1682 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 83
A luta biológica é possível e é do seu estímulo, da investigação e da identificação dos inimigos naturais das espécies perniciosas, da sua cultura e da sua distribuição em boas condições mesológicas que há-de depender a vitória. A meta da luta biológica é esta: manter, através dos seus inimigos naturais, uma espécie prejudicial & economia da sociedade ou à vida humana abaixo do limite numérico em que essa acção pode passar a exercer-se.
A luta biológica é lenta e os seus resultados não se vêem imediatamente. Por isso, porque a acção dos pesticidas é de resposta rápida e porque o apoio económico das empresas industriais é mais facilmente obtido para a produção de substâncias químicas do que para a necessária investigação • biológica, a guerra química atingiu rapidamente este apogeu que põe em risco o equilíbrio da Natureza e a vida do homem.
Vêm de longe, e não é fenómeno recente, esta luta biológica contra as pragas da agricultura e contra os transmissores de doenças graves da medicina humana e veterinária. Muito antes de Pasteur descobrir a doença do bicho-da-seda, já outros agentes de doença dos insectos tinham sido descobertos e aplicados para os combater. Paul de Bach, professor de controle biológico e entomologista do respectivo departamento na Universidade da Califórnia, afirmou, em precioso livro publicado a este respeito, que o controle biológico de insectos, ácaros e ervas daninhas recebeu, nestes últimos setenta anos, um entusiástico acolhimento e foi seguido de grandes êxitos e de excelentes resultados práticos em mais de sessenta países.
O combate a filoxera, nas vinhas francesas, com um ácaro que a parasitava, enviado da América por Riley a Planchou, em 1873, foi um exemplo eficaz da luta biológica.
Mais interessante é a história, bem conhecida, da icéria e da vedai ia, na Califórnia. Foi em 1869 que a icéria foi introduzida na Califórnia, vinda da Austrália. Quatro anos depois, multiplicada à vontade, invadiu muitos espécies vegetais - citrinos e outras. Resistiu a todos os insecticidas experimentados. Riley afirmou que deveria existir na zona donde proviera algum inimigo natural, pois ali 7ião se multiplicara tão intensamente essa cochinilha. Só em 1888 Koebele partiu para a Austrália em busca de predadores da icéria. De lá mandou 24 exemplares de uma joaninha, a Rodolia cardinalis; depois mais 44 e, no ano seguinte, mais 57. Pouco tempo depois, a partir destas 125 joaninhas, puderam ser. distribuídos pelos agricultores 10 555 exemplares. Uma vez espalhados pelos laranjais, rapidamente liquidaram a icéria - aquela icéria que tinha resistido a todos os insecticidas empregados. Muito recentemente, os pesticidas aplicados com outra intenção destruíram a vedália e assistimos agora a uma recrudescência da icéria!...
Podemos aproximar deste coso o que nos informou um ilustre cientista do Centro de Zoologia da Junta de Investigações do Ultramar através de um excelente relatório.
Em princípios deste século, desenvolveu-se na bania do Mediterrâneo, mas ilhas e nos laranjas, o "algodão" - uma praga à qual se ficavam, devendo enormes prejuízos. Os Ingleses descobriram o insecto entomófago dessa praga. Cultivaram-no com êxito no Egipto, e depois foi introduzido no Sul da França. Esse mesmo cientista pode ver, em 1941, verdadeiras "estradas" deste entomófago em demanda de pomares citrícolas, de vinhas e sebes parasitados pelo tal algodão". Pois bem, esta guerra- química dos pesticidas liquidou esse inimigo natural do "algodão" e deixou indiferente o parasita que produz a doença!
Biologistas e entomologistas antigos descobriram doenças dos insectos nossos inimigos - trabalho que foi continuado por outros depois da 2.º Guerra. Mundial, sobretudo no campo date das doenças microbianas. Mais recentemente, salientam-se os trabalhos dos laboratórios especializados da Califórnia e do Canadá, fundados, respectivamente, em 1945 e em 1946, e, depois deles, os de muitos ombros que foram inaugurados em diversos países.
E não ao doenças, causadas por bactérias, mias também por várias espécies de fungos, pelos vírus, pelas ricketzias flagelados, esporozoários, etc.
Estes agentes são eminentemente específicos para cada insecto ou grupo de insectos e os pontos pela sua acção são muitas vezes difusores dos agentes que os vitimaram. Muitos deles são cultiváveis em meios artificiais; alguns deles silo capazes de produzir substâncias químicas com característicos de aplicação idênticas as dos pesticidas.
De todos eles, parecem ser as bactérias os que oferecem melhores condições práticas como instrumento de luta.
Além destes, ombros métodos de luta biológica surgem como promissores de matáveis êxitos - é o caso das substâncias segregadas por certos fungas; a aplicação de hormonas para abreviar metamorfoses e criar condições ambientais impróprias aos insectos; as várias formas de "luta genética" que compreende a esterilização dos machos, por meio de radiações ionizantes ou de vários produtos químicos mostradas com enxofre; mostradas com azoto; ésteres do ácido metano-sulfúrico, etc.), a incompatibilidade citoplásmica, a estirilidade dos híbridos e mesmo factores modificadores da proporção doa sexos.
Não se julgue que isto são problemas de ciência pura para deleite de investigadores!
O Culex fatigens de uma zona da Birmânia foi debelado pela libertação de uma estirpe incomportável - a estirpe incomportável obtida pelo Prof. H. Haven, da Universidade de João Gutenberg, em Mogúncia, na Alemanha. Esta estirpe DI, contém citoplasma de uma estirpe Culex, de Paris, mas os cromossomas são da estirpe Freetown (Califórnia) e de Freetown (África). Foi com estes machos lançados em Rangum que se exterminaram os Culex ali existentes. Foram precisos 5000 machos lançados diariamente para se conseguirem resultados de 100 par cento de ovos estéreis (ao fim de doze semanas). Foi coroada de pleno êxito esta luta selectiva - luta que se circunscreveu à espécie visada.
Outro campo novo nesta luta biológica é o estudo dos odores, de tanta importância no mundo da insectos Eles tanto servem para darem sinais de perigo, como para meios de defesa, como para atracção sexual. Está-se já na via de substituir os naturais por outros artificiais, como instrumentos de luta contra insectos prejudiciais.
Biologistas da Universidade da Califórnia acabam de extrair de certos mosquitos uma substancia que, lançada em minúscula quantidade na agua de um pântano, é capaz de destruir as larvas que lá existam. E a primeira vez que um produto extraído de um mosquito é capaz de actuar como um pesticida. Há fundadas esperanças de poder produzi-lo sinteticamente. Haverá, então, acção insecticida sem poluição!
E não se julgue que é somente em centros muito especializados do estrangeiro que se exerce a investigação ou se põem em prática métodos de luta biológica. Na nossa Estação Agronómica Nacional, no Laboratório de Defesa Fitossanitária dos Produtos Armazenados, do Instituto Superior de Agronomia, e no Centro de Zoologia, da Junta de Investigações do Ultramar, pelo menos, temos um grupo de cientistas que devotadamente se .consagram a uma e outra coisa.
Os trabalhos sobre as toxinas do Bacilus thurigienais que destroem mais de cem espécies de lepidópteros e ai-