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9 DE FEVEREIRO DE 1930 553

vinhos do Ribatejo, no qual se propuseram os seguintes, objectivos:

1.º Procurar definir por uni ou mais índices, físicos, químicos e físico-químicos, os vinhos produzidos na região do Ribatejo;
2.º Definir qual o valor dos referidos vinhos como vinhos típicos e regionais;
3.º Ver qual o aproveitamento mais adequado das massas produzidas nesta região.

Esse estudo, ainda não acabado, incidiu sobre amostras começadas a recolher da colheita de 1952.
Do exame dos valores analíticos já encontrados, quer nos mostos, matéria-prima base dos futuros vinhos, quer nos vinhos submetidos a estudo, após um ano do estágio, tirou já as seguintes conclusões de carácter geral:

1.º São susceptíveis de diferenciação analítica três classes de vinho: duas tintas e uma branca;
2.º Apresentam os mostos estremes e os vinhos submetidos a estudo forte personalidade e verdadeira individualização analítica.

Quanto às possibilidades de aproveitamento, chegou às conclusões que se apontam:

a) Como vinhos de consumo: são massas vínicas individualizadas e susceptíveis de melhorar acentuadamente com o estágio, porque encerram em si os elementos químicos e biológicos necessários e indispensáveis para tal fim. Isto é, estes vinhos poderão ser considerados como típicos e regionais.
b) Como vinhos licorosos: dados os fenómenos de oxidação enzimática intensa que se verificam nestes vinhos, e em especial nos brancos, e dada ainda a inexistência ou fraca fermentação alcoólica, o que obriga a perda, no primeiro caso, ou fraca percentagem dos produtos secundários da fermentação alcoólica, no segundo caso, os fenómenos de aldeidificação e esteriticação química são compensados, em parte, pela oxidação enzimática, envelhecendo-os e oxidando-os, aliás características dos licorosos regionais.
Ainda me parecem de referir outras conclusões a que

1.º Em relação aos vinhos moscatel de Setúbal não encontramos nos vinhos do Ribatejo valores inferiores aos da colheita de 1938;
2.º Em relação aos vinhos de Bordéus e citados por Ribéreau Gayon, os valores médios por nós encontrados são nitidamente superiores aos valores mais elevados dos vinhos franceses, sendo estes referentes às colheitas de 1900 a 1935;
3.º Parece, pois, poder concluir-se que estes vinhos têm vida química e biológica intensa, o que lhes imprime, dentro do seu tipo, qualidade.

Sr. Presidente: pareceu-me necessário e ajustado à importância do assunto em discussão fazer estas, porventura, extensas considerações acerca da cultura da vinha no Ribatejo.
Estou fazendo estas considerações, não por dever de ofício em defesa apaixonada ou formal da região que aqui represento, mas por entender que elas interessam ao esclarecimento do problema, no plano da economia nacional.
Os vinhos do Ribatejo fazem parte de um conjunto económico - os vinhos portugueses - que constitui um dos mais importantes elementos da economia nacional.
É o tratamento a dar a esse conjunto económico que está em discussão.
O Sr. Ministro da Economia, a quem compete especialmente fixar esse tratamento económico-jurídico do problema, anunciou que só o faria depois de discutida a matéria deste aviso prévio, porquanto o que aqui se dissesse constituiria elemento de informação a considerar.
Como sempre, tomou o Sr. Ministro da Economia uma posição digna perante a Assembleia Nacional e ajustada formalmente à estruturação do sistema político em que vivemos.
Compete a esta Assembleia emitir ponderado parecer sobre o assunto, que será a colaboração que dela se solicita e se deve ao Governo.
Aqui tem sido bem destacada a importância do problema, o que dá a medida de quanto ele mereceu de atenção e de interesse a esta Câmara.
Cada um de nós, ao emitir o seu voto sobre o fundamental problema do condicionamento do plantio da vinha, poderá bem ajuizar do reflexo que ele pode ter no futuro da economia nacional e na justiça distributiva que ao Estado compete realizar.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Disse quanto se me oferecia, e me pareceu caber numa discussão parlamentar, sobre a primeira parte do enunciado do aviso prévio do Sr. Deputado Paulo Cancella de Abreu: plantio da vinha, ou seja sobre a produção.
Cabe agora tratar, e fá-lo-ei em conjunto, dos dois outros aspectos: preços e exportação.
Já Bento Carqueja, em 1900, escrevia na sua obra O Futuro de Portugal, a propósito da questão vinícola, o seguinte:

Para chegar a uma solução acertada na questão vinícola o primeiro requisito é colocar-se acima dos exclusivismos de classe, pesando tão-somente os grandes e seguros interesses gerais do País.
Sair fora desse caminho, conduz a soluções incompletas e defeituosas, que produzem perturbações económicas, em vez de estabelecerem um regime salutar.
E, desde que, se siga pelo verdadeiro caminho, a questão há-de necessariamente resolver-se. Não é desesperada, a situação da viticultura nacional, nem impossível o desenvolvimento, tal como o podemos ambicionar, do comércio dos nossos vinhos. Estas palavras do Sr. Elvino de Brito demonstram convicções, que devem traduzir-se em medidas de efeito real e todas elas se devem resumir, em última análise, no objectivo que o ilustre estadista resume nestas palavras: «É mister que a exportação dos nossos vinhos se expanda mais, tendo em vista, não só a actual produção como as tendências do seu progressivo desenvolvimento».
Se assim é, se a exportação é tudo, nesta momentosa questão parece intuitivo que as indicações dadas pelo comércio de exportação de vinhos devam ser guia seguro na matéria de que se trata. Nem outra orientação se pode admitir.

Isto escrevia Bento Carqueja em 1000.
Também penso que não é desesperada agora a situação da viticultura nacional nem são sombrias as perspectivas do futuro, em face da área que temos plantada e das perspectivas do futuro mercado internacional.
A linha de evolução da nossa produção, que aliás apontei através de números citados e que o nosso colega Melo Machado aqui exibiu em representação gráfica, mostra-nos que ela se caracteriza por altos e profundos desnivelamentos, sendo raros dois anos seguidos de altas produções.