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9 DE MARÇO DE 1968 2697

uma entidade supérflua, sem justificação nem rendimento para a cultura nacional. Se entendesse que o era não falaria em tal coisa. Mas hoje, em todos os países civilizados, sabe-se muito bem a importância atribuída pela pedagogia moderna à educação estética, no plano do ensino de todos os graus, mesmo do primário, e da formação integral do homem. O ensino, o técnico especialmente, prossegue no seu avanço, avassaladoramente. Acentua-se, cada vez mais, a carência de professores nas escolas técnicas e liceus. Uma escola superior de pintura em Viseu poderia facilitar a .preparação de diplomados e atrair a este sector do magistério maior número de obreiros da educação nacional. Num futuro bem próximo, a educação ocupará um dos primeiros lugares, se não o primeiro, na escala dos orçamentos e dos investimentos dos Estados. É preciso pensar no futuro. A escola superior de pintura de Viseu poderia ficar integrada na Universidade de Coimbra, única das Universidades metropolitanas sem ensino superior de estética neste sector. Integrá-la como instituto ou Faculdade da Igreja na Universidade Católica Portuguesa seria outra hipótese. Certo é que uma tal escola facultaria às populações, generosas e sacrificadas, do interior e do Nordeste do País um meio de promoção cultural, com reflexos na promoção económica, regional e global da Nação.
O quadro dos professores constitui hoje um problema em qualquer parte do Mundo. A deslocação de mestres de cidade para cidade está sendo um recurso, graças aos rápidos meios de comunicação. No espaço português são frequentes as deslocações de catedráticos e assistentes, a reger cursos em Nova Lisboa, Luanda, Sá da Bandeira e Lourenço Marques. Viseu fica mais perto. E em breve terá não apenas um serviço de táxis aéreos, mas também uma carreira de aviões, que fará» o percurso de ligação com as cidades universitárias metropolitanas em menos de uma hora. As deslocações de mestres implicarão, talvez, alguns inconvenientes. Serão sempre menos e menores que os das deslocações das massas escolares, pois estas são muito mais gravosas e ordinariamente nem possíveis se tornam.
Sr. Presidente e Srs. Deputados: Viseu é reconhecida por berço da pintura portuguesa pela autoridade de duas das maiores figuras da crítica nacional ... «Se a fundação da nossa pintura data de Nuno Gonçalves, a restauração da independência da nossa pintura proclamou-se em Viseu e no Sardoal ...», escreveu Reinaldo dos Santos. Quanto ao nascimento ... nem o insigne mestre está plenamente convencido, como o deixa ver a condicional «se». Nem podia nascer com Nuno Gonçalves, porque ninguém, nada nasce adulto e a pintura de Nuno Gonçalves é de plenitude. Mas o próprio Reinaldo dos Santos observa: «O ciclo pictural da Beira Alta é mais importante que o do Sardoal.» Por minha parte, acrescentarei não ser impossível que o mestre do Sardoal seja viseense ou, pelo menos, influenciado pela escola de Viseu ... No que Beinaldo dos Santos não hesita é em atribuir a Viseu uma das representações mais originais da pintura nacional, afirmando que em Viseu se registam as primeiras afirmações da independência e personalidade da pintura portuguesa.
O malogrado e autorizado Reis Santos não é menos peremptório no seu depoimento de especialista da nossa pintura antiga. «Grão-Vasco é grande pintor de Viseu, da Nação e do século XVI, glória da arte, genial e de personalidade inconfundível. E a escola de Viseu constitui uma das mais vincadas afirmações do génio nacional, cuja maneira própria tem o dom, nos painéis da escola viseense, de reflectir intensamente o tempo e o lugar, a terra e a grei, os usos e os costumes, a casa e o trabalho da nossa gente beirã e portuguesa.» E ainda: «Os caracteres mais íntimos da escola portuguesa ... vamos encontrá-los mais bem representados nos pintores das beiras, especialmente em Vasco Fernandes, cuja fama foi a primeira que deu prestígio à pintura primitiva portuguesa.»
Só no século XVI Viseu ofereceu ao País e à cultura universal uma dúzia de pintores. Mas a pintura viseense não começa nem acaba no século XVI. Vem dos primórdios do século XVI, pelo menos desde 1324, com João Vicente, coevo de Giotto e quase um século anterior a Frei Angélico, e chega a nossos dias com António Batalha, António de Almeida, Alda Pereira, Orlando e Afonso dos Santos.
A pintura é uma constante cultura e um traço inalterável na sensibilidade da gente da cidade de Viseu.
Sr. Presidente e Srs. Deputados: Antes de Vasco Fernandes, no século XV, foi artista viseense Maria Esteves da Cunha (... 1463-1468 ...), poetisa e pintora de mérito. Esta senhora, religiosa e contemporânea de Fra Filippo Lippi e de Gozzoli, da escola de Florença, e de Mantegna, Perugino, Bellini e Signorelli, bem como do infante D. Henrique, que ela deve ter conhecido e tratado como primeiro duque de Viseu, é um documento humano e pessoal da mentalidade feminina e da Igreja na época ... No século xvii continua a já tradição, com Diogo Vaz, Manuel Vaz Júnior, Matias da Mouta, Miguel Vaz, João Dias e Francisco Dias Torres. E prolonga-se no século XVIII, como se vê pelo exemplo de Furtado (Gata) e de outros, estendendo-se aos nossos tempos, com os mestres Pereiras à cabeça, na transição do século XIX para o século XX.
Mas a pintura não vivia solitária em Viseu. Não era isolada ali, vivia e convivia ... num contexto histórico artístico. Ao lado dos pintores, topam-se arquitectos, imaginários, lapidários. ourives de ouro e de prata, músicos, cantores e compositores, como Lopes Morago, mestres da capela, como Jorge Cardoso de Pina, organistas, como Gaspar da Mota, e arpistas, como Lobato Falcão. Sem falar no cónego Estêvão Gonçalves, mais que iluminador de garra, génio da iluminura mundial, como se documenta com o célebre Missal, que hoje enriquece o património da Academia das Ciências e pertencia à sé visiense.
Podas as artes floresceram à sombra da catedral e dali irradiaram, muitas delas, em produções maravilhosas que honram a cultura nacional.
Mas, se a pintura não vivia só, é igualmente verdade que ela não morreu. Não apenas, riem principalmente, por ter chegado a nossos dias, em notável cadeia, feita de dinastias, de artistas ... Também, e mais ainda, porque as suas obras-primas existem, vivem e exercem magistério na cidade de Viseu, em proveito e glória de todos os portugueses. Mas, para que o seu magistério se amplie e torne mais eficiente, importa aproveitar ao máximo os tesouros recolhidos nos museus viseenses, como instrumentos vivos de uma escola de pintura. Falo de museus, no plural. Mesmo os que não são de pintura, ao menos, exclusiva ou principalmente, podem ser aproveitados por uma escola de pintura, como testemunhos artísticos, expressões estéticas, estímulos de sensibilidade. Na Casa-Museu de Almeida Moreira, recentemente valorizada com a intervenção da benemérita Fundação Calouste Gulbenkian, já tem estado a funcionar um serviço de iniciação estética para crianças dos 4 aos 6 anos, onde a alma infantil se revela e se descobre espontaneamente, aprendendo a descobrir a vida.... e a arte que eleva o homem para mais alto e mais além ...
Sr. Presidente e Srs. Deputados: Desde o Verão passado que a cidade conta com mais um museu. Museu do Povo