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340 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 72

Se os marinheiros de Gonçalo Velho desembarcaram com água pelos peitos e o próprio frade navegador alagou ali, ao saltar, os borzeguins que trazia, daí para cá todos os penitentes do voto difícil, os que mourejam por cargas e descargas e os que saem ou chegam em breve trânsito, não fugiram à mesma sorte.
Mas a Povoação demora em área bastante produtiva. Saindo do coração da vila, e escalando os cimos, lá está o campo extenso, onde tudo dá pelos bens de Deus. O celeiro da ilha lhe chamam. E é pelo ancoradouro, feio e hostil, que a novidade é levada para outras torras mais carecidas; e é pelo mesmo porto de há quinhentos anos que a madeira em bruto ou apartada em folhas é exportada da região, e que tudo o mais se transporta, pesadamente, tristemente.
Com referência ao movimento médio anual desde Março a Setembro de 1930, únicos meses em que o porto, no decorrer do ano, se torna, de quando em quando, praticável, conheço este quadro, que passo a ler:

[Ver tabela na imagem]

Resumo

Exportação............................ 1:708$00
Importação ........................... 2:836$00

Tenho aqui o resumo do movimento médio anual em 1940:

Exportação............................ 1:742.000$00
Importação ........................... 1:550.000$00

Não recolhi números mais recentes, mas eles não são precisos para se ver que de então para cá o movimento do porto deve ter aumentado consideràvelmente. Até o
facto de referir cifras correspondentes a 1935 e 1940, sendo essas cifras tão eloquentes como são, só comprova que a necessidade, por ser imperiosa desde há muito, não aguenta mais demora.
Mas não é só a Povoação que precisa do seu porto construído e apetrechado. É toda uma zona de povos, desde as Furnas até ao Nordeste, de povos que trabalham na resignação do seu isolamento, com os olhos e os sentidos postos no porto da Povoação, que não existe, mas que há-de existir, e nessa miragem o usam, esfacelando o corpo e estragando as forças no lidar sobre-humano com navios de cabotagem, que chegam e partem temeráriamente do fundeadouro mau, e com os barcos de pesca, que não furtam a proa às vagas e às pedras que se movem de sociedade na perigosa e primitiva rampa de varagem.
Por imposição do ofício residi, durante algum tempo, na Povoação. A minha casa ficava tão chegada ao mar que estremecia quando a onda era forte de mais. Perto, a direito e a duzentos passos, se tanto, o porto, o mesmo do tempo do comendador de Almourol.
Algumas vezes vi, confrangido, o penar das tripulações, metidas na água, carreando, às costas, os volumes das cargas e descargas.
Um dia, com o mar pior, despejavam em terra a pedra de cal que atestava um «barco da vila».
Saí de casa, abeirei-me do «calhau».
Havia homens, sangrando das pernas, que teimavam na faina, e outros que respiravam, por momentos, esperando que a vaga se desfizesse no destroço das espumas.
Aquilo cortava a alma.
Sentado numa pedra, um velho pescador fumava «tabaco de rolo».
Dei-lhe a salvação.
Sem arredar os olhos dos que mourejavam, o homem desabafou:

- Raios de política que tantas vezes alinhavou este porto.
No tempo dos votos era um cabedal de engenheiros e bandeirolas. Votos dentro, sumia-se tudo e a gente cá ficava penando a sua vida.
Mas agora está Salazar, que é direito e atende aos pobres. Quem me dera Ter dinheiro para ir a Lisboa. Estou que ele havia de me ouvir.

Sr. Presidente: queira Deus que as palavras do velho pescador da Povoação, ao passarem por mim, não pracam o seu marulho de fé e o seu timbre de rudeza, que sobem e ressoam tanto como a maré viva, quando faz chiada na costa.
Tenho dito.

O Sr. Magalhães Ramalho: - Sr. Presidente: algumas palavras apenas que tinha preparado para proferir ontem aqui, para que não deixasse também de ficar assinalada nos anais desta Casa a hora alta de regozijo nacional vivida há cerca de um mês com a inauguração de uma das maiores obras de engenharia feitas em Portugal nos últimos séculos e de que, infelizmente, quase se não tirou a lição principal com a preocupação de certos aspectos materiais do problema, cujo esclarecimento público - como aqui salientei em Novembro passado - melhor fora ter sido feito há mais tempo.
Há momentos, de facto da vida dos povos como da de nós próprios em que essa ou outras preocupações ou a naturalidade e alegria com que os passamos, nos fazem quase escapar sem darmos por isso, o seu verdadeiro significado e aquilo que eles representam efectivamente de conquistas sobre nós próprios ou para muito da arquitectura do nosso futuro e felicidade.
Eu creio, Sr. Presidente, que Portugal viveu precisamente um desses momentos no passado dia 21 de Janeiro, quando S. Ex.ª o Sr. Presidente da República,