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28 DE FEVEREIRO DE 1964 3431

restal de Monsanto e o parque de campismo e de turismo; miradouros, janelas sobre a cidade; Lisboa de noite; Lisboa centenária, capital moderníssima; viagem à roda de Lisboa; monumentos nos arredores de Lisboa ...
A salvaguarda das cidades de arte ou de simples povoações típicas ou históricas deverá manter-se na primeira linha das nossas preocupações.
A iniciativa da aldeia mais portuguesa de Portugal poderia ter sido prosseguida e valorizada. Quando, por exemplo, nas encostas da serra da Estrela, visito Linhares da Beira e Folgosinho da Beira., entristeço-me, ao ver o abandono a que estes preciosos testemunhos do passado têm sido votados. Os serviços centrais deveriam chamar a si a defesa destes velhos burgos, enquadrando-os posteriormente em circuitos turísticos, que sairiam valorizados pelo ineditismo destes cartazes. No caso concreto, impor-se-ia, de resto, a construção da correspondente estrada de penetração na serra da Estrela.
Mas o nosso desleixo ou incompreensão feriu jóias preciosas, como a própria cidade de Coimbra.
Já noutra oportunidade me referi nesta Assembleia (cf. Diário das Sessões de 12 de Fevereiro de 1958) ao que aconteceu com Coimbra.
O meu primeiro apelo foi então a favor da paisagem tradicional da região.
Não raro, numa consternação toda feita de mágoa, se ouve perguntar: que resta dos celebrados choupais dos campos do Mondego?
Em alguns pontos, confrange dizer que apenas uma ou outra relíquia, talvez prestes a ser sacrificada à intensiva agricultura, à defeituosa expansão urbana, ao progressivo assoreamento.
O que fizeram dos famosos olivais, que, em sua dolente nostalgia, constituíram fonte de inspiração poética a tantas gerações?
Sacrificaram-nos a uma uniformidade de telhados em presenças mortas de caricato geometrismo.
A própria sinfonia dos inigualáveis matizes verdes de Coimbra, que, em sua orquestração de tonalidades múltiplas e gritantes, constituiu, certamente, estímulo aos almejos do poeta do Só, para que os pintores deste belo País viessem pintar, tem corrido graves riscos.
Impõe-se, na verdade, não afastar Coimbra da sua vegetação secular, mas antes devolver à paisagem regional um possível sentido de natureza intacta ou, ao menos, um equilíbrio biológico que se oponha à degradação de um utilitarismo grosseiro, de uma desordenada presença do exótico ou até a prenúncios de uma monotonia pré-desértica.
À volta do centro universitário de Coimbra, ou até antecipando-se-lhe, desenvolveu-se um conjunto monumental e urbanístico inigualável em sua variedade, riqueza e equilíbrio.
Pois este tesouro foi, em parte, sacrificado a uma «urbanização de caliça», que todos condenam, mas ninguém soube evitar.
Importa, ao menos, defender o que resta, dar efectiva aptidão funcional a alguns valores desse património.
Exemplifico com alguns monumentos. A Igreja de S. Salvador, contemporânea da Sé Velha e profundamente alterada nos séculos XVIII e XIX, bem merece as melhores atenções. Manuelino e de decoração naturalista, o Palácio de Sub-Ripas, hoje propriedade particular, é outro elemento essencial da Coimbra artística. Confrange o abandono a que está votado. Não poderia a Fundação Gulbenkian adquiri-lo e instalar nele um museu? A Torre do Anto, bem próximo, não deveria, por seu turno, ser dedicada à evocação de António Nobre, ou da Coimbra estudantil e poética do seu tempo?
Cuidar do património artístico de Coimbra não seria, de resto, só isto. Santa Clara-a-Velha, os claustros e o Parque de Santa Cruz, as capelas transformadas em agências funerárias, armazéns de mobílias ou garagens, os velhos palácios residenciais ou simples casas seculares, clamam igualmente reintegrações e restauros.
Mas o nosso esforço, em Coimbra, deveria prosseguir na criação de novas formas de arte ou estima de presenças culturais.
Não poderia o Governo oferecer à cidade uma estátua de João XXI, a erguer no lugar entre a Sé Nova e a Faculdade de Medicina?
Embora estranho a Coimbra, Pedro Hispano, como Santo António de Lisboa e S. Teotónio - estes dois historicamente tão ligados à cidade do Mondego e infelizmente sem nela também terem a devida consagração pública -, representa, com os primórdios da nacionalidade, um dos maiores luminares da nossa cultura. Papa, sábio mestre e médico famoso, ficaria bem lembrá-lo no solar da cultura portuguesa, num local onde a Igreja e a Medicina se encontram.
Casa-mãe da poesia, Coimbra evoca o amor, a grandeza ou até a desventura de tantos altos espíritos que no recolhimento das arcadas dos seus templos, no isolamento de miradouros famosos ou até nos ardores de um bulício todo feito de inconformismo juvenil abriram os caminhos da cultura, compuseram as mais belas páginas de uma literatura poética que não é pobre. Eis um mundo de razões para ainda aqui renovar o voto para que se erga em Coimbra «uma memória» que consagre os poetas de Portugal.
Mais. A coincidência das festas do Centenário da Reconquista Cristã da Cidade com os 75 anos do Sr. Prof. Oliveira Salazar animam-me também a sugerir que Coimbra preste ao Sr. Presidente do Conselho aquela grande homenagem que desde sempre lhe deveu. A Praça da República, enquadrada, além do mais, pela Quinta de Santa cruz e sua formosa fonte do Jogo da Péla, seria o local indicado para Coimbra erguer uma estátua ao primeiro português do nosso século. Culminaria na sua inauguração todo um conjunto de expressões culturais que testemunhariam a continuidade de um espírito que só tem uma palavra para o definir: Portugal.
E passo a outro capítulo: o do artesanato e do folclore.
A importância, do artesanato recomenda que se defina uma política artesanal delineada com intuitos turísticos, se incremente a protecção e o estímulo das actividades artesanais, se proteja a comercialização dos produtos do artesanato e se realize a sua expansão no estrangeiro. A recente exposição espanhola de recursos turísticos, realizada em Paris, Exportur, e que posteriormente irá a Francoforte, Munique, Roma e Londres, é igualmente um completo mostruário das artesanias do país vizinho.
Iniciou-se, em 1959, um inquérito para localizar os vários núcleos de artesanato popular dispersos pelo nosso país. Conviria acelerar os trabalhos em curso, pois este reconhecimento geral constituirá uma base para o planeamento da valorização futura.
A assistência técnica a olarias como a de Nisa, de Modelos e uma de Barcelos constitui uma experiência quanto ao estímulo a prestar pelo S. N. I. às indústrias populares decadentes. De igual modo, a criação do Museu de Cerâmica. Regional de Barcelos poderá, além da sua função turística geral, ajudar a impedir a degenerescência do artesanato. Justifica-se, na verdade, a multiplicação destes museus de arte popular, convindo que se