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26 DE JANEIRO DE 1955 405

O Orador:- Há apenas uma diferença. A exibição do ódio, as atrocidades e as brutalidades do bloqueio da Alemanha, o Sr. Nehru condena-as; a exibição do ódio, as atrocidades e as brutalidades do bloqueio da Índia Portuguesa pela União Indiana, o Sr. Nehru apoia-as com a sua autoridade de Primeiro-Ministro.
Quantum mutatus ab illo! ...

Vozes: - Muito bem!

(Nesta altura assumiu a Presidência da Mesa o vice-presidente, Sr. Deputado Augusto Cancella de Abreu).

O Orador: - Verifica-se que o bloqueio económico de Goa - cujos efeitos as nossas autoridades têm podido neutralizar em grande parte - repercute-se funestamente no próprio pais que o estabeleceu.
É o que afirma o político indiano Chohotubhai Dessai numa sua recente carta escrita ao Sr. Nehru. São dessa carta estas palavras que o insuspeito Times of Índia transcreve:

Temos de admitir que a política do bloqueio económico, em vez de embaraçar a potência estrangeira, está a privar o nosso próprio povo dos elementos primários para a vida.

Mas nem por isso os dirigentes da União Indiana põem termo a uma tão odiosa represália. Não o permite a «pacífica» sanha de que eles estão possuídos.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Não era difícil prever que a União Indiana enveredaria por um tão tortuoso caminho. E isto não obstante a declaração do Sr. Nehru - repetida frequentes vezes no Parlamento e em outros lugares - de que a situação dos territórios portugueses da Índia seria resolvida por negociações.
É que a essa declaração, trauteada em todos os tons, faltava a sinceridade que um discípulo de Gandhi devia ter nas suas afirmações de homem público.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- E, de facto, que valor podia ter a afirmação do Sr. Nehrn de que o caso de Goa seria resolvido por meio de negociações pacíficas? O chefe do Governo Português já declarara, por sua vez, que no caso de Goa não admitia nenhumas negociações acerca da transferência da soberania. E tanto assim que o Governo da União Indiana encerrou a sua legação em Lisboa, afirmando que a única razão de ser dessa legação era resolver a questão dos territórios portugueses da índia. Sendo assim, era lógico que se encerrasse a legação da índia, desde que o Governo de Portugal se recusava a entrar em negociações.
Em face de uma tão intransigente atitude do nosso Governo, como é que o Sr. Nehru insistia em dizer, ainda depois do encerramento da sua legação em Lisboa, que a questão que tanto o preocupava se resolveria por negociações pacificas, sem violências, sem medidas odiosas que desmentissem o pacifismo que se diz ser o lema do Governo da União Indiana?

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador:- Está-se mesmo a ver, em face dos factos que aponto, a dose de sinceridade que o Sr. Nehrn punha nas afirmações que fazia em relação aos territórios portugueses na Índia.
Se há meios pacíficos para quebrar a resistência do Governo Português, porque é que o Sr. Nehrn os não adopta, em vez de consentir que se exerçam tão revoltantes violências, de tão triste repercussão para os créditos do seu país em todo o Mundo?

Vozes: - Muito bem!

O Orador:- Como o seu procedimento de hoje contende com o sen passado!... Quão longe vão os tempos em que Jawarlahal Nehru era o ídolo dos seus conterrâneos !...
Dir-se-ia que estamos em face de um curioso desdobramento da personalidade do Sr. Nehru - Nehru fora do Poder e Nehru no Poder.
«Goa é uma borbulha que afeia o rosto da índia» - disse-o um dia o Sr. Nebru.
Esta frase, quando foi proferida, exprimia a opinião pessoal do Sr. Nehru sobre a sujeição política de Goa a uma potência não indiana ou não asiática - opinião, como é óbvio, muito discutível.
Hoje, porém, essa frase exprime uma realidade indiscutível. As autoridades da União Indiana encarregaram-se de a ajustar às circunstâncias que presentemente condicionam a coexistência dos dois países vizinhos.
De facto, Goa é e será uma borbulha na índia, a recordar a «guerra fria» que esta lhe move, com desdoiro dos seus pergaminhos de «pacifismo» e «não violência».
Não é a Goa dominada por Portugal que afeia o rosto da Índia. O que o afeia é a Goa perseguida, oprimida por processos desumanos que os «pacifistas» indianos adoptaram para a obrigar a render-se à sua vontade soberana.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - A ideia da chamada «libertação»» não encontrou ambiente favorável nem em Goa nem entre os milhares de emigrantes goeses que vivem na União Indiana, principalmente em Bombaim, Poona e Belgão.
Ante o fracasso do plano de recrutamento dos Goeses para a invasão de Goa, mobilizam-se, com consentimento das autoridades da União Indiana, milhares de «satyagrahis», que deviam marchar sobre Goa.
Porém, uns dias antes do fixado para a agressão já se sabia que o movimento não teria o alcance e a amplitude que se atribuíam.
É que o Sr. Nehru, à última hora, resolveu não consentir que os. Indianos se incorporassem na campanha.
Não se contesta que essa proibição teve uma profunda repercussão no movimento, que, como é sabido, teve as ridículas e desconcertantes proporções de uma ignóbil farsa.
Verdade é que os poucos «satyagrahis» que entraram em Goa eram, na sua quase totalidade, indianos.
Estes - dizem os defensores do Sr. Nehru - murcharam sobre Goa iludindo a vigilância da polícia indiana. Oxalá que nas futuras incursões que já se anunciam a polícia esteia mais vigilante ...
Apoiados.
Mas voltando à proibição da inscrição dos Indianos no movimento dos «satyagrahis» contra Goa , teria o Sr. Nehru adoptado essa medida de iniciativa própria?
Tudo leva a dizer que não. O Sr. Nehru não ignorava, decerto, que nos territórios da União Indiana, designadamente em Bombaim e em Belgão, se planeava uma marcha sobre Goa. A imprensa e a rádio espalharam essa notícia aos quatro ventos com estranha persistência.
O Sr. Nehru não interpunha a sua autoridade para coibir uma tão destemperada manifestação de hostilidade contra Goa. Pelo contrário. Contribuiu para que se engrossassem as fileiras dos a satyagrahis» com a declaração que fez de que não toleraria que nenhum