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3 DE FEVEREIRO DE 1936 431

ção técnica dos realizadores da arte, no museu inteligentemente integrado num sentido pedagógico, pertence a cultura e orientação da sensibilidade, estética de multidões mais vastas, sem as quais se estiolam, por falta de atmosfera vital, virtualidades realizadoras de muitos artistas.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Reportando-me agora ao assunto das bibliotecas, nada tenho a acrescentar ao que há cinco anos disse na sessão de 17 de Março de 1930.
Congratulo-me por verificar que a nossa biblioteca Nacional vai por fim ser instalada em edifício condigno, livrando-se assim das perigosíssimas condições em que se encontra e que naquela intervenção denunciei a esta Assembleia. Aguardemos que os outros pontos da mais alta importância que então expusemos sobre a conservação e restauração de documentos e de livros, sistemas de catalogação, de intercâmbios e de empréstimos, desdobramentos em secções especializadas etc., venham a ser resolvidos com tanta suficiência como o está sendo o importantíssimo e primordial problema da sua instalação.
Cumpre-me apenas neste momento considerar a necessidade de dotar as bibliotecas mais importantes com fotocópias e filmotecas, onde se possam projectar documentos e reproduções de obras raras. Temos, por exemplo em Vila Viçosa, a colecção magnifica de incunábulos reunidos por el-rei D. Manuel II, de alguns dos quais deveriam existir as necessárias reproduções nas nossas principais bibliotecas, para que os estudiosos que não podem deslocar-se e permanecer naquela terra o largo espaço de tempo necessário para observar aqueles raríssimos cimélios não sejam por isso privados de os consultar, embora por forma indirecta. Com muito mais razão nos referimos a certas obras de bibliotecas estrangeiras.
Em conclusão e reportando-me ao assunto dos museus: reconheço o grande benefício que as exposições representam para a dignificação do nosso país, e não só aprovo como louvo as suas realizações. Julgo, porém, necessário que passássemos a precaver a existência das nossas obras de arte, obtendo das mais importantes as mais perfeitas cópias e documentação. E daqui me dirijo ao Governo da Nação e em especial à alta inteligência e culta sensibilidade de S. Ex.ª o Ministro da Educação Nacional, fazendo votos:

1.º Para que sejam instituídos museus em todas as cidades do País, ou pelo menos em todas as capitais de distrito:
2.º Para que lhes seja dada uma função pedagógica perfeita:

a) Fixando sempre ao pé dos diferentes objectos expostos (pintura, escultura, mobiliário, etc.) dísticos informativos sintéticos, mas tanto quanto possível esclarecedores, contendo não só os nomes e as datas referentes aos autores e às obras, mas também a designação da escola ou do estilo, a indicação do que de mais notável se contenha no quadro (quando para tal haja motivo) e um esquema à margem com as indicações indubitáveis ou hipotéticas acerca de cada figura:

b) Promovendo anualmente nos museus lições regulares sobre a História de Arte em geral, mas tomando tanto quanto possível como fulcro as obras expostas e a sua história particular;

c) Dotando todos os museus com uma sala de leitura especializada sobre assuntos de arte e tudo quanto se relacione com os objectos expostos e com os assuntos tratados pelos artistas.

3.º Para que, pelas razões expostas, sejam copiadas com a mais absoluta exactidão (não apenas no que se refere à técnica e à visualidade, mas ainda no que respeita aos materiais de suporte, preparos, pigmentos e demais substâncias pictóricas) as obras-primas consideradas fundamentais para a história da nossa pintura;

4.º Para que, pelos motivos indicados, se constitua um inventário vivo de desenho e pintura com reproduções fotográficas coloridas, diapositivos projectáveis e ainda fundições em metais resistentes das obras de modelação em substâncias frágeis, bem como das obras de ourivesaria mais delicadas,
5.º Que da mesma forma se faça um inventário dos painéis de azulejo de real valor que se encontram expostos exteriormente em vários pontos do País, bem como as composições de maior importância existentes em palácios e jardins particulares, reproduzindo-os em diapositivos coloridos e em aguarelas fidelíssimas para enriquecimento dos museus e possibilidades de fiéis restauros;
6.º Que se instituam nas nossas bibliotecas principais secções de fotocópias, filmotecas e gabinetes de projecção, fazendo acompanhar os documentos com a respectiva leitura nova.

Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem !

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Rui de Andrade: - Sr. Presidente: venho hoje tomar parte na discussão do aviso prévio apresentado pelo Ex.mo Sr. Dr. Sr. Abel de Lacerda, não pelo desejo de fazer crítica, mas somente para reforçar alguns dos argumentos que nos apresentou como esclarecimento à sua tese.
Começarei por focar um ponto muito importante, que é o número, a cultura, os meios de acção e a remuneração do pessoal que é chamado a dirigir os restauros, as pesquisas de relictos arqueológicos e a conservação dos monumentos, e para elucidar este ponto trarei aqui aquilo que a minha experiência me tem ensinado.
Antes de tudo desejo manifestar o meu reconhecimento ao interesse que o Estado tem dado nestes últimos anos à conservação e reconstituição do nosso património artístico.
De facto, estou convencido, pelo que vejo, que em nenhum país se tem dedicado tanto interesse aos seus monumentos como em Portugal - julgo não errar dizendo que a conservação dos monumentos está em grande avanço sobre os outros países que conheço, mesmo a própria Itália, onde este assunto mereceu em tempos passados grande atenção. Já poucos são os castelos e poucas as igrejas de merecimento artístico aos quais se não tenha procurado acudir de alguma maneira, nem sempre com o maior acerto, obriga a verdade a dizer, mas sempre com o desejo de acertar, mas isto geralmente foi erro de um passado já velho e do intervento de pessoas, especialmente amadores, não preparadas para essa difícil tarefa.
E nesse capítulo vem a propósito lembrar uma situação que vi desenrolar-se debaixo dos meus olhos.