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10 DE MAIO DE 1985

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acreditar que é ainda relevante o peso especifico dos valores do humanismo no ideário do PSD e que sempre constituíram o seu próprio pórtico. Ouso acreditar que o PSD logrará manter o «golpe de asa» necessário para descobrir os outros espaços da vida política que está para além do horizonte da arena. Ouso acreditar que o PSD continuará apegado à linguagem das grandes coisas e dos ideais nobres. Ouso acreditar, como Platão, que é de noite que vale a pena sonhar o dia. Ouso acreditar que é na noite de luto de Mota Pinto que vale a pena continuar a trilhar o seu próprio exemplo.
A história, sobretudo a história feita pelos seus agentes imediatos, designadamente pelos meios de comunicação, registará que foi controversa a liderança do Prof. Mota Pinto. Mas, com o que ontem aconteceu, virou-se uma página decisiva: nos fóruns onde verdadeiramente se decidem as coisas - as relações com os outros partidos, as relações com os espaços universitários estrangeiros e, em última instância, através da expressão inequívoco da dor sentida pelo povo e pela juventude de Coimbra, pelos juristas de Portugal, ao chorar o político, o homem e mestre -, com o virar dessa página ficou inequívoco que Mota Pinto estava no caminho certo e estavam também no caminho certo todos aqueles que com ele travaram as últimas batalhas.

Aplausos do PSD, do PS, do CDS, do MDP/CDE, da UEDS e da ASDI.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado José Augusto Seabra.

O Sr. José Augusto Seabra (PSD): - Sr. Presidente da Assembleia da República, Sr. Primeiro-Ministro, Srs. Membros do Governo, Srs. Deputados: «Morre jovem o que os deuses amam» escreveu, um dia, Fernando Pessoa. Escreveu-o acerca de um poeta, mas poderia tê-lo feito acerca de um cidadão, de um homem como Carlos da Mota Pinto.
Que haverá de trágico na condição que é a nossa, de portugueses livres em luta contra o destino? Que haverá de trágico, como Unamuno salientava, neste sentimento que é o nosso, dos Portugueses, ao vivermos a morte como se ela fosse uma outra vida? Alguém disse que os deuses terão marcado um partido como o Partido Popular Democrático, como o Partido Social-Democrata. A morte de Francisco Sá Carneiro, a morte de Carlos da Mota Pinto parecem confirmar esse destino trágico. Mas o que era para os Gregos a tragédia senão a assunção da liberdade contra o destino, a liberdade de Antígona, a liberdade dos heróis que eram capazes de violar o interdito? Ela era aquilo que estava escrito, mas que não estava definitivamente escrito. Costa Andrade tem razão: ainda teremos de continuar a escrever a história com Carlos da Mota Pinto ao nosso lado.
O trágico é o equilíbrio, o equilíbrio dos opostos, aquilo que, como disse Hölderlin, faz por vezes pender o fiel da balança para um dos lados. É desse trágico que se alimenta a essência da democracia. Não da predominância de um lado ou de outro, da esquerda ou da direita, mas, sim, dessa alternância que faz com que o ponteiro possa pender para qualquer desses lados. Mota Pinto foi o símbolo desse equilíbrio, dessa tolerância, dessa assunção da legitimidade dos opostos. Por isso, creio que a democracia portuguesa lhe agradecerá a sua lição de estoicismo nos momentos em que era preciso dizer não, em que era preciso afastar-se: afastar-se de um partido ou de um governo para voltar a esse partido, para eventualmente voltar a um outro governo mas sempre dentro da plena liberdade com responsabilidade.
Mota Pinto assumiu sobretudo o que Max Weber chamou a «ética da responsabilidade», que não é incompatível com a ética da convicção, mas que é, quiçá, até, a forma mais elevada da própria ética da convicção. É que ser responsável é ter a liberdade de agir e saber, como os orientais, como os taoístas, não agir, pois há, também, a «prática do não agir». E essa prática oriental do não agir, de que os Portugueses foram herdeiros no Ocidente, Carlos da Mota Pinto foi capaz de a encarnar até ao fim. No seu silêncio, na sua recusa, no recôndito da sua consciência, Carlos da Mota Pinto estava a agir profundamente naquilo que é o essencial da nossa vida cívica, da nossa vida política. Por isso, tendo podido falar do universitário como já o fez o Sr. Prof. Adriano Moreira, gostaria de salientar, sobretudo, que para lá de um homem de saber, Carlos da Mota Pinto era um homem de sapiência, no sentido autêntico da palavra. A sapiência é a sabedoria, a sageza, aquilo que faz com que para lá do conhecimento, da competência, haja algo de mais profundo na consciência criadora dos homens, na consciência livre, democrática, que hoje aqui encarnamos.
Adeus, Carlos da Mota Pinto. Nesta saudade por ti vai tudo aquilo que nos unia como sociais-democratas, como democratas, como cidadãos, como portugueses.

Aplausos do PSD, do PS, do CDS, da UEDS e do Governo.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado António Capucho.

O Sr. António Capucho (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Confesso que foi extremamente penoso e difícil alinhavar estas breves palavras evocativas daquele que foi nosso colega e líder do PSD, Carlos Alberto da Mota Pinto.
Penoso, porque ainda não se extinguiram dentro de nós os ecos da brutal e infausta notícia da inesperada morte que o ceifou impiedosamente em plena força da vida. Difícil, porque outros, bem mais dotados na escrita e na oratória já traçaram indelevelmente o elogio justo do nosso colega tragicamente desaparecido.
Mas embora as funções para que fui eleito no meu grupo parlamentar me permitam aqui estar, em sua representação, confesso que também um impulso interior contribuiu para que vos diga duas palavras.
Duas palavras para realçar não a carreira académica nem o percurso político, nos quais Carlos da Mota Pinto se consagrou, distinguiu e atingiu o cume por mérito próprio, mas duas palavras para expressar as nossas profundas condolências à sua família e para salientar apenas a sua faceta humana.
O sentido patriótico de dizer sim e assumir desprendidamente funções da maior responsabilidade ao serviço do Pais e do Partido. A independência e grandeza de carácter, a inteligência fina e o raciocínio pronto. O trato afável. Mas talvez acima de tudo a sua indiscutível integridade por todos reconhecida e salientada. Porque rejeito liminarmente a hipocrisia - arma dos cobardes - não quero escamotear as discordâncias que ocorreram no seio do PSD a propósito de questões acessórias, de natureza estratégica ou meramente tác-