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3 DE FEVEREIRO DE 1956 427

mente os artistas e estudiosos que os visitem, indicando a escola a que pertence determinada obra, o estilo em que foi executada determinada peça de mobiliário...
Particularmente no que toca ao mobiliário :os esclarecimentos museológicos ou pecam por ausência ou por notável deficiência. Não basta indicar o século a que pertence determinada peça, porque no mesmo século se podem encontrar estilos e processos inteiramente diferentes.
É necessário demover de vez, e por toda a parte, aquela falta do critério museológico que reveste o museu de um aspecto esotérico e dá ao visitante menos esclarecido a impressão comprometedora de se sentir um importuno que se encontra ali a mais.
Impõe-se que o museu seja de cada vez mais vivo; que ele fale e se dirija individualmente a cada um dos visitantes. Só assim ele poderá exercer uma função verdadeiramente social, ganhando em amplitude pedagógica sem nada perder da acção o cultural de profundidade.
O mesmo objecto contém, ao lado de elementos mais ou menos estáticos de forma, de linha, de luz e de cor. outros mais ou menos dinâmicos, estimuladores da actividade do pensamento, da imaginação, da interpretação de símbolos e de elucidação histórica.
Exposta com a atracção dos seus enigmas às subtilezas analíticas da consciência de uns, ou agindo como fonte de radiações no subconsciente dos outros, esta multiplicidade de facetas em que desenvolve a obra de arte que se ostenta num museu fax que um mesmo objecto possa estar ali tanto para ser compreendido pela inteligência e sensibilidade estética dos amadores superiormente cultos como para exercer ao mesmo tempo uma função útil, de estímulo educativo, dirigido ao primarismo dos indivíduos menos dotados a quem uma curiosidade espiritual impele a visitar os museus.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Por outro lado, necessário se torna dotar todos os museus, criados e a criar, com pequenas bibliotecas bem especializadas, onde os amadores mais interessados ou mais ilustrados possam encontrar elementos de historia de arte, antiga, moderna e contemporânea, capazes de melhor elucidarem o seu interesse e de aumentarem a sua cultura artística e geral.
Admitida a função pedagógica dos museus, somos levados naturalmente a desejar ver estas instituições multiplicadas por todo o País, tanto mais que, contrariamente ao conceito generalizado, e embora tal afirmação possa parecer paradoxal, não hesito em considerar a função dos museus mais educativa, para o grande público, do que a das bibliotecas.
Na verdade, para muitos dos leitores a biblioteca está à margem da cultura, tendo uma acção mais distractiva do que educativa, quando não tem mesmo uma função deseducativa ou prejudicial, pois nela se podem fomentar, ao lado das maiores virtudes do espírito, os maiores vícios da moral ou do pensamento.
Sob o ponto de vista instrutivo tem a obra de arte um poder excitante e mnemónico visual que os livros em geral não têm. Nada como a visualidade artística vale como ponto de partida e estímulo de interesse para as curiosidades do espírito, sem se prestar, como a leitura, a ver frustrada ou pervertida a sua utilidade.
E mesmo o livro bom quantas vezes possui ele, como a obra de arte, uma linguagem que a todos se dirija? Quantas vezes, não fala apenas aos que têm um determinado nível de cultura ou mesmo uma cultura estreitamente especializada? Quantas vezes a sua linguagem se não mantém completamente hermética para quem não conhece mais do que a própria língua?
Não assim a obra de arte. Ela é tão universal como a língua antes de Babel. Fala ao mesmo tempo todos os idiomas, e dirige-se a cada um conforme a sua inteligência e tem sempre uma revelação a fazer - quanto mais não seja, uma palavra de beleza!
Atendendo, pois, ao papel eminentemente educativo que o museu, considerado como elemento rio cultura, pode desempenhar, desde as classes mais intelectuais até às classes menos cultas (para as quais a visualidade representa uma atracção, que pode carrilar o interesse para os caminhos do espírito), somos levados a utilizar essa acção pedagógica dos museus, multiplicando-os pêlos diversos distritos, tanto nas capitais como nas outras cidades.
Desempenharão ainda o papel de fomentar nessas capitais a concentração de elementos artísticos dispersos, e por isso muitos deles praticamente inexistentes.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - E poderão ainda receber, a título de depósito temporário, objectos ou mesmo pequenas colecções que ficarão às ordens dos seus depositantes, os quais terão assim ocasião de os fazer admirar e tornar conhecidos.
Por outro lado, receberiam os museus distritais, para as manter em exposição, as obras que, por serem excessivas para a capacidade dos museus mais ricos, se conservam em depósito em caves ou arrecadações, sem utilidade para ninguém e às vezes com prejuízo para as próprias espécies (particularmente no que se refere à pintura e aos gessos, tão facilmente alterados pela humidade como susceptível de mutilações pela sua fragilidade).

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Outra função destes mesmos museus regionais seria a de organizarem em dias certos visitas elucidativas, em que os interessados iriam recebendo as noções artísticas necessárias, em lições apropriadas, que serviriam ainda para estimular o gosto e a cultura artística das diversas regiões do País. Aos conservadores não competiria apenas a função de conservar, mas também a de ensinar. Esta obra pedagógica é da mais alta importância. Poucos cursos, repito, serão susceptíveis de tão interessada frequência, pois que os interesses da visualidade são dos que mais profundamente encantam o espírito do homem e é variadíssima a cultura, designadamente histórica e literária, que se pode desenvolver tendo como fulcro a cultura artística.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- A custódia de Belém, por exemplo. Obra de um ourives e de um poeta, que fonte preciosa para uma série de lições sobre a poesia e as duas correntes literárias do século XVI! Sobre a história das artes plásticas do período manuelino e joanino, com a sucessão de duas expressões artísticas tão opostas! Sobre a epopeia dos Descobrimentos e a história das Descobertas! Sobre a nossa acção pedagógica e social no Oriente...
Outra possibilidade importantíssima dos museus consiste em poderem reunir em exposições eventuais - como, aliás, se tem feito algumas vezes- obras que, por afinidades de assuntos, de autores ou de escolas, ganham em ser vistas e apreciadas em conjunto, como recentemente se fez no Museu Malhoa, das Caldas da Rainha, por iniciativa do seu ilustre director, António Montês.