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28 DE FEVEREIRO DE 1964 3437

as gerações mais velhas não puderam suspeitar sequer quanto mais gozar, e nós os novos de hoje estamos dispostos ainda que com sacrifícios a edificar, mas a fruir!
É evidente que ao formular as minhas considerações me situo na posição de quem, longe do período de decadência, se habituou a olhar mais para o que é preciso fazer do que para aquilo que se fez, sem de modo algum deixar de lhe render o verdadeiro apreço, pois se não fora o mérito incontestável de algumas realizações em todos os sectores não poderíamos agora sequer aspirar e projectar para o futuro.
Vibrando mais pela obra que se segue do que por aquela que acabamos de conquistar, satisfaz-me mais o momento em que eliminamos da nossa agenda um problema do que ficar a olhar a solução embevecido numa atitude narcisista!
A insatisfação é, quando perfumada pelo espírito construtivo e leal, uma arma de alerta que não deixa mergulhar os povos na ilusão enganadora de um dolcc farniente tão prejudicial aos seus destinos. Eis por que as gerações mais novas parecem às vezes irreverentes e inconformistas.
E se do seu coração generoso ressuma por vezes certa inquietação, a verdade é que tem sido do seu seio que têm saído os homens que de armas na mão defendem a integridade do mundo português, e não creio que os conformistas por excelência os possam exceder naquela glória!
Temos de, seguros de que quando queremos somos capazes de fazer, estudar com rapidez e siso os problemas, planificando-os com verdade e justeza, sem gongorismos que escondam nos rendilhados dos relatórios a oportunidade e extensão das questões!
E se na gestão de um problema acaso se tope com uma lei obsoleta ou instituição que estorve os sagrados interesses da Nação, devemos removê-las com a mesma rapidez e serenidade como se de tumores malignos se tratasse!
Tenho pensado algumas vezes se não seria oportuno, dado o desejo e a necessidade de nos elevarmos econòmicamente com o turismo, mandar afixar em todas as repartições e por toda a parte a seguinte legenda: «Tudo pelo turismo, nada contra o turismo», posto que não o ajudar a fomentar por todas as maneiras ao nosso alcance é contribuir para um menor afluxo de divisas tão úteis quão necessárias ao País.
Ainda em relação à Espanha, e não deixando de considerar a nossa posição excêntrica, sabemos que o seu património artístico é superior ao nosso, mas também não é menos verdade que a Natureza foi para nós mais pródiga em muitos aspectos, e, consequentemente, na medida em que formos capazes de valorizar cada um desses aspectos teremos diminuído ou anulado aquela desvantagem.
Tem havido demasiada preocupação de circunscrever o turismo nacional ao célebre triângulo Cascais-Lisboa-Sintra. E ainda há pouco, inexplicàvelmente e perante o pasmo geral, se não incluiu o Algarve, precisamente a região onde o clima é mais ameno e se contam por dias de sol a quase totalidade dos dias do ano, nos programas de carácter turístico para os meses de Abril, Maio, Outubro e Novembro!
Quem tenha viajado alguma coisa não se surpreende com o justificado orgulho por aquele magnífico conjunto, em cujos cenários paisagísticos se podem descortinar dos panoramas mais belos!
O turista, porém, é vário, e uma vez saciados os sentidos, de beleza e fragrância, sente necessidade de evadir-se do que ontem lhe enchera a alma de prazer!
Não tenhamos a veleidade de prender o turista a Lisboa ou à praia da Rocha, a Viana do Castelo ou a Monte Gordo. Portugal, todo ele, do Minho a Moçambique, de S. Tomé a Macau, tem primores dignos de se admirarem e toda essa gama de belezas há-de constituir variada ementa que temos de o levar a percorrer, proporcionando-lhe desde os perigos da caça grossa em África à meditação de uma quaresma em Braga, desde o deslumbramento de uma noite de S. Silvestre na Madeira às aliciantes carícias das praias algarvias, desde a visão de ouro de um poente nas Penhas aos cantares dolentes dos ranchos alentejanos!
Do ponto de vista histórico não teremos a exuberância de motivos milenários ou as preciosidades renascentistas de uma Itália, nem a majestade subtil dos monumentos de Paris, mas temos todo um passado que se atarda na sobriedade arquitectónica dos nossos castelos, que desde Guimarães povoam as nossas terras, se espelha na votiva sumptuosidade gótica da Batalha e se projecta no Mundo pela falésia épica de Sagres!

O Sr. Gamboa de Vasconcelos: - Muito bem!

O Orador: - Temos a garridice das nossas paisagens, a doçura da nossa gente, a tepidez e o perfume do ar que respiramos, a mansidão do nosso mar, um céu azul, a fragrância dos nossos apetitosos frutos e o néctar delicioso das nossas incomparáveis uvas! O que é preciso é oferecer todos estes manjares com simplicidade, elegância e conforto, sem perda de tempo.
Temos, portanto, de organizar uma propaganda que atinja todos os países, criando-se em cada um deles verdadeiros núcleos capazes de proporcionar aliciante conhecimento das nossas belezas, da originalidade da nossa gente e da nossa incomparável afabilidade.
Tudo isto, porém, no mais curto espaço de tempo.
Lembro aos vagarosos ou menos voluntariosos que Napoleão perdeu a batalha de Waterloo porque o general Grouchy, a quem entregara o comando de um exército, não soube manobrá-lo no minuto decisivo!
Temos de obedecer a um comando único, vigoroso, decidido, mas descentralizado.
Em cada capital de distrito ou província ou zona de turismo, pouco importa a designação por que se pretenda arrumar uma vasta região de interesse turístico, deveria haver um gabinete com representantes do turismo, urbanização, comunicações, monumentos nacionais, etc., para resolução de todos os seus problemas, sem a obrigação de, por dá cá aquela palha, passarem pelo filtro superlotado de Lisboa!
E não só por isto, mas ainda para coordenação de todas as manifestações artísticas, diversões, feiras, etc., estabelecendo-se circuitos próprios das várias épocas do ano, mas sempre idênticos a fim de se poderem anunciar com certeza em programas que corram Mundo.
O gabinete a que acabo de referir-me teria, porém, de ter necessàriamente poderes para resolver e não vir a breve trecho constituir mais uma metamorfose pela qual o projecto teria de passar. Que fique isto bem esclarecido, pois de organismos para exigir e empatar já estamos fartos.
É evidente que a necessidade imperiosa de um representante do turismo à escala regional não dispensa de maneira nenhuma as comissões ou subcomissões locais, pois só estas sabem o que convém fazer em pormenor, tal qual como só as donas de casa sabem colocar com arte e distinção uma jarra de flores num recanto da sua casa.

O Sr. Gamboa de Vasconcelos: - Muito bem!