6 DE MARÇO DE 1952 457
Em inteira verdade este duríssimo contraste foi anulado pela utilização de verbas das dotações, normais, e ao cabo das contas o que se gastou no estrangeiro em compras de cavalos para o Exército, no correr daqueles onze anos, foram ao todo 12:147 contos, ao passo que ficaram no País para o mesmo fim, pagos à criação nacional, exactamente 13:643 contos, apenas um pouco mais. Fica no entanto de pé o facto da grande despesa feita lá fora, que muitos entendidos persistem em crer insuficientemente justificada, que é uma discordância gritante da doutrina oficial de preferência aos produtos portugueses, e que representa a privação de receitas substanciais para sectores da nossa agricultura bem carecidos de valorizarem todos os seus produtos.
Vozes:- Muito bem!
O Orador: - Estes últimos números colhi-os, Sr. Presidente, nos dados que os próprios Ministérios do Interior e do Exército forneceram a pedido meu aqui apresentado há tempos, dados minuciosos e completos, honra seja aos serviços que os compilaram. Muitos mais desejaria referir para abono das minhas palavras, mas limitar-me-ei, por amor da leveza do discurso, a destacar uns quantos e pedir a V. Ex.ª que consinta na publicação integral dos quadros elucidativos que sobre esses dados me foi fácil organizar.
Um facto ressalta logo: tanto o Exército como a Guarda Nacional Republicana aumentaram muito as suas compras de cavalos estrangeiros depois da última guerra; mas enquanto a Guarda manteve as compras internas, aquele reduziu-as muitíssimo. Acresce que o Exército outrora fazia remontas a partir dos 2 anos de idade - outra vantagem para os criadores, que tinham reembolsos mais rápidos e menores empates de pastagens; mas desde 1937 passou a aceitar o nosso gado só depois dos 4 anos completos.
Entre poldros e cavalos feitos, pois, o Exército comprou no País 2:161 cabeças no quinquénio de 1935 a 1939, inclusive, e apenas 736 em igual tempo do pós-
-guerra, de 1945 a 1950; nos mesmos períodos comprou, respectivamente. 624 e 649 animais no estrangeiro. Em relação à remonta total, no primeiro período o gado estrangeiro entrou por 22 por cento em número e 30 por cento em custo; no segundo período, por 47 por cento em número de cabeças e 55 por cento em seu custo. A diferença vê-se!
Nos mesmos períodos a Guarda Nacional Republicana comprava, respectivamente; 493 e 540 cavalos nacionais e 40 e 112 estrangeiros; foi relativamente muito mais fiel à nossa criação.
Citam-se várias razoes deste gosto pelo gado estranho, perguntando-se às vezes se entre elas não se contará o custo mais baixo; a esta pergunta pode responder-se afoitamente pela negativa. Salvo no ano de 1940, em que foi aproveitada a oportunidade de comprar em condições excepcionalmente favoráveis um lote de animais retido em trânsito por causa da guerra, sempre os cavalos de fora, pagas todas as despesas, ficaram, à entrada nos quartéis, mais caros do que os nacionais adquiridos ao mesmo tempo. Já não falo desses para concursos hípicos, de que se chegaram a, adquirir exemplares a perto de 150.000$ cada um
- valha a verdade que só um pequeno grupo e em ocasião e circunstâncias extraordinárias -, mas, segundo os números fornecidos, da generalidade dos próprios cavalos de fileira.
Mais caros na compra, são-no também no trato e difíceis no ensino. Já há quarenta anos certo escritor da especialidade, comentando ideias de adopção para serviço militar de cavalos com sangue inglês, os reprovava, além do mais, pela aspereza do génio, que os tornaria difíceis aos soldados, que não chegaria o tempo para adestrar bastantemente, receando por isto «... que para muitos o cavalo se transformasse no principal inimigo a combater». Quanto ao trato, venham eles da Argentina, da Normandia ou donde mais os tem remontado, todos chegam afeitos a pastos mais substanciais que as nossas pobres palhas; nem os paladares nem os sistemas se afazem bem a estas, e assim os cavalos estrangeiros acabam por ficar, ao que consta, cerca de 20 por cento mais caros no penso do que os nacionais. Também corre que tem vida mais curta.
Tudo isto mesmo mo fez saber o ilustre general comandante-geral da Guarda Nacional Republicana, ao dizer na sua informação sobre o meu requerimento que «... toda a cavalaria da Guarda, a comissão de remonta e, sobretudo, o comandante-geral dão preferência ao cavalo nacional, em razão:
Da sua aclimatação nativa, sua sobriedade, sua rusticidade;
Do equilíbrio do seu sistema nervoso, calma, docilidade;
Das facilidades do seu ensino e treino;
Da sua adaptabilidade ao cavaleiro e deste ao cavalo.
Outros ilustres e experimentados oficiais do Exército tão-pouco se tem poupado nos elogios do bom cavalo português; e ainda recentemente ouvi da boca de um, que é dos nossos primeiros calções, a grata declaração de que para serviço e competição, como cavalo de guerra, mesmo em concorrência com bons exemplares de sangue inglês, mula encontrara jamais superior ao nosso Alter.
Temos, pois, os cavalos nacionais,, de certeza, mais baratos de custo, mais económicos de manter, mais dóceis de montar, mais adequados ao meio e ao pessoal, mais aptos aos verdadeiros usos militares, em suma.
Porquê então os outros?
Numerosas razões houve decerto que podem até ter variado com as conjunturas no decurso do período relativamente longo e acidentado que examinei; e nem sei mesmo se alguma vez os cavalos terão tido que ser aceites como contrapesos em entendimento comercial, desses que fazem o indispensável veículo do menos necessário. Tentar a comodidade ou a economia (a final não confirmada) das compras maciças também poderia ter sido uma razão, porventura das mais abertas a críticas; outra poderia imaginar-se em necessidades do defender verbas limitadas contra os preços internos, que durante e nos fins da época da guerra subiram muito, e mais subiriam com maior procura; não estarão talvez os criadores isentos de culpas na sua própria crise, por terem a um tempo esquecido o futuro e abusado das circunstâncias: mas quem haverá aí para lhes atirar a primeira pedra por tal falta? Tudo isto, porém, são meras hipóteses, que só ocorrem por possíveis, mas ou nunca mesmo se terão verificado ou já estão ultrapassadas; e de facto as razões hoje em dia apresentadas resumem-se essencialmente a duas: falta de altura e defeitos de conformação e aparência dos nossos cavalos.
Evoluíram os antigos usos militares do cavalo, e, confiadas aos engenhos motorizados muitas das suas antigas funções, outras tomam primazia nos critérios de escolha. Reduzidos os efectivos de tempo de paz, já não é possível, como outrora, diluir em grandes massas de aquisições uns tantos animais pequenos e pior conformados; ocupadas as tropas proporcionalmente mais em serviços de aparato, olha-se muito à estatura e figura das montadas. Por outro lado, as novas tácticas dão menos oportunidade de treino aos oficiais, que para