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428 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 122

Esta possibilidade de deslocação de obras de arte conduz-nos à apreciação de um problema que reputo da mais alta importância e para o qual me permito chamar particularmente a atenção de VV. Ex.as. Da sua meditação se desprenderá a razão de ser de uma proposta ou sugestão que adiante farei, que julgo do mais alto interesse para o nosso património artístico e para os artistas plásticos portugueses.
É a recente exposição da arte portuguesa em Londres que vem pôr mais incisivamente em foco a razão destas minhas considerações.
Representa esta exposição da mais valiosa selecção das nossas obras de arte, um dos mais importantes sucessos até hoje conseguidos no sentido de dignificar a cultura artística portuguesa perante os olhos e a inteligência de artistas, de críticos, de historiadores, e de todo o público intelectual do estrangeiro. Na sequência da exposição das pratas e ourivesaria portuguesas, que se deveu à iniciativa desse alto espírito que foi o de Ricardo Espírito Santo, esta exposição na capital da Inglaterra tem constituído um êxito, que nunca é de mais encarecer, para a revelação internacional da magnífica altitude da sensibilidade estética da nossa gente ao longo do desenvolvimento da nacionalidade.
Pelo que representa em si o critério selectivo das obras-primas mais representativas das artes portuguesas, nenhumas restrições temos a fazer ao devido louvor. Também pelo êxito obtido para o nosso país quero ter o prazer de louvar nesta Assembleia o nome do seu principal organizador, o Prof. Reinaldo dos Santos, que tanto se tem empenhado no florescimento do culto das artes em Portugal, bem como o do Prof. Luís Reis Santos, director do Museu Machado de Castro e professor de História de Arte da Faculdade de Letras de Coimbra, a cuja sólida e objectiva cultura tanto devem os estudos críticos da arte portuguesa e que tão importante papel desempenhou também nesta exposição.
Reconhecida a utilidade magnífica da propaganda das nossas obras de arte perante os grandes centros de cultura europeia, impõem-se-nos agora algumas considerações de maior melindre e que provêm dos perigos de Portugal ter mandado para além-mar. sujeitando-os às contingências de um naufrágio ou de um desastre de avião, os originais do que de mais precioso e insubstituível existe no nosso património artístico. Sem o que se encontra reunido em Londres, Portugal ficaria quase inteiramente nu!

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Não tocaríamos no assunto, para tentarmos fazer incidir sobre ele a reflexão da esclarecida consciência de VV. Ex.as, se não fosse intuito nosso apontar ou sugerir a forma de nos precavermos de futuro contra inconvenientes de tão temível gravidade, sem contudo renunciarmos aos benefícios de tão úteis exposições.
Infelizmente, meus senhores, Portugal tem sobre este assunto uma dramática experiência. Já me referi a este facto ao tratar aqui, há alguns anos, da projectada reforma do ensino das Belas-Artes. Passou-se o referido acontecimento aquando da exposição universal em Paris na abertura do século XX. Tudo quanto Portugal enviou àquela exposição ficou no fundo do mar no naufrágio do navio francês Saint André. Com ele se afogaram quadros e esculturas dos nossos melhores artistas, entre os quais cinco telas de Columbano e muitos outros quadros de el-rei D. Carlos, Malhoa, Sousa Pinto, Artur Loureiro e Carlos Reis e esculturas de Teixeira Lopes e de outros escultores - ao todo trabalhos de cerca de vinte e cinco expositores. Felizmente que eram todos contemporâneos e muito produziram depois pela vida adiante...

O Sr. Rui de Andrade: - Devo dizer a V. Ex.ª que também da colecção de obras de arte remetida à exposição de Londres de 1881 nenhuma delas voltou a Portugal.

O Orador: - Agradeço muito a V. Ex.ª a informação prestada, que anais vem ainda reforçar as minhas observações.
Esta exposição porém... nem quero insistir em pensar na catástrofe que representaria para nós um naufrágio em que o País ficaria absolutamente e irremediavelmente privado de tudo quanto tem de mais precioso e por cuja falta nunca mais poderia documentar em parte nenhuma do Mundo, e nem sequer na nossa terra, a importância da cultura artística portuguesa, fora do campo arquitectónico, através de toda a nossa história.
Quando se fez a exposição de ourivesaria em Paris, os objectos enviados foram transportados em camião militar, o que os garantia por forma mais ou menos tranquilizadora contra a maior parte dos riscos. Porém, não era possível proceder da mesma forma ao enviá-los para Inglaterra, pois nem as viagens por mar nem pelo ar podem oferecer idênticas garantias.
Maravilha-me a confiança que nós teimamos em depositar na navegação marítima, entregando-lhe o que á de mais precioso no nosso património artístico e cultural, sem nos lembrarmos de quanto o mar nos tem levado, desde as primitivas carreiras das índias até aos nossos dias!
O maior padrão da cultura portuguesa de todos os tempos - Os Lusíadas - o mar no-lo tentou roubar na voragem dos naufrágios... Pois ainda há bem pouco tempo foi entregue a semelhante contingência a sorte do original da carta de Pedro Vaz de Caminha! E eu pergunto: Para quê? Porque não figurou antes na exposição de S. Paulo uma reprodução em pergaminho perfeitamente facsimilada por um dos nossos calígrafos e miniaturistas? O que haveria de impossível de reproduzir para efeitos meramente visuais, que outros não podia ter a exposição do próprio e inestimável original?

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - E o que significa, sob o ponto de vista de segurança, fazer-lhe um seguro de mil ou de um milhão de contos? Nem por isso, se um desastre o atingisse, deixariam de ficar igualmente prejudicados tanto Portugal como o Brasil. E afinal quanto maior for a importância do seguro mais se revela o conhecimento dos perigos a que foi sujeita a existência das obras de arte. das quais se pode afirmar, com toda a propriedade, que não há dinheiro que as pague.
Não exemplificarei a importância dos riscos e a sua irremediabilidade com mais de duas obras de arte, para fazer sentir mais profundamente a necessidade de atender às disposições preventivas que desejo sugerir.
Lembremo-nos de que a custódia de Belém, essa maravilha não só da ourivesaria portuguesa mas da torêutica universal, foi lavrada pelos dedos e pela alma de Gil Vicente, ourives de ouro e de poesia, com o primeiro metal precioso das páreas trazidas de Quíloa por Vasco da Gama. Este simples enunciado revela, mesmo para além do interesse artístico, o seu interesse profundo no campo da poesia e da afectividade nacional.
É a primeira obra artística em que o Oriente se liga ao Ocidente no espírito e na matéria da obra de arte.