O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

19 DE MARÇO DE 1964 3707

É norma comum que o sucesso da industrialização se liga. à existência de energia abundante e barata. Daí o interesse da seguinte questão: quais as possibilidades energéticas de Angola?
A técnica, renova-se em combinações ou aproveitamentos. Por outro lado, a projecção de recursos oferece, muitas vezes, novas e agradáveis certezas.
Quero apenas significar que me limito aos recursos conhecidos de Angola.
Por exemplo: no que respeita a carvões, a pouca prospecção realizada não nos permite ideias seguras sobre as disponibilidades do subsolo. Fala-se vagamente dos carvões do Moxico, ao que parece lignites de boa qualidade, mas sem aproveitamento efectivo. Também a energia solar (em que Angola poderá ser fértil) ou a energia eólica, (que mereceu um estudo considerando o Saco-Baía dos Tigres) não estão em causa. Já os carvões betuminosos poderiam ter sido dignos de maiores atenções. A sua abundância em Angola e a larga gama do possibilidades que oferecem (as "libolites" revelam-se superiores aos carvões betuminosos austríacos e alemães) poderiam ter interessado os grupos financeiros.
Limito-me, portanto, ao petróleo e à hidroeleotrioidade.
Quando, em 20 de Julho do 1061, na Quissama, o campo Tobias, trouxe novas perspectivas ao petróleo em Angola, pode dizer-se que se virou uma página na história económica da província.
O Tobias 4, debitando cerca do 2000 t por dia ou oferecendo a possibilidade de 3800 t foi a primeira grande certeza de uma realidade de que a população de Angola está certa e de cuja repercussão no futuro económico do território talvez estejamos longe de nos aperceber.
Não se trata já de uma fonte de energia para a suficiência interna, mas de uma fonte do divisas que ajudará, de forma bem decisiva, a dar novo sentido à balança de pagamentos da província.
A refinaria de Luanda, com uma capacidade de 550 0001 em 1962 laborou nesse ano 347 000 t das 471 000 t extraídas.
E que dizer das possibilidades hidroeléctricas?
Os números das estimativas atingem tamanha expressão que se corre o risco de perder o sentido das suas dimensões.
Já há anos, num cálculo relativo a aproveitamentos a fio de água, se consideravam 32 000 milhões de kilowatts, dos quais 6000 milhões para a zona hidrológica do Norte e Nordeste (bacia do Zaire), 4000 milhões para o Sueste (Zambeze, Guando e Gubango). 10000 milhões para o Sudoeste (Cunene, Longa, Cuevo e Gatumbela), 2000 milhões para o Noroeste (M Bridge, Loge, Dande e Bengo) e 10 000 milhões para a bacia do Cuanza.
Os números ganhariam outra- expressão ainda mais grandiosa só considerássemos a regularização dos rios através do albufeiras. Só a bacia hidrográfica do Cuanza poderia produzir 50 000 milhões de kilowatts-hora!
Os aproveitamentos realizados ou em curso são, portanto, uma parte ínfima das potencialidades dos rios de Angola.
Mabubas (31,6 milhões de kilowatts-hora), Biópio (37,6 milhões de kilowatts-hora), Matala (92 milhões) encontram-se igualmente a grande distância do primeiro grande aproveitamento efectuado na província, ou seja Cambambe (700 milhões de kilowatts-hora, na fase actual).
A elevação da barragem de Cambambe para a cota 132 m e da potência disponível para o 4 X 65 000 kW asseguraria uma produção anual de 1250 milhões de kilowatts. Mais: a construção de uma grande albufeira de regularização a montante (com capacidade útil de 2200 milhões de metros cúbicos, para regularizar um caudal da ordem dos 300 m 3/8.) a 400 m 3/8.) permitiria a Cambambe produzir cerca de 3000 milhões de kikwatts-hora por ano.
Cambambe foi, de resto, concebida como apoio de um grande pólo de desenvolvimento. A indústria de ferro-ligas, gusa e carbonatodo cálcio consumiria 200 milhões do kilowatts-hora; a rega e drenagem do vale do Bengo 180 milhões. Mas seria o alumínio o grande consumidor; a produção inicial de 20 000 t exigiria 400 milhões de kilowatts-hora, e na segunda fase atingir-se-ia mesmo o milhão. A estes complexos juntar-se-iam ainda os adubos azotados e a produção de açúcar.
Razões variadas tem obstado à concretização dos desígnios anunciados. Os meus votos são para que se removam dificuldades e se crie interesse, de forma a tirarmos dos investimentos de Cambambe (980 000 contos nesta primeira fase) o melhor aproveitamento.
Os aproveitamentos hidroeléctricos em Angola recomendarão de futuro uma melhor atenção para vários aspectos: a sua viabilidade para fins múltiplos; os estudos seguros que obstem a surpresas que encareçam as realizações; a segurança nos consumos de energia; a economia nas obras e o baixo custo no kilowatt-hora produzido. Poderá ser mais viável, em determinado estádio de desenvolvimento, uma política de pequenos aproveitamentos. Por outro lado, o transporte a grande distância, embora tecnicamente- possível, poderá ser menos defensável que a realização de aproveitamentos menores, não só por razões de economia, mas pelo interesse em multiplicar os pólos de desenvolvimento.
Não será despropositado salientar ainda o Catumbela, o Cunene e o Cuvo.
A barragem de Lomaum, a que já me referi, terá na fase final uma potencía de 50 000 kW, o que permitirá um fornecimento de 300 milhões do kilowatts-hora por ano. A economia, e as possibilidades energéticas da bacia do Catumbela parece constituírem uma nota bastante reconfortante para o futuro de uma zona que já hoje é das mais desenvolvidas de Angola.
Quanto ao Cunene, a possibilidade de venda de energia ao Sudoeste Africano trouxe para a imprensa diária a evidência do sou maior interesse.
Desejaria prestar aqui homenagem a um grande obreiro do ultramar português: o Eng.º António Trigo de Morais.
Quando um dia se escrever a história da nossa presença em Angola e Moçambique, o nome do Eng.º Trigo de Morais avultará como um dos mais eloquentes testemunhos da nossa vontade de permanecer em África.
O colonato do Cunene teve desde sempre esta orientação:

A obra do povoamento que só pretende realizar, enraizada no regadio, é para brancos o pretos e situa-se no caminho seguido por Portugal desde sempre na sua acção civilizadora. Nela há lugar para todos. É uma obra em que a vida em conjunto de brancos e pretos será fraternalmente ligada pelo anseio do engrandecimento espiritual e material da Nação.

Quem de avião, proveniente de Sá da Bandeira, demande o colonato do Cunene sentir-se-á, a dada altura, transportado para outro mundo, em flagrante contraste com a monotonia da savana. Uma vila e quatro aldeias, num total de 324 famílias, uma área irrigada de 2756 ha uma cooperativa agrícola com cinco fábricas (preparação de tabaco, moagem, desidratação e farinação de luzerna, concentrados de tomate o embalagens), eis a obra em que se investiram 222 000 contos.
A barragem da Matala serve, não só este povoamento agro-pecuário, como ainda de ponte rodoviária e ferroviária