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3956 I SÉRIE - NÚMERO 94

Por outro lado, é cada vez maior o número de eleitores, de organizações e de simples simpatizantes da AD que lhe retiram o apoio, lhe fazem diminuir o crédito ou deixam esfumar o entusiasmo inicial.
São claros sintomas disso o comportamento do eleitorado nas eleições de 7 de Dezembro, a que fizemos referência, as críticas surgidas a partir da CAP, da CIP e da UGT, mesmo da sua ala social-democrata, e de muitos sociais-democratas, dentro e fora do PSD; e sintoma disso mesmo é a retirada estratégica de «distas» da primeira hora para posições distantes das de destaque, que ocupavam.
O Dr. Carlos Macedo desistiu dê lutar pela sua «tese-diagnóstico» de que o PR é o inimigo principal da AD, porque tem o projecto de contrapor à sua uma «União Nacional, pintada/de vermelho»; O Dr. Pulido Valente deve ter resolvido, finalmente, ir para os Estados Unidos da América; o Dr. José Miguel Júdice cedeu já no último número de o Diabo a sua segunda página de «análise política» à conhecida «democrata» Vera Lagoa, etc. etc.
Mas, mais grave do que tudo isto, são os emigrantes em recessão no envio de divisas e os turistas a procurarem outro Sol, outro mar e outros preços, no que isso traduz de falta de apoio, de indiferença ou hostilidade mesmo a um estado de coisas que lhes não agrada.
Que resta, pois, do projecto político inicial da AD e das condições da sua exequibilidade mais do que o poder assumido e mais do que a componente conservadora que se lhe avantaja, em termos pessoais de liderança, de ocupação de postos governamentais e do aparelho de Estado e em termos da própria concepção do Programa do Governo?
Esta é uma das perguntas que fazemos, Sr. Primeiro-Ministro, e cuja resposta não interessará menos aos cidadãos eleitores da AD do que à oposição ou a nós próprios, em particular.
A crise do VII Governo não a vemos, contrariamente a alguns dos seus correligionários, como resultado da liderança pessoal de V. Ex.ª, Sr. Primeiro-Ministro, e por isso não nos surpreendeu a sucessão de Balsemão a Balsemão.
Também a não circunscrevemos, apenas, à crise interna do PSD, que conhecemos na forma publicitada, ou mesmo às crises, menos publicitadas, no CDS e no PPM.
Quanto a nós, é a AD que está enferma.
É a AD que, tal como foi concebida, se esvaziou de sentido, de possibilidades de concretização, por o seu projecto político ser inadequado no tempo, indesejado no espaço português, como começou a verificar-se, inviável, em suma.
Há escassos oito meses, ainda a dias de se completarem, declarou V. Ex.ª, Sr. Primeiro-Ministro, que o VII Governo séria de legislatura. E disse-o repetidamente, até porque deve ter achado descabida a pergunta que eu próprio lhe dirigi sobre se o seu governo de então não seria, antes, um governo de transição?
Hoje já não perguntarei do mesmo modo: mas gostaria de saber, Sr. Primeiro-Ministro; o seguinte: sabido que o PSD vai realizar em breve um congresso nacional e se à confiança como Primeiro-Ministro ou como presidente do partido lhe for retirada ou, mais moderadamente, se a confiança que lhe for reiterada não votos favoráveis que nacional do PSD, V. possamos e pedirá a demissão como Primeiro- Ministro? Se assim for, como não no condicional, vermos até ao fim da ultrapassar a percentagem de obteve no penúltimo conselho Ex.ª volta a proferir o não sua pode então afirmar agora, se a perdurabilidade do seu ao fim da legislatura?

Uma voz do PS: -Muito bem!

O Orador: - A pergunta e os termos em que a formulo é extensiva aos casos de a respectiva confiança ou disponibilidade partidária ser posta em causa quer em relação ao Sr. Vice-Primeiro-Ministro, quer em relação ao Sr. Ministro de Estado e da Qualidade de Vida. Supondo que o CDS «convidava» o seu líder a presidir a tempo inteiro à União Europeia das Democracias Cristãs ou que, por hipótese absurda, S. M. o Rei, ou os seus súbditos, reclamavam do líder monárquico a prestação de outros serviços, será que V. Ex.ª, Sr. Primeiro-Ministro, por ausência voluntária ou forcada do Governo dos outros líderes da AD, daria por finda a actividade do VIII Governo, com o seu pedido de demissão, ou, peio contrário, estaria disposto a aceitar as substituições que os partidos coligados ao seu entendessem dever fazer? As questões que acabo de pôr têm por de mais relevância quando se reparar que com elas se prendem questões entre nós ainda pouco aprofundadas, como sejam as da dependência ou independência dos grupos parlamentares, constituídos por deputados eleitos pelo povo, em relação aos órgãos dos respectivos partidos, que apenas são eleitos pelas bases militantes.
E isso tornou-se evidente na crise que levou à queda do VII Governo.
O Sr. Primeiro-Ministro nunca perdeu, como se sabe - e aqui já foi salientado -77, a confiança política do Sr. Presidente da República, Não se submeteu a qualquer moção de confiança ou de censura, por parte da Assembleia da República. E, por razões pluripartidárias, pede a demissão e sucede a si próprio na constituição do VIII Governo. É, pelo menos, inédito e, mais do que tudo, revelador da fragilidade do projecto político da AD e do seu iniciado processo de decomposição.

Uma voz do PSD: - Olhe que não!

O Orador: - Mas o novo governo aí está e o seu programa também.
Da sua composição não sabemos que mais destacar: se a transferência de Ministério de um Ministro que, não nos tendo resolvido os graves problemas da habitação, vai agora tratar-nos da saúde; se a escolha de um Ministro que confessou que agora vai falar menos e agir mais, quando não é possível esquecermos as suas recentes afirmações de que um novo «governo Balsemão» seria pior que o anterior; se para o Ministério da Cultura não bastaria um Ministro «culto», sobretudo quando se atribui a Secretaria de Estado respectiva a um co-responsável por vários atentados ao património cultural praticados na cidade de Lisboa.

Uma voz do PSD: -É falso!