430 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 122
tudo, aquele quadro do Pollaiolo, de quem, no contrário do que sucede com o autor dos nossos painéis, existem numerosos pinturas na Itália e fora da Itália, está longe de representar para o país da arte o que para nós representa o apreciável políptico ou mesmo o S. Pedro, de Grão Vasco, que se encontra também na exposição de Londres.
E isto nos faz lembrar que o quadro de. Pollaiolo estava bem mais seguro na Capela de S. Miniato al Monte do que o outro S. Pedro, o de Arouca, que depois de restaurado foi devolvido de novo no perigoso exílio, onde só por acaso não foi irremediavelmente consumido pela incúria, como aconteceu a tantas outras pinturas que ali tivemos ocasião de ver e deplorar...
Considerando este caso e o do Museu dos Uffisi, de Florença, há que meditar nesta outra função dos museus: a de recolherem os originais dispersos nos seus distritos ou concelhos quando se não encontrem devidamente e permanentemente acautelados ou em lugares dificilmente acessíveis, isto sempre que se trate de trabalhos que mereçam considerar-se como património artístico da Nação.
Vozes: - Muito bem!
O Orador:- Depois dos exemplos apontados, creio que não poderemos hesitar sobre a conveniência de mandar reproduzir o nosso retábulo por uma grande artista que seja um perfeito erudito nos processos, técnicas e materiais de pintura. E, como vem a propósito, permitam-me ainda VV. Ex.as que lhes refira uma outra nossa história, que também merece ser meditada.
Em 1808 o grande pintor Domingos Sequeira passou pelo Mosteiro da Batalha em companhia de outro pintor, o francês conde de Forbin, que era então oficial do estado-maior de Junot e havia de ser mais tarde o director-geral dos museus de França.
Os olhos dos dois artistas pousaram, encantados, sobre um formoso painel flamengo que representava a família ducal luso-borgonhesa de Filipe, o bom, ajoelhada em adoração à Virgem: a duquesa Isabel, filha de D. João I; seu marido, o duque de Borgonha, e o jovem conde de Charolais, que havia de ser o futuro Carlos, o Temerário. E logo Domingos Sequeira, encantado com a beleza da pintura, fez ali um rápido esboço, anotando à margem as dimensões, em palmos. Sabemos assim que o quadro tinha 1,50 m x 1,10 m. Pois bem: este apontamento é tudo quanto nos resta!
O soberbo painel desapareceu, depois daquela visita, e nunca mais se soube dele!
José de Figueiredo atribui o quadro a Vau der Weyden, e é fácil presumir que não pudesse ser outro o autor, que pintou, aliás, muitas outras personagens da família, de Avis, como o têm demonstrado os estudos iconográficos do arquitecto e crítico de arte Tose Cortês, feitos em diversos museus da Europa.
Por sinal que o simples apontamento de Domingos Sequeira constituiu para José Cortês um elemento importante para corroborar a identificação, aliás já proposta, da Sibila Pérsica, da Colecção Rockefeller, com a duquesa Isabel de Borgonha.
Que pena que se não tivesse feito em devido tempo o que o Estado italiano fez com o painel de Pollaiolo, recolhendo o quadro de Vau der Weyden, do qual poderíamos agora admirar outra bela e fidelíssima cópia, enquanto o original figuraria hoje num museu onde estivesse convenientemente policiado e preservado, sob a vigilância constante e os cuidados de um conservador apto para zelar e manter a obra de arte em perfeita conservação.
De muitas outras obras de arte -estátuas, cruzes, baixos-relevos, painéis de azulejos- espalhadas pelo País e tantas vezes expostos aos transtornos do tempo e às selvajarias mais bárbaras ainda de estúpidos e facínoras se deverão fazer os necessários duplicados para constituir inventários vivos a confiar à guarda dos museus.
Só no que respeita aos painéis de azulejo da ruas de Lisboa quantos não tem desaparecido e quantos outros se não encontram por aí confrangedoramente mutilados! Já noutro ponto tive ocasião de me referir ao grande valor que para o enriquecimento de tantas ruas e recantos da cidade têm estes variados e numerosos, painéis, uns rectangulares, outros recortados, uns nos nocrómicos. outros policrómicos, uns simples, outros dípticos, triplicos e polípticos, que, sobretudo nos séculos XVII e XVIII, se espalharam por todo o País e, particularmente, em certos bairros de Lisboa.
Causa verdadeira mágoa ver as mutilações que dia a dia vão roubando a certas ruas da capital, particularmente aos seus bairros mais antigos, algumas destas garridas ornamentações azulejísticas que iluminam com o seu acolhedor sorriso, na claridade viva dos seus vítreos esmaltes, aquelas ruas evocadoras onde insistem em morar ainda saudosos fantasmas da nossa história urbana, como vizinhos que se não afastam do remanso familiar do seu lar antigo.
Nestas produções de cerâmicas artísticas somos mais ricos do que nenhum outro país do Mundo, com excepção da Espanha. Porém, as injúrias do tempo, as ruínas dos prédios, as reparações sem critério, vêm dia a dia mutilando ou desfigurando em parte os formosos painéis hagiografados, irmãos dos registos de xilogravura e gravura em cobre cm que se exprimia a devoção dos nossos artistas populares e a fé dos nossos proprietários e construtores.
Um lindo painel figurando uma custódia gloriosamente colorida no seu vidrado amarelo resplandecente foi há poucos anos retirado duma caí-a de gaveto «n Al fama e comprado por um inglês bom amador destas luminosas ornamentações exteriores de moradias, tanto ricas como pobres.
Torna-se necessário fazer o inventário dos nossos painéis de cerâmica historiada, de prédios e jardins, mas num inventário vivo, que lhes conserve o sabor estilístico e o carácter individual, fielmente reproduzidos em desenhos aguarelados, flagrantemente documentais, para que os conservadores distritais possam promover a restauração ou substituição dos azulejos mutilados.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Quanto trabalho útil encontrarão os nossos artistas nestes inventários vivos das variadíssimas espécies do nosso património artístico! Pois não será esta também uma das mais valiosas funções dos museus, entre as variadas formas de fomentarem não só o culto das artes, mas também a exigência dos artistas?
Não podem fomentar-se as vocações artísticas se não houver trabalhos espécies utilizados que lhes garantam a vida económica. A função dos museus não deve restringir-se a promover estaticamente a admiração pelo passado e pelo presente. Deve ser também, dinamicamente, a de promover o futuro. E a de dar, de cada vez mais superiormente, uma noção mais profunda do que seja a obra de arte.
A sociedade actual está, no que respeita ao culto das Belas-artes, muito voltada para o efémero, para o agradável, para o superficial. Como se a obra de arte não tivesse existência só por si e se devesse considerar mero ornamento de salas de estar.
A cultura artística tem de ser introduzida vivamente no espírito dos nossos tempos, com um sentido mais profundo e mais eterno. E se à escola pertence a forma-