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30 DE JANEIRO DE 1982 1767

são horários que se não cumprem; lotações que, de tão excedidas, se não sabem hoje quais são. O que não obsta a que, também aqui, se façam sentir os repetidos aumentos de tarifas.
Sendo a região do Oeste uma região onde se concentram dinâmicos sectores da actividade económica nacional e percorrendo a linha do Oeste, áreas tão fortemente industrializadas como as de Torres Vedras, Caldas da Rainha, Alcobaça - Nazaré, Marinha Grande e Leiria; regiões agrícolas tão ricas como são a grande mancha de vinha e pomar que se estende da Malveira a Alcobaça e as manchas de agricultura de regadio do vale do Lis e do Baixo Mondego; zonas turísticas tão importantes como as de Peniche, Nazaré - S. Martinho do Porto, S. Pedro de Moel e a Figueira da Foz, lógico seria pensar que o caminho de ferro participasse da efectiva vontade de progresso que anima as populações da região. Mas, infelizmente, isso não acontece. E é pena!
Porque as populações desta zona também são portuguesas de parte inteira e também contribuem - e de que maneira! - para a cobertura dos défices crónicos da empresa pública de caminhos de ferro.
O abandono a que a CP tem votado esta linha é conhecido e duramente sentido pelas populações que, em teoria, deveria servir e não serve. E, se é certo que poderão haver razões que expliquem a situação - não o nego -, era bom que elas fossem conhecidas; porque não poderá, de forma alguma manter-se esta situação de desleixo.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Quem hoje se aventurar a fazer uma viagem de Lisboa à Figueira da Foz - e daqui convido o Conselho de Gerência da empresa a tentá-la - pode ficar certo que o espera uma inesquecível sucessão de acontecimentos que bem justificam que o futuro Museu dos Transportes tenha, na Linha do Oeste, o exemplo vivo, e a funcionar, do que era uma linha de caminho de ferro nos fins do século XIX. Pela sinuosidade do traçado; pela velhice das composições; pela velocidade de exploração - 52 km/h nos comboios rápidos, imaginem! Ou sejam 4 h e 10 m de Lisboa à Figueira; pelo desmazelo em que se encontram estações e apeadeiros, a lembrar o pouco que nelas se fez depois que em 1862 o Sr. Duque de Loulé as mandou construir; pela sensação inédita de viajar de pé - mesmo quando se paga bilhete de 1.ª classe, da capital a Torres Vedras. Uma boa hora e meia de percurso, para uns longos 62 km!
Convenhamos que a situação não é brilhante e que a região do Oeste, tão mal servida de ligações rodoviárias, não pode continuar a ser parente pobre na
definição de uma política de remodelação da rede ferroviária, se é que ela existe. Há aspirações legítimas das populações que se não compadecem com indefinições das políticas de transportes, quando essas indefinições, pelo seu reflexo nas economias regionais, afectam interesses que ultrapassam o âmbito local para se colocarem ao nível nacional; pois não é despiciendo o peso do produto gerado em toda a faixa Oeste do País, entre Lisboa e a Figueira da Foz, no cômputo do produto nacional.
Trazer, pois, o assunto a esta Assembleia, representa o iniciar de uma discussão, que se pretende alargada, sobre a importância e o interesse que tem, para a legião Oeste, o caminho de ferro, como eixo de transporte de passageiros e mercadorias e como serviço público que tem de ser.
A problemática da regionalização, tão falada e tão esquecida, na prática, exige que se centrem noutras áreas, que não apenas na administrativa, as discussões sobre a sua implementação, sob risco de se lhe esvaziar o conteúdo e minimizar os efeitos.
Numa altura em que é urgente dotar a região Oeste com uma ligação rodoviária que, de forma fácil articula os seus aglomerados principais entre si - e estes, em conjunto, com Lisboa, dando corpo a uma tão falada e esquecida via atlântica - não é por de mais ocioso reforçar a importância de, em paralelo, se modernizar o caminho de ferro numa linha que, de Lisboa a Torres Vedras, é já suburbana.
A zona sul do distrito de Leiria tem, como a zona norte do distrito de Lisboa, afinidades geográficas, culturais e económicas que implicam relações estreitas dificultadas pela deficiente rede viária de ligação e o mau serviço da CP. Também a zona norte do distrito de Leiria tem, com o Baixo Mondego, estreitas relações que importa aprofundar e tornar mais fáceis.
Em ambos os casos o caminho de ferro poderá ser o ponto de partida para o aproveitamento das capacidades produtivas das regiões que atravessa, imitando, no dinamismo, no trabalho e na vontade de progredir, as populações que o sustentam e justificam.
Assim a CP o queira e o Governo o tenha por desejável.
As populações, essas, continuam, resignadas, a acreditar que o caminho de ferro foi, como vem nos livros, factor de progresso e desenvolvimento económico, e hoje é, apenas, um sorvedouro de dinheiros públicos. Que mantém o desleixo, o desinteresse, a incúria da CP? E até quando, perguntamos nós?

Aplausos do PS e da ASDI.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Daniel Domingues.

O Sr. Daniel Domingues (CDS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Um abraço de despedida, um último olhar com, os olhos banhados em lágrimas, o coração apertado pela dor amarga da partida, um adeus até quando Deus quiser, e se quiser, foram o dia-a-dia da atribulada vivência, num passado bem recente, de quase todas as famílias do Alto Minho.
Foram milhares e milhares aqueles que com um nó na garganta que lhes prendia as palavras que gostariam de dizer, abandonando os seus entes queridos e espraiando a vista num olhar saudoso pela terra que, embora madrasta, levam no coração, partiram para o estrangeiro à procura de melhores dias. Quem teve a felicidade de não sentir na sua carne este drama, aqueles que nunca foram molhados pelas lágrimas de um pai que ontem estava mas já não está, de um filho levado a partir para o desconhecido, de uma criança que não sabe porque chora, mas também chora, que o imagine. Pese embora algumas promessas de retorno definitivo que alguns lhes apontaram em momentos de menos realismo, o facto é, que praticamente todos por lá continuam e ainda outros se lhes juntaram. E se alguns conseguiram condições para fixação do seu agregado familiar, a realidade é que