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2862 I SÉRIE - NÚMERO 67

A Oradora: - Mais 4 jornalistas são agora mortos em El Salvador a poucos dias do segundo aniversário do assassinato do arcebispo Oscar Romero.
Nestes 2 anos a imprensa de todo o mundo, os boletins informativos especiais, os testemunhos vivos, por toda a parte difundidos, têm feito ecoar o grito da luta, o esforço da organização, mas também o martírio bárbaro e revoltante do povo de El Salvador.
Os jornalistas percorrem as zonas de perigo, convivem e entrevistam guerrilheiros e desde o Washington Post, o New York Times, à Prensa Latina, ao Monde, por todo o lado se denuncia e se alerta a solidariedade para com a libertação do povo salvadorenho.
Como a Igreja, também a comunicação social se ergue em força universal e com ela partilha dos seus mártires.
Os jornalistas agora barbaramente assassinados empenhavam-se em revelar a luta de um povo contra a violência de um governo que diz querer reformar a vida e criar justiça através da opressão e da morte.
Por estranha coincidência, ou talvez não, D. Oscar Romero, ameaçado de morte durante vários meses, foi assassinado no momento mesmo em que celebrava missa pela alma de D. Sara, mãe de um jornalista rebelde.
Um tiro em pleno coração pôs ponto final a uma homilia feita de palavras doridas, de paz e de amor, no momento em que iria iniciar a missa por alma de uma mulher que não era uma guerrilheira mas, como dizia Oscar Romero, era um espírito nobre que colocou a sua formação cultural e a sua fineza ao serviço de uma causa tão necessária hoje: a verdadeira libertação do nosso povo.

Vozes do PCP: - Muito, bem!

A Oradora: - Está publicada essa homília, mensageira de paz e que perpetuará as últimas palavras do arcebispo de San Salvador, palavras litúrgicas e palavras proféticas que dão a D. Oscar Romero uma dimensão eterna.
"Saibamos dar o nosso corpo e o nosso sangue no sofrimento e na dor, não por nós mesmos mas para trazer justiça e paz para o nosso povo. Na fé e na esperança unamo-nos intimamente neste momento de oração por D. Sara e por nós mesmos." Neste momento, continua o texto, soou o disparo mortal.
Foi este o momento histórico; outro poderia ter sido, mas este é grandemente significativo. Significativo do ódio dos opressores à paz e significativo da força moral dos que assumem a causa da libertação dos povos.
D. Oscar Romero não era um místico, vivendo apenas o mundo transcendente. Era um homem cumprindo a sua fé, inserido e empenhado na transformação do quotidiano, assumindo com coragem a leitura concreta da realidade.
Aos jornalistas da Prensa Latina, seu grande porta-voz, explicava ele a situação social e política de El Salvador, dizendo: "a causa de todo o nosso mal-estar é a oligarquia, esse reduzido núcleo de famílias que nada se preocupa com a fome do povo e que até necessita dela para dispor de mão-de-obra barata e abundante para fazer e exportar as suas colheitas [...] As empresas industriais, nacionais e estrangeiras, baseiam os seus jogos de concorrência no mercado internacional, nos salários de fome, e isso explica a oposição cerrada a qualquer tipo de reformas ou de organizações laborais que procurem melhorar as condições de vida dos sectores populares [...] Portanto, o monopólio da riqueza e da propriedade acarreta consigo o monopólio do poder político, económico e social, sem o qual não é possível manter os privilégios, ainda que à custa da própria dignidade humana. No nosso país é essa a raiz da violência repressiva estrutural".
Mas o arcebispo Romero não esquece a indispensável interpretação do contexto político e assim refere a governamentalização das forças armadas, pano de fundo desta situação económica e social: "as forças armadas" - dizia ele - "são encarregadas de velar pelos interesses da oligarquia, de manter a estrutura económica e política sob o pretexto do interesse e da segurança nacionais. Todo aquele que não esteja de acordo com o Estado é declarado como inimigo da nação e a pretexto da exigência dessa segurança nacional justificam-se os actos mais execráveis [...] Tudo gira em função dos interesses da oligarquia, uma oligarquia omnipotente que sente um desprezo absoluto pelo povo e pelos seus direitos [...]"
D. Romero foi o pastor da revolução e teve bem a noção que não era a Igreja a perseguida, mas apenas aqueles padres que se recusavam a subverter a sua fé pondo-a ao serviço dos que oprimem.
São suas estas palavras: "[...] é tão grave o quadro da injustiça social, que a própria fé foi subvertida, transforma-se num crime para defender interesses económicos, interesses materiais. Ora bem. Se se chegou à perversão, ao extremo de torturar e assassinar sacerdotes, aqueles que foram mortos foram precisamente os que mais se comprometeram com a libertação do povo salvadorenho."
D. Oscar Romero não foi um mito, mas um homem que deixou uma análise justa e um esquema de trabalho que prossegue. Neste momento aqueles que o seguem lutam pela sua candidatura ao Prémio Nobel da Paz em 1982 e fazem-no com quatro objectivos que resumem a sua mensagem: reconhecer o trabalho exaustivo de monselhor Romero ao serviço da Paz; encorajar os esforços que a sua Igreja prossegue, inspirada no seu pensamento e na sua acção; testemunhar a necessidade de paz para o povo salvadorenho e o respeito pela sua autodeterminação; sublinhar o gesto de monsenhor Romero oferecendo a vida, quando se tornou a voz dos que não tinham voz.
Mas já a voz de monsenhor Rivera Y Damas substitui a voz de monsenhor Oscar Romero e a audiência mundial aumenta.
A morte dos jornalistas é mais um grito que abala o mundo.
Mais eficazmente ido que em 1977, a exasperação perante a manipulação eleitoral há-de trazer mais gente para o campo da luta frontal e alertar mais profundamente a solidariedade internacional.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Embora, num cenário ampliado de fome, de luta, de repressão, a tipologia da libertação, da afirmação dos povos mantém-se.
A tolerância democrática não pode contemporizar com situações limite e a traição espreita os indecisos que deixam os pés titubeamos percorrer caminhos sinuosos.