432 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 122
Depois da exposição de Turim de 1854, na qual meu pai revelara o valor do tesouro arqueológico do Piemonte, constituído pelos exemplos arquitectónicos da Idade Média, o Governo Italiano encarregou-o, se bem que o estrangeiro, da fundação de um organismo especial para a descoberta, estudo e restauro de quanto pudesse ter interesse artístico, e surgiram então, primeiro no Piemonte e na Ligaria e logo a seguir - visto o óptimo resultado dos primeiros organismos, fundados e dirigidos por meu pai - em todo o resto da Itália, as repartições para o restauro de monumentos.
Tinha meu pai um senso especial da função artística do monumento no seu ambiente e no seu aspecto e um respeito muito grande pelo valor histórico e pela evolução da arte construtiva dos monumentos, e quando se dedicou ao trabalho de salvar as obras de arte teve a maior dificuldade em achar colaboradores, mas, com a habilidade e saber quis adquirir quando fora professor de Arte Industrial e Artesanato da Academia Linguística de Génova, foi a pouco e pouco criando um pessoal adaptado à tarefa que lhe tinham confiado.
É que a arte do restauro de antigos monumentos tem de ser cheia de conhecimentos, arquitectónicos o artísticos, e de respeito histórico pelo objecto da atenção do restaurador, de modo que, usando de todos os meios para salvar o monumento, se não transforme nem modifique a sua essência, e por isso se deve, não só manter a aparência externa, como também conservar a sua estrutura íntima.
Viollet de Due, que cito como o mais notável dos restauradores franceses, e muitos dos restauradores alemães abusaram de um tal modo do restauro que quando se observam certos trabalhos, como os castelos franceses do Loire, readaptados por Viollet le Due, ou a Catedral de Augsburgo ou o Castelo de Hohckonigshurg, já não é possível saber como antigamente seriam.
Este sistema é perigoso, mas hoje suponho que está superado, se bem que ultimamente na Itália se encontre um moderno exemplo deste abuso no antigo Castelo de Fenis, no vale de Aosta, remanejado, depois do restauro de meu pai, no tempo de Mussolini, com fins de propaganda.
Para se tratar desta matéria é necessário uma grande cultura e esta não se improvisa. Não só é necessário recrutar um corpo de pessoas dotadas deste sentido fino de arte, como educá-lo, instruí-lo convenientemente.
Meu pai conseguiu criar um grupo importante de pessoas que foram ocupar lugares em várias províncias italianas e que durante anos deram o seu trabalho a estes delicados servidos, creio que seria um grande serviço prestado ao nosso património artístico criar na Academia um curso especial para formarão destes técnicos, e não estarmos só entregues à paixão do amadorismo, como muitas vexes tem acontecido.
Mas passando deste campo a outro menos conhecido, ao campo arqueológico, direi, subterrâneo, em Portugal temos tido a sorte de achar ultimamente pessoas que se têm ocupado do estudo do nosso tesouro arqueológico pré-histórico e é justo citar alguns dos mais valentes, talvez pouco conhecidos no público não iniciado, como José Leite de Vasconcelos, M. Heleno, Abbé Breuil, o saudoso padre Jalhay, o tenente-coronel Afonso do Paço e o engenheiro Zbyzesky, que têm feito trabalhos e realizado descobertas da maior importância para a arqueologia pré-histórica.
Basta citar entre os verdadeiramente importantes terem-se podido fixar com elementos incontrovertíveis os diferentes níveis da cultura lítica correspondentes a diversos períodos glaciares do Quaternário, trabalho importantíssimo do Abbé Breuil e do engenheiro Zbyzesky, e a descoberta dos restos de uma civilização neo e eneolítica portuguesa, que esclareceu as relações de populações da Península com o Oriente mediterrâneo numa época de antiguidade ainda não suspeitada.
Mas este trabalho tão importante foi devido ao esforço e entusiasmo de poucas pessoas cheias de boa vontade, sem que tivessem a ajudá-las no seu tão duro e longo trabalho um corpo de pessoal devidamente preparado.
Nisso a Espanha se mos tem adiantado extraordinariamente, porque não só tem uma eficiente organização, apenas perturbada pelo último período revolucionário, mas um grande pessoal e uma série de publicações importantes, de que nós temos grande carência.
Uma publicação destes assuntos arqueológicos seria muito de desejar.
Porque, tendo tido a Península períodos de desenvolvimento muito precoces, estes são tão pouco conhecidos nos países nórdicos que ainda há pouco, vendo um livro de autoria de um arqueólogo sueco, verifiquei que este ignorava em grande parte as descobertas peninsulares, e sei que só há pouco os Ingleses começaram a perceber a importância dessas descobertas.
Para este sector- o estudo de qualquer mínimo elemento, de qualquer camada arqueológica e dos mínimos indícios- é necessária uma preparação técnica de infinita figura.
A preparação de um tal pessoal técnico é de importância primacial e para o conhecimento no estrangeiro do nosso nível cultural este assunto tem uma tão grande importância que não quero deixar de a assinalar neste momento.
O Sr. Mendes Correia:- No nosso país algumas explorações têm sido conduzidas de modo tão correcto que foram apontadas como modelo, como já o foram, por exemplo, há anos, as escavações portuguesas de Muge, na Escola do Louvre.
Existe, de facto, entre nós o perigo de amadorismo inconsciente, mas há amadores e amadores, e alguns têm uma orientação muito criteriosa.
Por outro lado, temos hoje um regime legal de fiscalização de explorações arqueológicas e de protecção ao nosso património arquitectónico. O que falta muitas vezes é continuidade.
O Orador:- Pode dizer-se que as pesquisas feitas até hoje o foram mais por amadores do que por pessoas verdadeiramente formadas, que têm feito alguma coisa de bom, mas também alguma coisa de mau.
O problema das nossas descobertas nesse campo precisa de pessoal mais vasto, mais bem remunerado e mais bem preparado. É um ponto importante o de pessoal e meios.
Todos os dias surgem coisas que se podem considerar vandalismos, praticados por determinadas pessoas, mas infelizmente não há meio de evitar esses vandalismos.
Focou-se neste aviso prévio também a questão dos museus e bibliotecas, seu arrumo, defesa e meios de consulta.
Poucos são os nossos museus que tenham catálogos descritivos, ilustrativos e ilustrados.
Pouquíssimas as publicações que permitam fazer conhecer os valores conservados nos museus, e são mesmo muito escassas publicações sobre estes assuntos.
Muitos museus provincianos estão mal arrumados, mas ontem nos foi fornecida a razão desta situação: falta de pessoal, falta de verba.
Finalmente, o acesso às bibliotecas é difícil para os estudioso, e quem tenha de recorrer às bibliotecas públicas sabe o tempo de que necessita e a dificuldade que se opõe ao acesso a qualquer documento um pouco reservado.