O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

3756 I SÉRIE - NÚMERO 91

Eu tenho um certo pendor psicanalítico e penso que estamos perante uma situação que a psicanálise também explica. Trata-se daquilo que, em termos de bombeiros, se designa por «contrafogo, isto é, lançar um fogo para apagar outro fogo. Não tenho vocação para bombeiro ao contrário de outros órgãos da soberania -, mas parece-me que é isso que se faz na oposição. Cria-se um fogo para apagar outro fogo.
Ora, eu penso que o Partido Socialista, depois de ter estado sujeito a problemas internos de certa gravidade - que levaram à inviabilidade de resolução do problema do seu grupo parlamentar, etc. -, tinha que falar de uma crise da AD. Na verdade, o PS tinha que projectar uma crise na AD, ou seja, fazer o contrafogo a fim de apagar ou tentar apagar o seu próprio fogo.
Isto é compreensível. Dou toda a minha simpatia a essa tentativa e compreendo perfeitamente a necessidade deste tipo de «manobras de diversão», usando agora uma linguagem militar.
No entanto, não quero deixar de fazer duas requer nas e ligeiras observações.
Em primeiro lugar, penso que se reincide no aspecto de acusar a maioria de ser maioria e de se exercer como tal. Isto constitui, na verdade, um velho leit motiv da oposição. É claro que se acrescentaram a isto considerações inexactas, de que a maioria o faria por processos menos lícitos, esmagando porventura as oposições ou dando uma carta branca ao Governo. Isso não é verdade Pela primeira vez em todas estas autorizações legislativas é apresentado um texto legislativo que diz qual é a vontade política do Governo. Portanto, não se passam cheques em branco.
Em segundo lugar, respondendo à observação feita pelo Sr. Deputado João Cravinho de que o VII Governo ficou prisioneiro de um projecto presidencial derrotado, eu quero dizer-lhe que me parece que foi o PS que ficou prisioneiro...
Esgotado o tempo de que o orador dispunha, foi-lhe cortada a palavra pelo controle automático do tempo.

Aplausos do PSD.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado João Cravinho para responder.

O Sr. João Cravinho (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Depois de ouvir os Srs. Deputados da maioria, eu tenho que concordar que não só existe o direito à diferença como tem de existir o dever à diferença.

O Sr. César de Oliveira (UEDS): - Muito bem!

O Orador: - E esse dever à diferença existe no seio da maioria, como se manifestou, e tem, obviamente, de existir, no que diz respeito, em relação a1 algumas das intervenções formuladas.
Em relação ao Sr. Deputado Borges de Carvalho, eu ouvi as suas considerações, que me pareceram normais. O Sr. Deputado quis ser o primeiro a defender a sua dama. Fica-lhe bem esse cavalheirismo. Julgo que o fez, na medida em que se pode fazer dentro das circunstâncias dramáticas em que vive o Governo. Fê-lo bem, fazendo simultaneamente perguntas. Mas as respostas a essas perguntas só se poderão obter na sua própria imprensa, nos comunicados dos partidos da maioria e nos «mimos» com que esses partidos se entretém a dirigir uns aos outros. Eu li hoje mesmo nos jornais que a Comissão Política do CDS teria reunido e feito referências a uma determinada estrutura do PSD. Achei perfeitamente natural. Na verdade, trata-se de constatar uma evidência. Está de tal maneira óbvio este problema que o melhor é assumir explicitamente a querela interna que grassa na maioria.
O Sr. Deputado Borges de Carvalho perguntou qual era o «deserto de ideias» que eu referi. Eu leio os cronistas mais apreciados da direita e, de há uns tempos até agora, afirmam todos o mesmo. Dizem que este governo não vai lá e que não cria factos políticos. Aliás, parece-me que houve um candidato afazedor de factos políticos, embora não tenha chegado a entrar o Governo, cuja função específica seria fazer factos políticos. A Imprensa falou disto.
Portanto, há uma ideia de marasmo. Houve uma remodelação agora e já se fala de uma outra remodelação a fazer depois do Verão. E já se discute até se essa remodelação será tão profunda quanto deveria ser, o que é prenúncio normal da próxima que há-de vir. São tudo casos do conhecimento público. Limito-me apenas a registá-los nesta Assembleia. Um tiro de pólvora seca ou um tiro na rocha no Douro não faz certamente a navegabilidade do rio. Suponho que o CDS -não quero afirmar taxativamente que era este partido- dizia que «a navegabilidade do Douro vai trazer benefícios». Esta afirmação demonstra uma total ausência de ideias. Claro que a navegabilidade deste rio vai trazer benefícios, mas também vai provocar muitos custos. É evidente que há benefícios - custos. Isto é uma vacuidade de ideias. Além disso, não sei se o Banco Europeu de Investimento concordará ou não com este projecto, porque o Governo não lhe apresenta projectos. Dizem-me também que há milhões de contos de créditos que não são utilizados por falta de ideias, aliás pecha que no campo da Administração não é da exclusiva responsabilidade deste governo. Mas este governo já teve tempo suficiente para emendar, e não o fez porque também não tem ideias.
Quanto à solidariedade no Grupo Parlamentar do PS, digo-lhe, Sr. Deputado Borges de Carvalho, que nunca nos viu nos corredores a alçar os braços com as expressões mais vivas. As nossas diferenças são internas. É certo que têm algum eco na imprensa, mas isso é normal em democracia. O Sr. Deputado sabe perfeitamente que, se eu quisesse, podia-lhe retorquir com inúmeros exemplos de dissidências, motes e dichotes nos vossos grupos parlamentares. Não o farei, porque acho que não o devo fazer.
Quanto ao Sr. Deputado José Vitorino, devo-lhe dizer, em primeiro lugar, o seguinte: o Sr. Deputado' José Vitorino acha que eu falei de lugares-comuns. O Sr. Deputado Oliveira Dias pensa que eu me referi a temas que são dos mais profundos a que a aspiração humana dá lugar. É natural que para o Sr. Deputado José Vitorino lugares-comuns sejam os temas a que a aspiração humana se dirige historicamente. Eu compreendo isso. Mas mesmo que eu falasse em lugares comuns eu queria-lhe dizer que estaria na média, que, infelizmente, não é alta. Penitenciar-me-ía se essa média fosse excedida. Agradecer-lhe-ia, sempre, que