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338 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 117

Aqui está como o problema do abastecimento já era anotado por Gil Vicente e como já no seu tempo o termo de Lisboa não conseguia ocorrer das necessidades da capital. E pode ainda ver-se numa acta do século XVI da Gamara Municipal de Viseu um pedido para serem autorizados a comprar gado no termo do concelho dois marchantes de Lisboa. Portanto, o problema vem de longe.
À parte a mancha do Ribatejo e mais uma ou outra fora dele favoráveis à pastagem natural ou artificial, o resto do País é pobre, em virtude das fracas condições de, humidade e do aproveitamento das terras para outros fins necessários à alimentação.
Ora, quando se raciocina em matéria de criação de gado para talho, pensando naquilo que sucede entre os povos do Norte e os da América do Sul, esquece-se que essas regiões tem um grau de pluviosidade bastante grande, dispõem de terras devolutas e só têm um período crítico, que é o do Inverno rigoroso, ao passo que em Portugal temos dois períodos críticos: o do Inverno, quando é rigoroso, e o do Verão. São dois períodos em que faltam as pastagens. Acresce a estes factos a pobreza geral da nossa agricultura, que obriga à criação de gado para trabalho.
Em regiões como a Austrália, a África do Sul, a América do Sul ou os países nórdicos cria-se ou gado para talho ou gado leiteiro, que vai depois também para o talho. Mas são regiões onde, quando chega a Primavera, se pode soltar o gado para pastagem, só voltando ao estábulo no Inverno.
Eu não sei de região nenhuma em Portugal, salvo a do Ribatejo e uma ou outra mancha no planalto de Trás-os-Montes, onde semelhante processo possa ser usado.
Naqueles países situados nas regiões que referi verifica-se que o trabalho ou é produzido pela máquina ou por cavalos - os bovinos não são criados para trabalhar, mas para dar carne e leite.
Lembro-me de que, quando cheguei à Argentina, nos fins do Verão argentino, em Março, fiz uma viagem partindo de Buenos Aires para Mar del Plata, e recordo-me bem do pasmo que senti quando atravessei o Pampa e vi pastos verdejantes, como se o Verão não tivesse passado por ali. E que naquela região há um elevado grau de humidade e água em abundância. E pasmei porque me lembrava, porque tinha bem gravada a imagem da paisagem portuguesa do fim do Verão, com os campos ressequidos.
Quem fizer a travessia do Pampa no sentido du Buenos para a Cordilheira pode verificar a riqueza dos pastos, pela variedade do gado que encontra. Aparecem primeiro os bois mais exigentes, depois os menos exigentes, até se chegar ao Aberdeen: e quando começa a subida para a Cordilheira, pela província de S. Luís, aparecem as cabras. As ovelhas andam mais para o sul, para as regiões da Patagónia. Há ali, portanto, condições para a criação de gado que nós não temos em Portugal.
Parece-me difícil encarar o problema da criação de gado especial para talho sem ter em conta esta questão dos pastos.
Julgo que teremos de continuar a criar gado para trabalho, mandando-o para o talho quando já não convenha a sua exploração.
Na Argentina - vá lá mais uma nota histórica - a exploração pecuária do Pampa foi iniciada por dois portugueses, os irmãos Gois, que partiram nn fim do século XVI de Santa Catarina, no Brasil, com sete vacas e um touro, a caminho de Assunção, no Paraguai. Foi com este núcleo inicial que começou a exploração pecuária do Pampa.
O problema futre nós sofreu um certo agravamento, porque os bois furam substituídos, nos trabalhos de estrada, pela máquina e pela camionagem, e até nalgumas lavouras os bois foram expulsos pelos tractores e charruas mecanizadas.
Pode supor-se que este gado terá sido substituído em parte por gado leiteiro; julgo que sim.
O País, creio eu, não pode lançar-se na criação de gado para talho. Há-de
ater-se ao gado de trabalho e consumi-lo. Isto supõe certa política de preços. Até certa altura o gado de trabalho era mais harato do que o gado de talho e assim ,exploravam-se os bois durante três ou quatro anos e depois engordavam-se e entregavam-se para matança ainda em boas condições. Com o dinheiro resultante da venda comprava-se nova junta de trabalho. Mas, em certo momento, inverteu-se esta posição e foi atribuído um preço mais alto ao gado de trabalho e um preço mais baixo ao gado de talho, o que deu em resultado o gado de trabalho ser explorado durante mais tempo. O gado passou assim a ser enviado para o talho mais idoso, mais duro, portanto pior.
Falou-se aqui no gado barrosão. Esse gado foi muilo apreciado em Inglaterra, mas também este é gado de trabalho.
E é não só notável pela sua carne, mas também pelo couro - o melhor couro industrial de bovino que se conhece e o mais altamente cotado. A sua espessura, igual nas bandas e na croûte, permite um aproveitamento quase sem desperdícios.

O Sr. Manuel Vaz:- É uma, pequena, mancha em desaparição, em virtude de circunstâncias que V. Ex.ª conhece.
E falando de gado leiteiro:
Quando tive de intervir no assunto, contrariei a importação de gado holandês. Não digo que não tenha de recorrer-se à importação de gado estrangeiro para suprir as deficiências de gado nacional produzidas por epidemias ou outras contingências, mas não deve faxer-se isso por sistema. O gado holandês, o mais importado, tem suas exigências de boca, que dificilmente podemos satisfazer. E, na verdade, numa visita que fiz à Estação Zootécnica da Fonte Boa vi lá uns núcleos de gado holandês, mirandés e outros. Do holandês, porém, as boas linhas tinham sucumbido. E não lhes faltou assistência veterinária, nem ração adequada. Imagine-se o que sucederá com a difusão deste gado pelo nosso campo, mal assistido e pior pensado.
As vacas que mais convêm às condições agrícolas de Trás-os-Montes e da Beira são as mirandesas e do Jarmelo. Trabalham, dão leite e dão a cria. Com o trabalho e o leite pagam o sustento: a cria é o lucro.
No que respeita à qualidade do leite dessas vacas, verifica-se que é excelente., pois tem um teor de gordura muito superior ao do leite produzido pelas vacas turinas e holandesas. E, se o leite for para produzir manteiga, é de maior rendimento. A menor quantidade de leite produzida é largamente compensada pelo maior rendimento em manteiga.

O Sr. Rui de Andrade: - Mas se as mudam de clima e meio perdem essas qualidades.

O Orador: - O que se devia ter feito era tentar a sua adaptação, para que tal se não desse.

O Sr. Rui de Andrade: - V. Ex.ª sabe que na serra de Monsanto, por evemplo, as ovelhas dão quantidiides de leite extraordinárias, mas que, se as tirarem de, lá e as levarem para outra parte, elas perdem o leite?