3702 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 147
Luanda (fundada em 1576), Benguela (1617), Moçâmedes (1840), Lobito (1842), Malanje (1852), Sá da Bandeira (1885), Nova Lisboa (1912) o Silva Porto, que em 1930, deveriam ter, no seu conjunto, cerca de 110000 habitantes, albergavam já, em 1955, 320 000 habitantes. Este conjunto de cidades detinha, ainda em 1955, cerca de, 62 por cento da população branca de Angola (cf. os trabalhos de Ilídio do Amaral Aspectos do Povoamento Branco de Angola e Ensaio de Um Estudo Geográfico da Rede Urbana de Angola).
Verifica-se, de resto, que tais centros se localizam nas três linhas de penetração que, partindo do litoral, se apoiam em infra-estruturas ferroviárias:
Luanda, Dondo, Salazar, Malanje;
Lobito, Benguela, Mariano Machado, Nova Lisboa, Silva Porto, Luso;
Moçâmedes, Sá da Bandeira, Chibia, Serpa Pinto.
É claro que a realidade será incompleta se esquecermos outros pólos auxiliares ou secundários existentes em Angola.
As madeiras recordam Cabinda; os diamantes, a Lunda; a pesca, outros centros do litoral - além dos portos referidos -, nomeadamente Porto Alexandre e Baía dos Tigres; o café, as regiões do Congo e do Amboim.
Anote-se que a construção do caminho de ferro do Congo mais concentrará o movimento no porto de Luanda e quanto ao caminho de ferro do Amboim, a melhoria nos acessos rodoviários do Cuanza Sul à capital da província contrariará quaisquer possibilidades no incremento do seu tráfego.
A penetração longitudinal das vias férreas (que de resto algumas estradas acentuam) exige hoje uma complementar rede vertical. Ora, para lá de outra saída do caminho de ferro de Moçâmedes por Porto Alexandre, da construção do ramal de Cassinga ou da interligação dos caminhos de ferro de Benguela e de Moçâmedes, serão as estradas que têm a sua palavra a dizer. Poderia concretizar-se com alguns exemplos: o percurso que partindo de Santo António do Zaire em direcção a Luanda prossegue depois para Novo Redondo, Lobito e Benguela, flectindo aí para Sá da Bandeira, Humbe, Roçadas e Pereira de Eça; outro que vai do Zombo a Malanje e daí, seguindo pelo Bailundo, alcança Nova Lisboa, Vila Artur Paiva, Cassinga e, de novo, Pereira de Eça; um terceiro que une o Dundo a Luso e Mavinga.
Quanto a este último, acrescente-se que a região de Henrique de Carvalho tem acesso, embora mau, pelo Cuango e Baixa de Cassange, a Malanje e daí a Luanda.
Ora, se este condicionalismo dos transportes (ainda apoiado por outra vertical que é a navegação de cabotagem) ajuda a encarar a localização de novas indústrias, convirá igualmente ter presentes as disponibilidades em matérias-primas e em energia.
O inventário dos recursos agrícolas de Angola é muito vasto, oferecendo largas perspectivas à industrialização.
Refiram-se o café, o sisal, o milho, a cana sacarina, a mandioca e crueira, o óleo de palma e coconote, o algodão, o feijão, o tabaco, o amendoim, o arroz, o rícino, o gergelim, o cacau, o trigo, as frutas e outras produções menores (azeite, batata, baunilha, cânhamo, cebola, centeio, ervilha, fava, gengibu, grão-de-bico, hortaliças e legumes, linho, pimenta, ráfia, sumaúma e urzela).
O caminho a percorrer deverá traduzir-se num incremento da produção agrícola e no seu maior aproveitamento industrial na província.
Poupo a Câmara a uma análise detalhada das possibilidades industriais de todos estes produtos. Referirei, porém, um ou outro aspecto que se me afigura do maior interesse, relativamente aos produtos principais.
Começo pelo café, cujas exportações renderam, em 1962, 1 800 000 contos. É, na verdade, indiscutível esta presença no processo do desenvolvimento de Angola. Os estudiosos não terão dificuldade, por exemplo, em estabelecer um paralelo entre o ritmo das construções urbanas em núcleos como Luanda, Carmona ou Gabela e as cotações do café.
O café provém de grandes fazendas ou de lavras de africanos e de europeus. Em 1961 a produção das lavras dos africanos correspondeu a 26 por cento da produção total.
Uma tarefa a prosseguir consistirá na valorização dos processos de cultura dos africanos. De facto, anotam-se deficiências, como viveiros mal tratados, com eliminação, às vezes total, da sombra; utilização de solos esgotados; secagem defeituosa e descasque manual por meio de pilões de madeira, donde resulta uma qualidade duvidosa, cheia das «pechas» mais desagradáveis no café (bago verde, fermentado, furado ou achatado). A secagem em chão de ladrilho de tijolo tem permitido também eliminar um certo gosto a terra.
A rede industrial no cate liga-se, às instalações de benefício (localizadas no interior) e de rebenefício (nos portos do litoral). Ainda recentemente se noticiava a instalação em Luanda de uma unidade fabril para selecção de cafés, por meio de um sistema baseado em processos electrónicos, que trabalha ao ritmo de 7000 bagos por segundo.
A indústria do café solúvel tem sido um dos problemas mais ventilados. O interesse de tal indústria tem-se afigurado residir nas possibilidades de exportação, constituindo meio para aproveitamento dos cafés de baixa qualidade (cf., por exemplo, o bem elaborado estudo do Eng.º Alberto Diogo, Rumo à Industrialização de Angola). A própria localização de uma fábrica na Gabela foi preconizada num trabalho do Prof. Teixeira Pinto (Angola: Pólos e Perspectivas de Desenvolvimento), «cumulativa ou alternativamente com a que se sugeriu para Luanda, de modo a atenuar possíveis reflexos da crise do café no papel polarizador da C. A. D. A.».
O sisal, cujas exportações renderam, em 1962, 410 000 contos (ou seja, mais 30 por cento do que no ano anterior), constitui um forte apoio das actividades no planalto de Benguela (Cubal, Ganda e junto ao caminho de ferro na zona de Nova Lisboa), na região do Lobito (terminal do rio Catumbela e Bocoio) e na Gabela e Quibala. O surto das cotações nos últimos tempos deverá ser aproveitado para uma valorização das plantações e reequipamento das indústrias primárias de transformação (110 fábricas na província). Só na área de Benguela existem cerca de 5000 ha de terras em produção, estimando-se em 50 000 contos o capital investido na indústria da desfibra (74 unidades). O emprego do sisal na indústria de sacos (destinados a produtos de certa granulometria) permitiria a sua maior utilização interna e faria diminuir ;i importação da juta (27 000 contos em 1961).
Três motivos fundamentam a importância do milho em Angola: o facto de ser um grande apoio das culturas nativas (cerca de 400 000 t de produção em 1953), a circunstância de constituir a base da alimentação de grande percentagem de populações e o rendimento da sua exportação (364 000 contos em 1960; 224 000 contos em 1961; 151 000 contos em 1962).
Importa continuar a dar as melhores atenções â produção e ao aproveitamento industrial do milho. Conformo depoimento do Instituto de Investigação Agronómica, «a produção unitária média não se afastará muito dos 400-600 kg/ha, que se pode considerar, sem dúvida, um nível marginal [...]. Os poucos agricultores evoluídos