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1 DE FEVEREIRO DE 1964 3089

Uma crítica feita com tanta elevação não pode deixar de ser útil, o que também registo com o maior aprazimento.

E, porque assim é, entendo dever trazer, u evidência, para serem devidamente consideradas, as justas reivindicações da Universidade de Coimbra e da sua cidade, tantas vezes aqui trazidas pelos seus representantes nesta Câmara. Refiro-me, naturalmente, às que têm um cunho mais subjectivo, porque nas de índole geral o distrito de Coimbra acompanha e aplaude inteiramente os ilustres oradores que as deixaram equacionadas. Elas são de resto, males gerais, que, por afectarem todos os graus do nosso ensino, a todos, nós afligem.

Ao considerar aquelas quero referir-me especialmente à criação das Faculdades de Farmácia, de Engenharia e de Economia, na Universidade de Coimbra, é também à criação de um instituto comercial e industrial na mesma cidade.

A valia e cabimento da criação das referidas Faculdades estão amplamente demonstrados, não só em conscienciosos estudos, muitos dos quais esta Câmara bem conhece, como ainda em primorosos relatórios que os magníficos reitores da nossa alma mater têm apresentado na futura em que se faz n abertura solene da mesma, perante o venerando Presidente da República, que a essas soleníssimas cerimónias se tem dignado presidir.

Está assim seguramente provado que se não trata de aspirações alicerçadas em meros sentimentos de cor localista, mas de autênticas necessidades nacionais, cuja satisfação se justifica pela sua total coincidência com o melhor interesse público.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Na verdade, sendo Coimbra, como é, um centro estudantil por excelência, mal se compreende que a sua velha e gloriosa Universidade, que é imorredouro padrão da intelectualidade lusíada, não possa conferir os graus completos de algumas formaturas básicas, como agora sucede.
Por outro lado, a situação privilegiada desta cidade tão linda, o seu clima, a edénica beleza da sua paisagem e a da sua região, aliados a uma tradição estudantil que vem de muito longe, impõem que desta cidade se faça o grande centro da cultura portuguesa, dotando-a de escolas, institutos e dos estabelecimentos de ensino que sirvam para a completar e tornar plenamente eficaz.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Não sei se no grande planeamento da Cidade Universitária, que se vai desenvolvendo gradativamente, com a transformação da parte mais característica de Coimbra - a sua Alta - no alinhamento geométrico dos grandes edifícios com que se apagaram muitas décadas de gratíssimas recordações de vida única no Mundo; não sei, dizia, se nesse planeamento se teve presente a possibilidade, mais ou menos longínqua, desta ideia fundamental.

Quero crer que não, e lamento que assim tenha sucedido, como lamento, por exemplo, como tantos o têm feito, e nomeadamente o Diário ao Coimbra, que se não tenha poupado o tradicional monumento á Camões, erguido em frente à Universidade, cujo leão de bronze tão conhecido era das gerações académicas. Desmantelado e mal arrumado hoje, esse monumento é agora bem a imagem das lágrimas e das sevícias que o camartelo produziu, naquela lendária parte de Coimbra, representando a sua destruição ou desmantelamento a negação afrontosa da nobre ideia que presidirá à sua construção junto à casa de Eugênio de Castro, que também se sumiu na voragem de discutível progresso ... Quando se trata de educação, não me parece que fique mal lembrar este doloroso menosprezo pela sentida homenagem que, um dia, os estudantes de Coimbra tinham prestado a Camões!

De qualquer forma suponho que ainda será possível fazer os necessários ajustamentos na planificação da Cidade Universitária por forma que as linhas do seu crescimento não fiquem, de nenhuma maneira, tolhidas.

Para não recearem os tremendos julgamentos da história, haverão os responsáveis de estudar toda esta problemática com os olhos postos no futuro!

Mas, Sr. Presidente e Srs. Deputados, quando se encaram e equacionam os grandes problemas da educação e do ensino no nosso país, com o marcado desígnio de a todos conceder a audiência que merecem, não pode esquecer-se que a todos ou a muitos deles estão ligados os que respeitam & educação física e desportiva.

Abstenho-me, por inteira desnecessidade, de tentar demonstrar o valor do desporto na formação e valorização educativa do nosso capital humano.

Sabe-se e conhece-se que a opulenta civilização romana, na esteira de outras civilizações, afirmava que era necessária uma mens sana in corporc sano para o equilíbrio normal da vida.

Assim também sempre o têm entendido os povos civilizados, que, no transcendente significado dos Jogos Olímpicos, encontram um mandamento que a sabedoria grega tornou eterno!

Esse mandamento também o não desconhecemos nós, como bem o atestam as' palavras de Salazar, proferidas em Dezembro de 1988, quando um punhado de desportistas de Lisboa lhe pediu a construção de um parque de jogos, que veio a ser o Estádio Nacional. Depois de referir o aliciamento do contacto com a natureza, o que era ao tempo Ministro das Finanças afirmou:

Temos de reagir pela verdade da vida que é trabalho, que é sacrifício, que é luta, que é dor, mas que é também triunfo, glória, céu azul, almas lavadas e corações puros, e dar aos Portugueses, pela disciplina da cultura física, o segredo de fazer duradoura a sua mocidade em benefício de Portugal.

Este basilar princípio não o desconheceu também a Constituição Política de 1988, que no seu artigo 34.º o consigna inteiramente, referindo-o depois noutros passos em que fixa a valorização da vida dos Portugueses. A despeito, porém, de tão expressivas determinações, não só da citada palavra de ordem de Salazar como dos preceitos constitucionais, o certo é que, infelizmente, nunca se lhes respeitou o seu alto significado ...

Preocupados apenas - ou principalmente - com a porte intelectual dos grandes problemas que se lhes depararam, os sucessivos reformadores e legisladores do ensino sempre relegaram para um plano de ostensiva subalternidade a cultura física e desportiva da população discente.

Como lógico corolário desta reiterada atitude, estas não experimentaram entra nós o desenvolvimento de que havia mister, já que algumas soluções parcelares pecaram, e têm pecado, pela sua falta de apropriada dimensão.

Isto se reflectiu naturalmente no desenvolvimento físico-desportivo da restante população portuguesa, afectando muito mais a dos centros rurais onde o desporto ou nunca existiu, ou se pratica em deploráveis condições.