - combatam; a ensinar - ensinem; a estudar - estudem; a trabalhar - trabalhem; e a rezar - rezem.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - É este um grande plano de educação e um grandioso plano de fomento, pois não custa dinheiro e assegura um rendimento efectivo que neste tempo de indispensável austeridade não podemos desperdiçar.
Enquanto se estuda, se programa e se discute nas altas esferas da educação e do ensino, tratemos das raízes, pondo a colectividade nacional em condições de produzir