22 DE ABRIL DE 2021
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Só que, lá está, o princípio da separação de poderes deve operar. Mas para que ele possa operar é
fundamental que não seja o poder político a negar os meios de que o operador judicial carece para poder efetivar
este mesmo pilar.
Em relação à questão concreta de que falou relativa à justiça laboral, o PAN está ao lado da ideia de pugnar
por uma justiça laboral mais eficaz. Dou-lhe um exemplo muito concreto: o facto de um trabalhador que queira
impugnar o despedimento não receber a sua indemnização não faz qualquer tipo de sentido, tendo em conta
até a morosidade, depois, dos próprios processos. Isto porque, como bem sabemos, não faz qualquer sentido
que uma pessoa fique numa situação de desemprego e não tenha sequer ao seu alcance a possibilidade de
fruir pelo menos de parte da indemnização para que possa, depois, enfrentar o processo judicial que tem pela
frente para impugnar o despedimento.
Este é, infelizmente, um entre muitos outros exemplos em que é absolutamente fundamental revisitar o
regime jurídico laboral, nomeadamente naquilo que é o direito de impugnação dos despedimentos.
Só para concluir, porque já ultrapassei o tempo de que dispunha, colocam-se muitos problemas não apenas
a nível da arbitragem fiscal, mas também da própria arbitragem, sobretudo quando é o Estado que está envolvido
na própria arbitragem.
O Sr. Presidente: — Para uma declaração política, tem a palavra o Sr. Deputado João Cotrim de Figueiredo,
do Iniciativa Liberal.
O Sr. João Cotrim de Figueiredo (IL): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Nunca houve um ano como
o de 2020. Nunca morreram tantos portugueses num só ano. Foram mais de 123 000 pessoas que nos deixaram
em 2020, 12 000 pessoas acima da média dos últimos cinco anos, e destas a COVID só explica um pouco mais
de metade.
Nunca os portugueses empobreceram tanto num só ano. O produto interno bruto caiu 7,6% em 2020. É uma
queda de cerca de 15 800 milhões de euros num só ano, um valor idêntico ao de cinco anos da «bazuca».
Nunca houve tanto sofrimento humano num só ano. Em relação a isto não há tantos números, é certo, mas
não é por isso que é menor o medo, a ansiedade, a depressão ou outras perturbações da saúde mental que se
abateram sobre milhares de portugueses.
Mas se 2020 foi mau, 2021 arrancou pior. Houve mais óbitos por COVID nos primeiros 110 dias deste ano
do que em todo o ano de 2020. As estimativas de quebra homóloga do PIB no primeiro trimestre rondam os 6%.
Os problemas de saúde mental, de atraso de aprendizagem dos mais jovens e de desesperança quanto ao
futuro crescem e acumulam-se.
Mas não é tudo. Ainda não são visíveis os profundos danos que a pandemia e a gestão desastrada deste
Governo provocaram no tecido económico e social do País. O fim das moratórias de crédito e dos apoios
extraordinários porão a nu a verdadeira dimensão da tarefa de recuperação que Portugal tem pela frente.
Um pouco por todo o lado encontramos legítimos motivos de preocupação quanto ao futuro. É agora, na hora
de começar a recuperação, que precisamos de esperança, uma esperança baseada numa visão de sociedade
e de economia diferentes daquela que temos tido há décadas e que é responsável pela nossa estagnação.
Deste Governo do PS, manietado na teia dos seus próprios interesses e estruturalmente avesso a qualquer
mudança que faça perigar a sua hegemonia, já ninguém espera nada, muito menos motivos de esperança. Mas
o Iniciativa Liberal quer dizer com clareza aos portugueses, aqui e agora, que há motivos de esperança.
Ultrapassada que seja a fase pior da pandemia, há motivos para acreditar num futuro melhor.
Esse futuro melhor para as atuais e para as futuras gerações está ao nosso alcance se soubermos aproveitar
as oportunidades que este momento também contém e se estivermos dispostos a abraçar a mudança que os
novos tempos exigem.
As oportunidades estão aí, mesmo se escondidas pela preocupação com a pandemia e pela devastação da
crise, e não as podemos desperdiçar. Alguém sábio disse um dia que as oportunidades nunca se perdem: se
não formos nós, alguém as aproveitará.
Desta vez, podemos ser nós a aproveitar a oportunidade, talvez única e irrepetível, de ultrapassar muitas das
barreiras e desvantagens estruturais que há décadas nos limitam como país.
A digitalização e a reconfiguração das cadeias logísticas podem representar o fim da desvantagem de sermos
periféricos em termos geográficos.