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27 DE JANEIRO DE 1982 1675

se aqui estivesse connosco, seria o primeiro a repudiar esse tipo de atitude, que tantas vezes é assumida, mas que se limita a maior parte das vezes a ficar na superfície, sem atingir sequer a compreensão mínima das mensagens daqueles a quem se homenageia. A exigência crítica que António Sérgio sempre assumiu para consigo mesmo, deve, por isso, servir-nos de lição básica, e sobretudo no momento em que o recordamos.
Não farei, por isso, aqui qualquer exercício laudatório desse grande mestre que felizmente tem entre nós muitos que foram deles amigos e outros que são discípulos da sua arte de pensar, de reflectir, de olhar o futuro. Preferirei antes recordar aqui o pensador sem o adjectivar, pois que os adjectivos seriam sempre suficientemente imprecisos, e sem enumerar o rol de tudo aquilo que nos legou -e que nem sempre temos sabido administrar honrando-o e homenageando-o. Não esqueçamos a triste situação desse pequeno monumento vivo que é a sua casa da Travessa do Moinho de Vento, que continua a aguardar tratamento condigno e a afectação a finalidades culturais, designadamente ao apostolado do cooperativismo, que foi um dos campos de acção que preocupou Sérgio nos últimos trinta anos da sua vida.
Penso, por isso, que é prioritária como primeira homenagem a reconstrução daquela casa onde o pensador exerceu parte do seu laborioso ofício de apontar caminhos reflectindo e criticando, ao lado da sua mulher, D. Luísa Estefânia, tantas vezes esquecida, mas que desempenhou sempre um papel decisivo e um auxílio ímpar, como pedagogo que era, e como apoiante inexcedível ao longo de uma vida difícil e atribulada.
Mas para Sérgio mais importantes do que as «pedras mortas» são as «pedras vivas», os homens concretos, as sociedades. Por isso a democracia - que ele considerava ser «o regime em que são fiscalizados os governos pelos representantes da opinião pública...» não se pode contentar com soluções formais ou com fórmulas equívocas, que esquecem o papel essencial dos homens, dos cidadãos, como fonte de legitimação do poder e como intervientes activos na defesa e prossecução dos seus interesses e da sua vontade.
Nesse sentido, o pensador, o político, o pedagogo nunca deixou de lutar empenhadamente por que as suas palavras se não ficassem apenas nas páginas magníficas das suas obras. Foi, por isso, um pedagogo activo que um dia afirmou: «A autêntica pregação da democracia é dar exemplo do self-government; é procurar a virtude em todos os actos; é ter sempre por objecto o bem do povo.»
Por isso a palavra tem em Sérgio o sentido vivo, de algo que está permanentemente ligado â realidade - mesmo quando o idealismo invade os textos e as reflexões. A humildade do escritor, do ensaísta levou-o permanentemente à própria colocação em causa de si mesmo e do seu modo de pensar. Daí que alguns lhe apontem algumas contradições entre um idealismo filosófico e um realismo no domínio do económico-social. Não há contradição, porém, há apenas a lucidez de quem analisando os factos e a História, cedo descobriu que o Homem é poderosamente condicionado pelas condições económicas e sociais, e que é nesse contexto que exerce a sua vontade e que torna eficaz o seu aguilhão critico t a sua acutilância da acção. E se é certo que muitos dos jovens dos- anos sessenta e setenta dele se demarcaram, criticando muitas das suas concepções, nunca deixaram de alimentar por ele o mais sincero respeito e admiração - pela sua coerência, peio seu sacrifício e pelo ódio que contra ele sempre alimentavam os próceres do regime policial, que julgou poder amordaçar a voz da cultura, do pensamento e da inteligência. A serenidade do seu pensamento e a lucidez das suas análises impuseram-se, por isso, contra a pressão oficial que o incluía num índex. onde se coleccionava tudo o que era susceptível de corromper... Mas até na argumentação contra si desenvolvida o velho pensador estava na melhor companhia - com Sócrates à sua beira...
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Foi este «corruptor dos espíritos» - tal como o consideravam os policias e os censores dos antros sinistros da ditadura - que está ante nós e a quem temos de honrar e que disse um dia:
Aceito todas as críticas e condenações que contra o meu temperamento se pronunciem, e eu próprio o condeno com o maior rigor. Encaro, por isso, com infinita humildade - e digamos também que com resignada ironia - essa pane «profética» de mim mesmo: mas não creio impossível, por outro lado, que pelo simples facto de haver fantasistas uma parte das fantasias se realize um dia.
Não deixou por isso de acreditar no que defendia, apesar das condições adversas, das perseguições e da conjura do silêncio que em torno de si se armava. Acusavam-no, por isso, de «fantasista». E afinal a acusação ainda hoje se ouve quando se defende, com audácia, a criatividade e a inovação.
Ele ensinou-nos, porém, antes de tudo que o futuro e a definição dos seus caminhos nos deve pertencer a todos e não a instâncias messiânicas ou a novos sebastianismos.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: A um ano do início das comemorações do 1.º Centenário do Nascimento de António Sérgio, as instituições democráticas não podem deixar de começarem empenhar-se na preparação daquilo que deverá ser um momento significativo na nossa vida colectiva. Só que nesse caso teria pleno cabimento que surgisse no Parlamento a iniciativa da constituição de uma Comissão, integrando os diversos grupos parlamentares ou partidos com assento na Câmara, encarregada de preparar estas comemorações, de modo que estas se pudessem traduzir num empenhamento consensual de todos o fortalecimento da democracia e na reflexão serena sobre o nosso presente e sobre o nosso futuro.
É esse o sentido da proposta que os deputados da ASDI vão deixar aqui, neste momento, à consideração desta Assembleia, na certeza de que deste modo poderemos estar a contribuir com actos para que a memória de António Sérgio não seja objecto de simples comemorações de circunstância, sem que a dimensão e a profundidade que o seu apostolado crítico nos exigem neste momento.
Penso, por isso, que a memória de António Sérgio nos merece esse empenhamento colectivo e consen-