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1792 I SÉRIE - NÚMERO 48

complexidades e os seus efeitos repercutem-se até à morte do educando.
A educação é um fenómeno e empreendimento social. Por isso, só pode ser analisada globalmente. Quaisquer medidas de política só podem ser aferidas pelas previsíveis repercussões ao longo da vida do educando, do educador e do sistema.
É assim que ninguém pode julgar o sistema educativo através da mera denúncia de casos pontuais. Seria um erro crasso.
É óbvio para qualquer de nós que sempre houve alunos piores e melhores do que á média. Professores bons e maus. Escolas bem apetrechadas e pior apetrechadas.
Qualquer de nós, se meditar um momento na sua experiência pessoal, se pode relembrar daqueles professores e aulas que o cativaram e daqueles outros que o deixaram indiferente ou mesmo o marcaram negativamente.
Quantos de nós não acabaram por escolher certo curso pela influência positiva ou negativa de determinados professores.
Quantos de nós não conhecem figuras ilustres da ciência e cultura universais que tiveram uma vida escolar errática.
Einstein é um exemplo frequentemente citado.
Quantos de nós só compreenderam a importância de determinado curso ou disciplina já depois de terem terminado os estudos.
É importante reflectirmos nestes aspectos para nos darmos conta do absurdo, da falta de sentido, do erro técnico, que consistiria em fazer crer que de uma lacuna ou de uma deficiência do sistema se pode inferir uma valorização global sobre o sistema educativo.
É o que se vê por aí todos os dias. Com a agravante de se responsabilizar o Governo por actos de gestão corrente das escoltas que não são da sua autoria e competência. Naturalmente, rejeito liminarmente essas análises. O mesmo faria qualquer especialista de educação responsável.
É evidente que o alertar de lacunas e deficiências tem o seu valor. Para que elas sejam corrigidas. Mas isso pouco tem a ver com uma análise global da política educativa.
Gritar ad nauseam que determinada escola funciona mal, que certo professor é incompetente, que falta um docente, que há uma escola com uma parede suja, que há um aluno indisciplinado, é fazer a prova provada - desculpem o pleonasmo - de que se não sabe ir mais longe.
Cai-se na situação daquele aprendiz de investigador que fez uma medida, porventura correcta, mas não sabe integrar os resultados numa teoria. Tomar tal atitude é o mesmo que pretender que, pelo facto de repetidamente se afirmar que existem pessoas analfabetas, o País é constituído só por analfabetos.
No primeiro parágrafo dos dois que fundamentam a interpelação afirma-se:

A situação escolar é considerada hoje, peta maioria dos cidadãos, num perfeito estado de desorganização e de degradação pedagógica, causando perturbações incalculáveis na vida dos alunos, das famílias e dos professores.
O que se diz não passa, obviamente, de generalidades, que nem tão-pouco têm o cuidado de ser correctas.

Vozes do PSD: - Muito bem!

O Orador: - A intervenção da Sra. Deputada Teresa Ambrósio, abundante em epítetos, e que não era previsível - e permito-me também utilizar uma técnica de referência pessoal, tal como a Sra. Deputada teve ocasião de fazer -, à técnica superior do Gabinete de Estudo e Planeamento em 1972, não adianta mais do que considerações de extrema generalidade ou de considerações que muitas vezes não têm o mínimo de verdade.

Aplausos do PSD, do CDS e do PPM.

Vozes do PS: - Não apoiado!

O Orador: - Não posso ainda deixar de referir que a Sra. Deputada Teresa Ambrósio, a quem respeito pela sua qualidade de técnica de educação, não teve sequer o cuidado de estar a par do que se escreve e publica no Diário da República. Surpreende-me, Sra. Deputada, a extraordinária autocrítica que fez ao I e II Governos Constitucionais do Partido Socialista.

Aplausos do PSD, do CDS e do PPM.

Tenho de confessar que esperava um pouco de mais rigor. Dizer que se conhece a opinião da maioria dos cidadãos sobre o sistema educativo é fazer uma afirmação sem qualquer conteúdo ou verdade, que roça mesmo pela demagogia.

Vozes do PSD: - Muito bem!

O Orador: - Não tem o Grupo Parlamentar do PS, ou qualquer outro, qualquer base digna de crédito para produzir tal afirmação. Num país onde faltam dados estatísticos básicos faltam, por maioria de razão, as informações com conteúdo valorativo.

Vozes do PSD: - Muito bem!

O Orador: - Abre-se, assim, a análise de um problema importante com demasiada ligeireza.
Produz-se uma afirmação que se não pode provar e sobre a qual há fortíssimas razões para acreditar que é redondamente falsa.
Por um lado, o Ministério, que tem condições para ter uma opinião mais correcta sobre essa matéria, assim não pensa. E a análise feita pelos seus dirigentes não coincide minimamente com a que se afirma.
Por outro, foram feitas sondagens no período eleitoral passado sobre os aspectos que mais preocupavam os cidadãos. E essas sondagens revelam que a educação constituía uma preocupação muito secundária, o que desmente frontalmente a afirmação de portada do Grupo Parlamentar do PS.
O resto do parágrafo não passa de afirmações gongóricas essencialmente com o mesmo valor daquela primeira.
É certo que têm vindo a lume notícias de problemas que existem no sistema educativo. É muitas vezes a hipérbole dos casos.