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8 DE JULHO DE 1981 3755

O Sr. César de Oliveira (UEDS): - Peço a palavra, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: - Para que efeito, Sr. Deputado?

O Sr. César de Oliveira (UEDS): - Para um protesto, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: - Faça favor.

O Sr. César de Oliveira (UEDS): - O Sr. Deputado José Vitorino, por ser natural de uma província conhecida por ter uma grande extensão de areia e de mar, deve ter grande treino no surf para andar sempre na crista da onda.

Risos.

Mas acabou por dizer que o projecto da FRS era completamento vazio.
Protesto pela parte que me toca na FRS e, obviamente, não me compete defender o PS; ele sabe bem defender-se sozinho. Aliás, como diz o antigo ditado popular, «não nos dêem conselhos [...]».

O Sr. Narana Coissoró (CDS): - E defende-se, defende-se! Foi um mau negócio!

O Orador: - O Sr. Deputado José Vitorino anunciou uma intervenção cheia de sumo, mas, de facto, ela não teve sumo nenhum.
Acusou o engenheiro João Cravinho de só dizer lugares comuns e a FRS de não ter conteúdo, de ser uma coisa vazia. Eu esperava que a intervenção dele tivesse «sumo» mas provavelmente tem sumo de figo da pita, que é uma fruta seca e desértica que há no Algarve, e que este ano, com a falta de água, é certamente ainda menos sumarenta do que é habitual.
Portanto, Sr. Deputado José Vitorino, quando se referir à FRS, no geral, e a acusar de vazio tenha a ponderação e a serenidade para, em contrapartida ao nosso projecto, adiantar mais alguma coisinha sem ser a crista da onda e a sua tábua de surf, com que, aliás, conseguiu sobreviver ao longo de cinco anos com tão pouco «sumo». E o Sr. Deputado tem mesmo de saber fazer surf muito bem, porque, de facto, tem muito pouco «sumo»!

O Sr. Narana Coissoró (COS): - Que miséria!

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado José Vitorino para contraprotestar.

O Sr. José Vitorino (PSD): - O Sr. Deputado , César de Oliveira referiu que as minhas palavras foram vazias, tendo eu caído em acusações ao Partido Socialista.
Mas, Sr. Deputado, há uma diferença de fundo que o Sr. Deputado não percebeu, não percebe e parece-me que dificilmente perceberá, que é a seguinte: enquanto a Aliança Democrática apoia um governo que apresenta acções, propostas e trabalho concreto, o Partido Socialista, sendo oposição, não se pode cingir apenas às palavras. Tem de dizer o que é que faria, como e com que alternativa política. Como o PS não tem alternativa, fica-se no vazio político e de projecto, precisamente porque não o tem.

O Sr. Presidente: - Para um pedido de esclarecimento, tem a palavra o Sr. Deputado Oliveira Dias.

O Sr. Oliveira Dias (COS): - Sr. Deputado João Cravinho: Ouvi com atenção a sua declaração política. Tirando a habitual vivacidade da sua inteligência e da sua redacção, eu diria que esta intervenção não nos ocasionou qualquer espécie de surpresa. Diria mesmo com a ressalva já referida que ela não trouxe nada de novo. O Sr. Primeiro-Ministro fez uma intervenção e compreende-se perfeitamente que um dirigente qualificado de um grupo parlamentar da oposição venha dizer que ela não teve qualquer significado. Isso é banal.
Em todo o caso, como o Sr. Deputado José Vitorino acabou de referir, reparei que houve um mote ao longo da intervenção do Sr. Deputado. Efectivamente, o Sr. Deputado João Cravinho insistiu bastante nas expressões «vazio», «esvaziar», «vazio na AD», «vazio da maioria», «esvaziamento da Assembleia pela maioria», etc. Eu gostava de saber a que é que o Sr. Deputado se refere quando aplica essas expressões.
Na verdade, há várias hipóteses para explicar a utilização da palavra «vazio». Em primeiro lugar, V. Ex.ª pode estar a esquecer-se de que o que dá força, capacidade e direito de intervir à maioria são os resultados das eleições, que não foram anulados de maneira nenhuma pela eleição presidencial. Ou entendi mal ou creio que terá sido um lapso do Sr. Deputado falar em derrota do projecto do Governo pela eleição presidencial. Isso não tem sentido!
Outra hipótese, será a de que o Sr. Deputado João Cravinho não encontra na maioria eco das suas preocupações. Isso estaria, em princípio, certo. Mas depois o Sr. Deputado surge-nos a falar do projecto autónomo do Partido Socialista, referindo-se a valores muito profundos das aspirações humanas. Eu gostava de saber até onde pensa o Sr. Deputado que vai o fundo das aspirações humanas.
O Sr. Deputado fala no direito à diferença. V. Ex.ª quer significar com isto que o Partido Socialista mudou o seu programa, que a FRS mudou o seu projecto, que orça à direita e pretende ocupar o espaço dos valores que são reconhecidos nos votos da AD, que são nossos, que nós defendemos, e que o PS pretenderia agora eventualmente vir buscar?

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Moura Guedes, para um pedido de esclarecimento.

O Sr. Moura Guedes (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Eu pedi a palavra para formular um breve e comedido protesto, que, de qualquer forma, desejava que fosse relativamente sumarento para matar a sede política do Sr. Deputado César de Oliveira.

O Sr. César de Oliveira (UEDS): - Bem precisa!

O Orador: - Em primeiro lugar quero dizer que, embora eu não seja bruxo, esperava esta intervenção política da bancada do Partido Socialista. Esperava-a não só em termos de cronologia porque houve a intervenção do Sr. Primeiro-Ministro na televisão - mas também por outros motivos.