672 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 135
As sementeiras de trigo, feitas no Outono, inutilizou-as a cheia que se iniciou em 13 de Dezembro e foi até 26 desse mês e o que delas escapara foi acabado de destruir pela cheia de 14 a 25 de Janeiro.
Voltaram os empresários agrícolas teimosamente a lavrar e semear a mesma terra, adquirindo novas sementes de trigo, fazendo novas adubações, pagando novos salários.
Tudo resultou, uma vez mais, inútil, porquanto nova cheia inundou os campos, assoreou e alvercou as terras, deu morte às searas; desta feita sob o signo aterrador da lua marçalina, que constitui sempre preocupação grave da lavoura da várzea ribatejana, porquanto já não é altura de voltar a semear trigos, e já mesmo não há trigos para semear.
Trigos e favais, tudo a água levou, com prejuízo total para o agricultor.
Estes prejuízos enumera-os sumariamente o engenheiro Noronha de Andrade no relatório que elaborou sobre as «cheias do Tejo e outros rios no Inverno de 1935-1936», dizendo que eles consistem em «inutilização de colheitas, avarias provocadas por alvercamentos, assoreamentos e arrastamento de camadas aráveis, interrupção dos trabalhos agrários, que provoca uma grave crise de trabalho, e, depois, no fim das cheias a acumulação dos serviços, que prejudica os lavradores...».
A estes prejuízos podia o relatório acrescentar outros, efectivos e reais, como a deslocação forçada das manadas de gados da várzea para a charneca ou estábulos e correspondente necessidade de adquirir géneros para os alimentar; perda de carne dos animais em virtude dessa deslocação e deficiente alimentação; perda dos pastos nas terras submersas não só durante o período da cheia mas nos dias que se lhe sucedem, e são necessários muitos para a sua reconstituição. Perda total de viveiros de arroz e arrasamento de canteiros já preparados.
Sabendo-se que a sementeira de cada hectare de trigo, compreendendo lavoura, semente e adubação, importa em 1.390$ e a de fava sensivelmente na mesma importância, pode ajuizar-se do prejuízo sofrido pela lavoura da várzea ribatejana e pela economia nacional.
Apesar de tudo, no Ribatejo continua-se, em cada ano, a semear trigo, favas e outros cereais.
Ajusta-se referir o que a propósito escreveu o professor de agronomia engenheiro agrónomo Rui Maier:
Não há motivo para censurar o agricultor ribatejano, que tem dado e continua a dar boas provas da sua aptidão profissional, da sua actividade, da sua energia para resistir a reveses e de um optimismo que às vezes se pode acoimar de exagerado. Tem-se mantido, com persistência, a cultura cerealífera em face da contingência das cheias; na exploração do gado tem havido uma certa melhoria, como exemplificam os progressos marcados na exploração e criação de ovinos; tem-se procurado, acertadamente, orientar a exploração sob a modalidade da policultura, encontrando nela defesa contra as irregularidades do clima, que participa do carácter de incerteza comum a todas as zonas do Pais e tem, no Ribatejo, a agravar as dificuldades, o reflexo que as condições meteorológicas encontram no regime dos rios e que colocam permanentemente o lavrador dos campos marginais do Tejo, não entre dois fogos, mas entre duas águas.
Sr. Presidente: entremeando os espaços utilizados para as culturas cerealíferas e de criação de gados, cultiva-se também a vinha desde tempos remotos, não só pelas vantagens económicas que advêm da policultura, mas também, e talvez principalmente, porque a experiência vivida através dos séculos demonstrou que essa cultura é a mais própria para a fixação das terras, que sem ela estariam transformadas em estéreis pauis, profundos chaboucos e malgueiros, como se diz na terminologia local, com manifesto prejuízo para a economia da Nação.
Mas a cultura da vinha nos 400 km2 da zona inundável do Ribatejo não excede 10000 ha: cerca de uma quarta parte.
Sr. Presidente: do que deixo exposto quero tirar duas conclusões.
A primeira é que as cheias do Ribatejo, tal como se verificam, provocam situação de miséria periódica para a numerosa classe de trabalhadores rurais, que durante elas não têm trabalho.
A segunda é que elas causam grave prejuízo aos empresários agrícolas da várzea ribatejana, agravam custos de produções e depauperam a economia nacional.
Se assim é, impõe-se procurar remédio para tão pesados e grandes malefícios.
O já referido professor Rui Maier indicou alguns desses remédios, escrevendo a propósito:
A correcção de torrentes e ribeiros, o enxugo das terras apauladas, a regularização e limpeza dos sistemas de valas já estabelecidas, a colmatagem, onde conviesse faze-la, a própria defesa marginal dos terrenos onde, pelo contrário, fosse preferível vedar a entrada à água das cheias, são operações que, tecnicamente, não oferecem dificuldades de monta e que apenas terão de ser demorada e atentamente estudadas para realizarem os objectivos que se propõem dentro dos limites que marcam as directivas da economia.
Também o Sr. Engenheiro Abel Noronha de Andrade no já referido relatório sobre as cheias do Inverno de 1935-1936, que elaborou em face das realidades observadas e vividas durante elas, percorrendo em vários sentidos as regiões inundadas, tomando providencias de emergência e recolhendo elementos de estudo, aponta medidas a tomar e obras a realizar para evitar as pequenas cheias do Outono e principalmente da Primavera, chamadas na região «azíelas», que invadem extensas superfícies de campos marginais e estragam sem compensação as culturas nelas feitas.
É de justiça aqui dizer que algumas, muitas mesmo, das soluções apontadas tem já o Estado Novo realizado, como a eliminação do aterro da linha férrea do Setil a Vendas Novas; a limpeza e aprofundamento de algumas valas e canais; a regularização do caudal do Zêzere, pela construção das barragens; a reconstrução e reforço de diques, etc. ...
Sr. Presidente: o problema da defesa da planura ribatejana contra as cheias do Tejo é, por certo, de grande envergadura e transcendência.
Mas é de alto interesse nacional encará-lo de frente o resolvê-lo.
Sobre ele escreveu o Prof. Silva Teles:
No Ribatejo, uniforme pelo clima e pela fisionomia geográfica, o rio é o factor dominante. Aproveitado cientificamente, corrigido no seu regime, regularizado nas suas margens, evitando-se os efeitos desastrosos das suas cheias, este rio tornará um dia o solo ribatejano, de um e outro lado do seu curso, um dos trechos de maior capacidade agrícola de Portugal.
O problema será transcendente, mas é aliciante, tem interesse nacional e está à altura deste período de renovação e reconstrução, que na história da nossa administração pública será designado por época de Salazar.
Coordenem-se os esforços de organismos já criados; dediquem-se aos estudos de campo tantos técnicos que