I SÉRIE — NÚMERO 94
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O que nos dizem estes dados senão a evidência de dificuldades criadas ao acesso à saúde?
Sr. Ministro, a exigência da troica não é um problema de dose, é um problema de orientação política!
O Sr. Manuel Pizarro (PS): — Muito bem!
A Sr.ª Maria Antónia Almeida Santos (PS): — O preceito constitucional do direito à saúde prevê a
garantia da sua tendencial gratuitidade, e esse não foi revogado. E é exatamente por estarmos no domínio das
garantias que não seria fácil estabelecer com segurança a fronteira entre quem pode e quem não pode pagar.
Dito de outro modo, o não pagamento de impostos para quem não tem rendimento e a progressividade dos
impostos pagos para quem os tem corrige o aparente desequilíbrio que possa existir.
Dispenso-me, portanto, de evidenciar o que todos sabemos: o alto custo para o Estado da garantia desse
direito — que não é o único, aliás; o direito à educação é outro. Mas o direito à saúde, a seguir ao direito à
vida, é o mais fundamental direito que a Constituição consagra! Pondo em risco a saúde, põe-se em risco a
própria vida!
Eu sei que o Governo se tem pautado por reduzir encargos e pela preocupação de resolver a situação
financeira do SNS. Mas há tantos que podiam ser reduzidos e não o foram sem que correspondesse a
maldição de recusar o direito a cuidados de saúde gratuitos!
O não cumprimento destas obrigações estaduais não dá pelo nome de restrições orçamentais, mas de
inconstitucionalidade por omissão.
O Sr. José Junqueiro (PS): — Muito bem!
A Sr.ª Maria Antónia Almeida Santos (PS): — Estamos perante um serviço público obrigatório de ativação
e manutenção necessárias e de existência irreversível. Não basta dizer que o SNS existe. Se materialmente o
Governo o descarateriza, está a ferir de morte o pacto de regime inscrito na Lei Fundamental do Estado.
Aplausos do PS.
O facto de ser tendencialmente gratuito e de ter em conta as condições económicas das pessoas significa
que estas têm direito a recorrer ao SNS sem qualquer encargo ou pagando taxas desde que estas nunca, em
caso algum, sejam um impedimento ao acesso por parte de qualquer cidadão a um cuidado de saúde. Por
isso, as taxas moderadoras são ilícitas se abrangerem pessoas sem recursos para acederem ao Serviço
Nacional de Saúde.
Aplausos do PS.
Mas o SNS é ainda universal. Todos podem recorrer ao Serviço Nacional de Saúde sem discriminações e
tem de haver uma adequada cobertura territorial de unidades de saúde pelo País.
O Sr. Ministro, se bem ajuízo, é um eminente especialista em direito fiscal. Terá sido até escolhido para a
pasta da saúde porque o Sr. Primeiro-Ministro entendeu que era o mais apto para fazer economias no sector
básico e fundamental dos cuidados de saúde dos cidadãos.
O equilíbrio das contas públicas é um objetivo fundamental que não é atingível sem pesados sacrifícios.
Mas a justiça está, neste caso, na escolha dos sacrificados e há muito trabalho a fazer naquilo que não dói aos
doentes.
Na saúde, só se poupa apostando na qualidade do serviço.
Perante a gravidade da situação atual, ao terminar, não posso deixar de falar da Maternidade Alfredo da
Costa.
O Sr. Primeiro-Ministro, na entrevista que ontem deu a partir de Moçambique, disse que a Maternidade
Alfredo da Costa necessita de se atualizar. Esta afirmação mostra que o Governo não sabe o que se passa na
MAC. Não conhece este centro de excelência na saúde materno-infantil e por isso o quer fechar.
Defender a integridade das equipas profissionais é também defender a saúde das mães e das crianças
portuguesas.