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4 DE DEZEMBRO DE 1954 55

Com a graça de Deus, com o auxilio de V. Ex.ª e sob o governo vigilante de Salazar, resistiremos e havemos de vencer.
Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Pereira Viana: - Sr. Presidente: na quietação da vida portuguesa, a que já nos habituáramos, as ameaças contra os territórios sagrados do Estado da Índia vieram levantar uma onda de sobressalto, de emoção e até de legítima cólera, porque, como disse Salazar, vieram ferir com fundos golpes a própria carne da Nação.
Durante quatro séculos e meio alicerçou Portugal nesses padrões sagrados da sua missão universalista e evangelizadora uma obra de irradiação espiritual e de convivência, entre civilizações distantes que é motivo de orgulho não só para esta velha pátria europeia, como para todas as nações que partilham dos mesmos ideais de vida e de cultura.
E foi contra essa representação histórica de uma obra de séculos, contra o símbolo mais glorioso do nosso passado de nação ecuménica, que vieram precisamente levantar-se ameaças e criminosas tentativas de espoliação, como se de nada valessem, ante argumentos sofísticos de artificial unidade político-geográfica, todo o património imenso da acção portuguesa no Oriente e a própria dignidade das relações entre os povos.
A indignação vibrante que fez erguer o País inteiro numa manifestação de protesto e de resoluta vontade de resistência ao crime que se pretendia e pretende cometer foi o testemunho eloquente de que não se encontram adormecidos nem minorados os nobres sentimentos patrióticos do povo português.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: -E se desta dolorosa crise pode resultar ainda algum benefício, o maior será, certamente, o da prova de vitalidade e de fervor patriótico que ela fez ressurgir, demonstrando inequìvocamente que Portugal está hoje, como sempre, decidido a manter a intangibilidade do seu corpo nacional na metrópole e no ultramar.
Como português e como homem, e em face da repelente agressão e das insólitas ameaças contra a nossa soberania em Goa, invoco os feitos gloriosos dessa plêiade de navegadores e heróis que com o seu sangue generoso escreveram as páginas mais fulgurantes da História de Portugal, com seus nobres exemplos nos incutiram no espírito a noção revigorante da nacionalidade, com sua inflexível devoção aos interesses da Pátria nos radicaram bem fundo a mais perdurável lição de fé nos destinos da Nação, e com a sua acção perseverante e até sacrifício de suas vidas legaram aos vindouros uma herança que teremos de manter intacta até ao final dos séculos.
Como oficial da Armada posso afirmar perante V. Ex.ª e perante a Nação que a marinha de guerra sentiu profundamente e partilha o abalo moral, a indignação e o voluntarioso desígnio de não ceder perante quaisquer ameaças contra a secular presença de Portugal nos seus territórios da Península Indostânica.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - As mais gloriosas e mais nobres tradições da Marinha estão ligadas à história da índia Portuguesa; a sua missão nacional na salvaguarda e no prestígio das terras do ultramar reveste-se hoje da mesma grandeza e consciente responsabilidade que esmaltou de exemplos admiráveis a História de Portugal.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - E o seu desejo de enfrentar os acontecimentos, com meios modestos, sim, mas valorizados pela força moral e patriótica que é fonte inesgotável de heroísmo e garantia maior dos verdadeiros feitos, é hoje tão firme e entusiástico como nos momentos mais elevados em que a Pátria, em perigo, pediu o sacrifício dos seus filhos.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Se a coragem indomável de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, na esforçada conquista dos roteiros que nos levaram à Índia, nos enche de reconfortante orgulho, se a acção fulgurante de D. Francisco de Almeida na batalha de Cananor nos faz estremecer de assombro perante o prodígio de tal bravura e saber, se a morte gloriosa de D. Lourenço de Almeida no desesperado combate de Chaul nos lega um exemplo insuperável de heroicidade e sacrifício, se a brilhante vitória da barra de Diu contra os Rumes, em que foi aniquilada a poderosa frota do sultão do Cairo, nos entusiasma de emoção e nos incute coragem para os grandes cometimentos e se tantos outros feitos admiráveis, que fizeram da epopeia portuguesa no oceano Índico um embrechado prodigioso de valentia, de fé e de sacrifícios heróicos, nos fazem transbordar a alma de contentamento por termos nascido portugueses, nos nossos dias, a nobre e arrogante atitude de Silva Nogueira perante a esquadra russa, na baía dos Tigres, a bravura do batalhão de Marinha nas campanhas do Sul de Angola e a épica defesa do paquete S. Miguel em águas dos Açores por um caça-minas que mais não era do que um velho barco de pesca dão-nos a certeza de que o sangue heróico e generoso dos nossos avós circula ainda nas veias dos homens do mar.

Vozes: -Muito bem, muito bem!

O Orador: - A bravura de ontem mantem-se hoje e continuará amanhã firme e inabalável na convicção suprema de que a armada nacional está sempre pronta, na época actual, como em todos os séculos da História que a Nação viveu, para cumprir o seu dever, para lutar e morrer pela integridade o dignidade de Portugal de aquém e além-mar.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Na índia Portuguesa, como em qualquer território onde flutui galhardamente a nossa bandeira, não estamos dispostos a alienar direitos, a abdicar da missão que o passado e o presente nos impõem, a desistir de uma herança em que se encorpora a própria essência da acção histórica de Portugal.

Vozes:- Muito bem, muito bem!

O Orador: - Temos por nós a razão dos séculos, o direito internacional, a simpatia e compreensão das nações civilizadas, a honra da obra realizada entre os povos do Ocidente e do Oriente - e até o direito bem merecido ao reconhecimento daqueles que hoje contestam a legitimidade da nossa pacífica presença no Indostão.

Vozes: - Muito bem, muito bem!