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27 DE ABRIL DE 1981 2123

Aos capitães de Abril - a todos os capitães de Abril - e aos conselheiros da Revolução, militares de Abril, muito mais do que a nossa homenagem queria aqui deixar a afirmação da nossa solidariedade fraterna, que estou certo é também a de todos os democratas portugueses.
Sr. Presidente da República, Sr. Presidente da Assembleia da República. Srs. Deputados: O 25 de Abril trouxe-nos a liberdade e, com da, a certeza de que o povo português tem a disponibilidade, a inteligência e a coragem necessárias para transformar, por si próprio, a sociedade em que vivemos, para construir, por si próprio, uma sociedade diferente, mais justa e mais livre. Assim saibamos nós ter também, a inteligência, a imaginação e a coragem de nos integrarmos no devir colectivo, sem estultas pretensões de o tutelarmos, em nome do saber, da cultura ou até do sufrágio. O povo que nas ruas, há sete anos, transformou: o golpe militar num movimento popular profundo é capaz, se lhe não balizarem é caminho de falsos preconceitos, se o não amarrarem a interesses que não são os seus, esse povo é capaz de construir por si o seu futuro.
Sejamos nós também, capazes de estar à sua altura.

Aplausos da UEDS. do PS. da ASDI, do MDP/CDE e alguns Srs. Deputados do PSD.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o representante da ASDI, Sr. Deputado Magalhães Mota.

O Sr. Magalhães Mota (ASDI): - Sr. Presidente da República, Sr. Presidente da Assembleia da República, Srs. Deputados: Alguns milhares de cidadãos eleitores tinham pouco mais de 10 anos no 25 de Abril de 1974.
É natural que não o sintam sequer como memória. Mas direi que para ele -e para os mais novos que eles - se dirige essencialmente a celebração que hoje fazemos. Não pelo paternalismo, melhor ou pior disfarçado, de quem pretende moldar os mais novos à sua imagem; não, para empregar a sua fé e o seu entusiasmo; menos ainda, para esmagar a sua força e a sua esperança com o peso da experiência e do «saber acumulado» (entende-se entre aspas) dos mais velhos. Nenhuma destas formas seria modo de respeito.
Creio que só se respeita a juventude quando se lhe permite que seja ela própria. Esse é também o modo de conservar inteira a capacidade própria dos jovens de renovar o mundo. A nossa responsabilidade maior são os nossos filhos. Que são também o maior desafio que em termos de povo e de Nação nos é colocado. Porque a questão que conta é a do mundo que vamos deixar atrás de nós.
Demasiado tempo andámos a falar de heranças recebidas como porta falsa para escaparmos a responsabilidades próprias. Tanto e de tal modo, que é agora possível assistir-se à justificação dos erros e até dos desvios democráticos-, dizendo-se que outros também os fizeram. Como se fora a imitação dos erros, em particular dos mais veementes denunciados, o ideal a prosseguir e a alcançar. Há quase vinte anos, era o então director-geral da UNESCO que se interrogava: «A rede implacável de penas ancestrais, muralhas sem luz e sem eco de ignorâncias, de incompreensões e de preconceitos, poço de trevas de egoísmos colectivos onde se soçobra sem se dar por isso, circunvalações paralelas repetidas até ao infinito do medo e do ódio, sinistras fortificações de falso realismo que servem de abrigo às crenças abusivas na fatalidade de tudo o que divide o homem, mesmo aquilo que é mais contingente e que faz do próximo um estrangeiro e do outro uma coisa: é esta a herança que estamos dispostos a deixar aos nossos filhos?»
Com a mesma crueza e a mesma frontalidade, também nós havemos de perguntar-nos: é esta a herança que estamos-dispostos a deixar?
Esta é a questão que se nos coloca. Que se colocava, também, há sete anos. Por isso para alguns o 25 de Abril é só uma memória.
Para outros, uma memória sim, mas que gostariam de apagar. Porque é a memória da coragem que não tiveram até a de se opor, como só agora fazem. Seria tão melhor para alguns esquecer que também vieram para a rua a saudar o 25 de Abril. Como agora negam. Com o mesmo oportunismo de então, prolongado na. coerência do oportunismo de agora.

Vozes da ASDI, do PS e da UEDS: - Muito bem!

O Orador: - Para outros, ainda, é apenas memória, mas de desencantos e cansaço. De desilusões. De sonhos despertados ou desfeitos pelas brutalidades dos erros, dos desvios, das omissões e adiamentos. Não é para esses que poderei falar. Falo para os que sem negarem erros nem desvios -porque a história faz a história e só os totalitários a julgam poder rescrever- sentem o 25 de Abril e, ao mesmo tempo, como memória, como quotidiano e como futuro.
Da memória do dia em que de um dia para o outro tudo foi novo e diferente.
Memória do dia em que acabaram gestos contrafeitos e palavras há muito proibidas.
Dia em que ficámos com os outros, solidários e universais.
Dia de festa.
Dia de regressos e do podermos perceber nesses regressos que não há monopólios de patriotismo ou de ter razão. Mas não só memória. Também quotidiano. Porque demasiado tempo perdemos a carpir sebatianismos e a olhar o passado como se a nossa tarefa fosse dominar quimeras e não construir futuro. A esperança não se funda em mitos. Tem raízes na infelicidade concreta do homem e do seu sonho de felicidade, quando ousarmos encará-los de frente.
Retomado em 25 de Novembro o projecto de liberdade 25 de Abril, foi possível por um funcionamento as instituições democráticas. Não será de mais recordá-lo. Estarmos aqui, todos, numa Assembleia livremente eleita, soberana e livre, poder cada um de nós fazer do 25 de Abril e da história recente de Portugal o seu próprio julgamento, deve-se ao mesmo 25 de Abril, reencontrado em 25 de Novembro.
E também nós poderíamos recordar, quase um século mais tarde, a resposta de Clemenceau aos que acusam os parlamentos de se perderem em «palavreado»: «Já que é preciso dizê-lo, essas discussões que vos espantam são a nossa honra [...], têm os seus inconvenientes, mas mais inconvenientes tem o