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10 DE MAIO DE 1985

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Entretanto, como o filósofo da antiguidade, penso que, por mais numerosas que sejam as maravilhas, nenhuma ultrapassará o homem.

O destino deste será também o destino da liberdade. Aqui, Sr. Presidente, gostaria de fixar o nosso encontro, o encontro de V. Ex.ª com o Parlamento de Portugal.

V. Ex.ª, como chefe supremo de um povo que tem feito da liberdade a força anímica dos seus projectos, é garantia da sua fecundidade; o nosso Parlamento, que da liberdade tem feito a trave mestra de todo o seu pensamento, não descurará as oportunidades de a de fender e consagrar.

Neste encontro, exaltada aquela preocupação, manifestados estes desejos, sinto que é possível, cada qual a seu modo, com os meios de que dispõe, unir-se numa acção apaixonadamente comprometida para realizar a justiça, para garantir a liberdade, para estabelecer a paz e termos, então, o direito à esperança no futuro que sonhamos.

Aplausos gerais.

1.ª O Sr. Presidente: - Concedo a palavra a S. Ex.ª o Sr. Presidente dos Estados Unidos da América, Ronald Reagan.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente dos Estrados Unidos da América (Ronald Reagan): - Tenho pena que algumas cadeiras à esquerda parecessem inconfortáveis.

Risos.

Sinto-me profundamente honrado por estar convosco neste Parlamento que é tão rico em história e onde a voz do povo português é ouvida.
Para nós, uma longa jornada está agora prestes a finalizar, longa mas frutífera em resultados e rica em recordações. Cimeiras com chefes de Estado mundiais, a juventude da moderna Alemanha, as calorosas recepções no Parlamento Europeu e em Espanha - tudo isto vimos e por tudo estamos gratos. Contemplámos também monumentos que testemunham a devastação do passado, a recordação da guerra e a crueldade do domínio totalitário. Por outro lado, vimos igualmente as prósperas cidades e nações da nova Europa e tivemos ocasião de conhecer melhor o seu povo livre. Que não restem dúvidas, todos estes factos constituem também monumentos ao futuro e ao espírito humano e à sua capacidade de esperança e de mudança, à sua paixão pela paz e liberdade.
E temos agora a honra de, finalmente, vir a Portugal, um local particularmente apropriado para um americano se despedir como também para trazer saudações, uma vez que os livros de História dos alunos americanos lhes ensinam que foi destas costas que os primeiros exploradores marítimos partiram, e que foi o engenho e a coragem dos cientistas e dos homens destemidos que tornariam possível um dia a descoberta de um novo mundo e de um novo pais.
E, a propósito, espero que não considerem impertinente da minha parte referir que alguém, que, como eu, teve as duas carreiras que eu tive - em Hollywood e em Sacramento, a capital da Califórnia -,tenha para com os Portugueses uma dívida especial. Foi afinal o vosso compatriota de há 4 séculos, João Rodrigues Cabrillo, que descobriu uma extensa faixa de terra ao longo do litoral norte-americano, que veio a ser conhecida por Califórnia. De facto, há algumas pessoas no meu pais que afirmam que eu vivo há tanto tempo que o meu rancho, nas montanhas de Santa Inês, me foi vendido pelo próprio Cabrillo.

Risos.

Mas sei que é hábito de presidentes e estadistas falarem das grandes descobertas marítimas da vossa nação e do vosso passado. E não é certamente de estranhar que, ao olhar para trás através dos tempos, muitos fiquem maravilhados com uma pequena nação, que no século XV recusou seguir outras nações europeias devastadas pela guerra - que rejeitou conflitos e, em vez disso, dirigiu as suas aptidões para a exploração, para a aventura em novas regiões, para o desafio ao sonho, para acreditar em si próprio e no futuro. Consequentemente, esta visão duplicou a dimensão do mundo então conhecido e é encarado, com razão, como um acontecimento marcante na história da Humanidade.
Deste modo, a velha e gloriosa herança do vosso país cria um elo distante mas estreito entre os nossos países e enche qualquer americano, que aqui se desloque, de humilde gratidão e admiração por todos os feitos do vosso povo. Embora não esteja certo de compreendermos todas as alusões à mitologia greco-romana, sei que a maioria dos americanos - e não poucos luso-americanos - partilharia o sentimento do vosso poema épico Os Lusíadas:

Cessem do sábio Grego e do Troiano, as navegações grandes que fizeram. Cale-se de Alexandre e de Trajano, as vitórias que tiveram; que eu canto o peito ilustre Lusitano [...]

Mas nós devemos fazer mais do que celebrar hoje o ilustre lusitano do passado, pois os acontecimentos da última década indicam que mais uma vez os Portugueses iniciaram uma grande aventura; uma aventura que todo o mundo segue de perto. Uma vez mais os Portugueses estão a traçar um novo rumo, não só para Portugal, mas para toda a humanidade, especialmente para os povos do Terceiro Mundo com quem os laços há muito estabelecidos vos permitem dialogar com confiança, sabedoria e sinceridade especiais.
Em pouco mais de uma década a vossa nação movimentou-se rapidamente através de estádios de desenvolvimento que resumem a história deste século: de um vasto império e de uma ditadura a uma confrontação com uma ideologia totalitária, até finalmente uma viragem decisiva para um regime democrático. Embora seja sempre difícil distinguir entre as agitações dos acontecimentos diários e as grandes correntes da história, mesmo assim me permito arriscar uma previsão: os futuros historiadores reconhecerão na caminhada de Portugal a caminhada do nosso tempo, a caminhada do nosso século.
É que vós - o povo de Portugal - escolhesteis a liberdade. Preferiram iniciar uma aventura em democracia. Permitam-me assegurar-lhes hoje que 237 milhões de compatriotas meus - e ainda muitos milhões mais acharão no vosso exemplo o seu próprio caminho para a liberdade - saúdam a vossa decisão e louvam de novo, nas palavras de Os Lusíadas, «o peito ilustre Lusitano».