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232 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 110

Há que reconhecer a enormidade das dificuldades a vencer pelas brigadas especiais, sujeitas a todas as contingências, vencendo todos os perigos e resolvendo problemas graves surgidos a todos os instantes. Tempos decorridos, depois de haver prestado excelentes provas do seu valor, da sua Miragem, da fortaleza do seu espírito disciplinado, o Dr. Pinto da Fonseca assumia em 1946 o cargo de inspector-chefe dos serviços de combate à doença do sono.
E então mais que nunca demonstra ser detentor de ilhas qualidades de organização, de trabalhador infatigável e investigador persistente e consciente, sabendo arcar com as mais altas responsabilidades no cumprimento do dever, que sempre respeitou escrupulosamente.
O Dr. Pinto da Fonseca orientou e baseou a sua campainha, contra a terrível hipnose em directrizes absolutamente novas, com base nos exames em profundidade, e não em superfície.
Exames do suco ganglionar fresco dos portadores de gânglios cervicais puncionáveis, exames do sangue de todos os habitantes quer tenham quer não tenham gânglios cervicais puncionáveis, das áreas glossinadas de toda a província, prospecções que foram iniciadas pela primeira vez em Angola, em Agosto de 1949, por intermédio da brigada da pentamidinização, que actualmente é composta por cinco equipas móveis, cada uma com vinte e um microscopistas.
Antes dessa data os serviços de combate à doença do sono faziam somente, prospecções em superfície, normalmente apenas exames de suco glanglionar a fresco dos portadores de gânglios cervicais puncionáveis. E depois de haver verificado a impossibilidade de destruir as glossinas, dadas as vastas extensões por onde se estendiam, enveredou abertamente pelos meios profilácticos, dedicando primacial importância à quimioprofilaxia pela pentamidina de toda a população nas regiões onde o flagelo se havia tornado endémico.
Serviço difícil, que só o método e a disciplina exercidos com notável autoridade podiam assegurar. E na pentamidina estava a chave do problema. E a quimiaprofilaxia feita com esse produto, operação em que se empregaram variadas brigadas, marcou na história sanitária de Angola grande vitória da medicina. E seja-me permitido ler, neste, momento, um trecho de um relatório elaborado acerca deste facto pelo Dr. Pinto da Fonseca:

Se o sangue dos indígenas pentamidinizados não esterilizar a tsé-tsé infestada que com ele se nutrir, pelo menos, não irá infestar a que não o esteja, e esta, por sua vez, não infectará o homem são. E, tendo presente a afirmação feita na conferência de Brazzaville de que os médicos, franceses não encontraram nunca, na costa ocidental de África, qualquer relação entre os tripanossomas do animal e os tripanossomas do homem (tripanossomíase gambiense), parece que, se deixássemos aglomerados populacionais em zonas de endemia tripanossomiásica, para, serem protegidos, pelo facto de não terem atingido ainda determinados índices, seria facilitar a continuação da existência de vírus circulante, para, fatalmente, infestar mais moscas, as quais fariam, por sua vez, mais e mais doentes do sono. Por isso, repetimos, adoptamos um sistema de pentamidinização total, que, metòdicamente, está sendo levado a efeito e que só deverá ser abandonado quando duas prospecções, com intervalo mínimo de seis meses entre cada uma, revelarem a ausência de casos positivos para tripanossomas, devendo qualquer região ser considerada limpa de tripanossomíase humana somente quando, dois anos depois de ter sido abandonada a quimioprofilaxia anti-hipnósica nessa zona, as prospecções não revelarem a existência de um único caso de doença do sono.

Sr. Presidente: além do que acabo de ler, tenho presentes estatísticas representativas dos resultados colhidos com o método e processo postos em prática em todas as regiões angolanas, cabendo-nos a honra, subida honra, de termos sido os iniciadores da luta travada contra a endemia provocada pela Glossina palpalis, método baseado em processo terapêutico inteiramente novo. E foram brilhantíssimos os resultados obtidos, com os exames em profundidade e a pentamidinização.
Seja qual for o valor no aparecimento de novas terapêuticas, e algumas se anunciam já estudadas e aplicadas por médicos portugueses, a obra do Dr. Pinto da Fonseca será sempre louvada o digna de admiração pelo muito que representa.
Foi-nos consentido trazer até aqui, pertencente ao seu espólio, o relatório que em 1955 seria apresentado à Conferência de Cooperarão Médica Interafricana, o que não sucedeu, visto a morte do Dr. Pinto da Fonseca se dar na altura da realização desse congresso. E é de lamentar que o Ministério do Ultramar não tomasse as providências devidas após a sua morte, para dar o justo relevo a esse e outros relatórios, fruto de uma grande actividade médica!
Sr. Presidente: deve afirmar-se que esse tão brilhante resultado foi sobretudo devido ao entusiasmo, à devoção, ao carinho pelo serviço de um só homem: o Dr. Pinto da Fonseca. Para ele a nossa homenagem de admiração pelo trabalhador e de gratidão português que assim contribuiu para sanear uma das mais ricas zonas da província de Angola.
Com esta clareza e esta autoridade se pronunciava sobre o valor de acção do Dr. Pinto da Fonseca o Dr. Fraga de Azevedo, ilustre director do Instituto de Medicina Tropical, valor internacionalmente reconhecido numa conferência pronunciada no Instituto Espanhol de Medicina Colonial, de Madrid, em Janeiro de 1954.
E afirmava mais:

O sucesso da aplicação é, acima de tudo, a consequência da disciplina, da perseverança, do método e da verdadeira dedicação que lhe tem consagrado o Dr. Pinto da Fonseca.

E em termos repassados da maior admiração e sentimento o Congresso dos Economista Portugueses, realizado em Luanda em Setembro passado, e o Congresso de Medicina Africana, realizado em Outubro, dedicaram a memória do Dr. Pinto da Fonseca as referências merecidas e elogiosas que lhe eram devidas, como carinhosa homenagem pela admirável acção, tão notável no campo da economia, como no campo da assistência médico-social.
Sr. Presidente: o Dr. Pinto da Fonseca desaparecera demasiadamente cedo, quando não havia ainda completado a obra sonhada. Só em 1956 seria apresentado o relatório completo e circunstanciado do trabalho realizado no combate à doença do sono desde 1945, dez anos de combate, e então quase se poderia afirmar a extinção da grave tripanossomíase.
Não o quis a Providência e curvemo-nos perante os seus desígnios. Mas em Angola, nessa província tão rica, tão progressiva e tão portuguesa, orgulho do Império, multidões de vidas poupadas à fúria avassaladora do flagelo e restituídas à família e à Nação por natural instinto lembrarão nas suas orações quem tão devotada e abnegadamente lutou pelo seu bem-estar, e a quem S. Ex.ª o Sr. Presidente da República condecorou