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SESSÃO DE 8 DE MAIO DE 1885 1475

epithome das virtudes cardeaes, como a caridade o é das theologicas.
É então que a ordem, prelibada pelo espirito nos ambitos do seu ideal, começa, a realisar-se mais energicamente e traslada-se para o espirito com mais vigor e fidelidade, copiando a imagem do Deus para o nosso coração e consciencia, e tornando cada vez mais verdadeiro o principio de que fomos creados á sua similhança. E como em qualquer grau de desenvolvimento ou estado de expansão o principio da perfectibilidade continua a actuar na nossa essencia, é claro que esta imagem photographica se esforça cada vez mais por se approximar do original, e por esse motivo é que o anjo das escolas chamava á rasão- refulgencia do brilho de Deus no homem.
Ora, a engrenagem, ligação e subordinação, que a analyse rigorosa descobre-se nas aptidões e energias, da nossa natureza, descobre tambem, por conseguinte, nas necessidades, bens e fins respectivos. Os uns parciaes, correspondentes á satisfação tambem parcial de necessidades respectivas, subordinam-se uns aos outros até o ultimo, que n'esta vida consiste só no desenvolvimento integral, harmonico de todas essas forças e faculdades.
E de todas as necessidades a que mais estimula, agrilhoa e impelle o homem para a sua satisfação, é a da religião, porque o homem é faminto, mas tem sede do infinito o dominado pelo principio da perfectibilidade, deseja ardentemente unir-se cada vez mais e melhor á fonte de todo o bem. Essa sêde ardente o devoradora vem-lhe da rasão, que concebe e deposita a priori, os principios absolutos e as concepções ontologicas como idéas de perfeição e realisação pratica. E no infinito que vê realisada a ordem toda, é lá que elle vê a harmonia completa do todos os seus fins mais elevados.
Por isso a religião tem sido na vida dos homens e dos povos a mais alta potencia, que liga os espiritos e move os corações; ella tem sido a alavanca mais poderosa no movimento dos povos, determinando-lhes o curso e a direcção de toda a vida. E por esta causa, como diz um publicista, as relações sociaes, as instituições e a organisação dos serviços publicos, são sempre o reflexo do modo como homem concebe as suas relações com Deus e com a igreja.
Logo que polytheismo quebrou a unidade de Deus, os homens não poderam conceber mais a unidade da especie humana, e a sua igualdade espiritual e moral. D'aqui derivam consequencias de muito alcance para a litteratura, para a sociologia e para a historia. A dos gregos, escripta por Herodoto, resente-se tanto que em critica litteraria já alguem a comparou a um poema epico, em que a Grecia é o heroe e o resto dos povos os agentes secundarios, que guiam e submettem suas operações áquelle eixo central do gravitação.
A historia e a sua critica severa e imparcial ensina-nos que, logo que o laço entre Deus e os homens se obscureceu na consciencia e no coração, tambem entre elles se tornaram frias as relações, porque cada um procurou em si o ponto de apoio e de gravitação, dando o egoismo golpes fataes e profundos no amor do proximo, porque este só se verifica por causa do amor do Deus, como muito bem explicou o sabio Fenelon no seu excellente livro Metaphysica dos costumes e da religião.
O egoismo e suas differentes fórmas estende o seu reinado sempre que as crenças religiosas perdem o seu imperio. O espirito ha de necessariamente reconhecer o absoluto, é da sua organisação, é sua lei, o se o não reconhece acima de si encontra-o em si proprio, como aconteceu a Fichte com o seu panegoismo.
O absolutismo politico nasce e toma formas mais ou menos despoticas, diz um escriptor, nas epochas de enfraquecimento religioso o moral.
A demencia do imperialismo romano não teve outra causa, nem a philosophia da historia lhe dá outra explicação. O reinado pronunciadissimo da força, que hoje se manifesta e alastra, é o producto manifesto da decadencia moral e religiosa dos povos; é o resultado de todas essas doutrinas, que, attacando a crença em Deus e n'uma vida immortal responsavel, trocam a sujeição livre á auctoridade moral, pelo julgo ferreo de um poder de coacção eterna.
Esta torna-se tanto mais necessaria quanto mais decadente é o sentimento religioso e moral.
E aqui está a rasão porque em direito publico se não póde dizer em absoluto que uma fórma de governo seja melhor do que outra, pois que, se para um povo póde adoptar-se bem a republica, para outro só a monarchia absoluta lhe serve; depende isto do grau de cultura, e do estado religioso e moral do povo. Foi por considerações d'esta ordem e altamente philosophicas que Proudhon chegou ao seu systema de anarchia, que é perfeito e rigorosamente logico; assim elle o fôra nas bases, de que parte suppondo que os homens eram anjos ou que se achavam ainda no estado anterior á quéda.
É em virtude d'estas considerações e por estas causas que as legalidades existentes de hoje têem necessidade de procurar refugio e sustentanculo na coacção externa ou na força publica, representada principalmente nos exercitos, que é necessario contentar seja por que preço for e ainda mesmo que se torne necessario violar os pactos fundamentaes ou affrontar a dignidade, o brio e a paciencia de um povo inteiro. Á medida que o homem perde o imperio moral de si, ganha terreno a força brutal e é por isso que hoje mais que nunca temos necessidade de retemperar as forças na fonte de toda a vida, porque só com a consciencia e sentimento de Deus e dos principios, do honesto e do justo podemos ter a sufficiente paciencia, que dá ao espirito a constancia inalteravel na perseguição e proscerção do verdadeiro progresso.
Ora todas estas considerações e factos, que remitam da constituição intima da nossa organisação moral provam que a religião está ligada á satisfação das outras necessidades e que por ella se consegue o resumo de todos os fins parciaes.
E á vista d'isto como é que eu posso reparar organismos, que têem por fim a revalisação de bens e satisfação de necessidades, que se ligam e subordinam ou, quando muito, coordenam?
Separar o estado da igreja, é querer dividir a natureza moral do homem em duas, é pretender desligar fins e faculdades, que fazem parte de um todo indestructivel.
Este argumento, que apenas indico, porque a estreiteza do tempo não consente mais, é poderosissimo, desconhecer-lhe a força é ignorar a psychologia ou negar a existencia, da alma, que é essencialmente religiosa, e á qual causa, horror o vazio, que em si produziria a ausencia da idéa de Deus.
A religião ha sempre sido o laço mais poderoso entro os homens, e esse laço e as relações entre elles tornam-se mais espirituaes, mais fecundas e mais proveitosas á medida que são mais bem comprehendidas o melhor praticadas.
A religião tomou o genero humano desde o berço, como a historia ensina, e tem o guiado atravez de todos os tempos pelo caminho do progresso. E como fóco, onde se concentram todas as forças da alma, assenta-se no lar domestico, reune todas as almas e até as dos vivos com as dos mortos, como diz Krause; une as familias nas gentes, nas tribus e nos povos, reunindo pelo christianismo todos os homens pelo laço do uma só familia, produzindo a idéa da humanidade, desconhecida até á vinda de Jesus.
E diga-se de passagem; a fé é o telescopio da ração o a união intima e cada vez mais perfeita e melhor comprehendida entre estes dois elementos será sempre uma condição essencial e indispensavel de todo o progresso humano, sendo uma a base subjectiva da outra, porque, como