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28 DE JANEIRO DE 1956 387

Sr. Presidente: entretanto, na produção e consumo da carne se vão vendo - com excepção relativa dos bovinos, que entre nós estão a seguir linhas rectas - alternativas de carência e de excedentes.
Não se estranhem as altas e baixas no empreendimento e na criação, porque umas e outras não são senão as alternativas do próprio processo psicológico da vida social construtiva, que acentua em optimismo ou pessimismo ao lançar e organizar os negócios, ao conceber basicamente o futuro.
E, por isso, uma das explicações da crise e da desorientação e queixas que lavram no sector está no desconhecimento dos ciclos, das curvas e contracurvas que assinalam gráficamente a marcha das transacções de gado de carne.
Há vários ciclos, e o primeiro a notar é o da própria produção.
O porco vem à feira, no fim dum período de criação e engorda, que anda por quatro a seis meses, mais quatro meses, sendo nesse período que se obterão melhores resultados financeiros.
No gado vacum, para a produção de vitelos, tem de contar-se com dois anos, e este período alarga, no gado leiteiro para dois anos e meio.
Mais importante e decisivo no regime da produção e das vendas é o ciclo que se forma entre o subconsumo e a superprodução ou, melhor, o ciclo de produto animal a produto.
O porco reproduz normalmente em quatro anos; a ovelha até seis a nove; o gado vacum vai a quinze e mais.
Portanto, se os criadores desanimam e deixam de criar, o facto não se ostenta dum dia para o outro, como quando se lançar em novos empreendimentos ver-se-á obrigado a aguardar anos para obter resultados decisivos.
Entre bovinos e vitelos também há ciclos de consumo e preço de quatro e cinco anos. As baixas de preços, as carências de pasto pelas secas, desanimando, ou as necessidades de realizar fundos e solver encargos precipitam as vendas, levam a abater os animais novos e, mesmo que as coisas voltem, são necessários quatro a cinco anos para se formar novo estado de equilíbrio.
Portanto, está-se a ver o tempo e as ondas de conjuntura com que a produção nacional, responde aos preços ou aos movimentos de esperança e desespero dos seus empresários.
Há porém ciclos mais dilatados quanto à produção e à oferta.
Assim, as melhorias das linhas genealógicas das raças e o seu apuramento por selecção e cruzamento levam o mínimo de dez, quinze, vinte e trinta anos para se obterem os primeiros, mas positivos, resultados.
Sr. Presidente: daqui infiro eu, desde já, que, neste capítulo, não pode haver pequenas intervenções, mas tem de buscar-se política de largo prazo e de largas vistas.
Quando não for assim perde-se tempo e esforço, porque a natureza não cede da sua tirania de vários anos.
E acrescento: que um erro poderá recuperar-se ao fim de dez ou quinze anos, mas levará mais de vinte ou trinta a denunciar-se e entender-se como tal.
Portanto, política firme de largos horizontes em planejamento bem pensado para ultrapassar os ciclos e não recair em erros conhecidos.
Tenho de ficar por aqui.
Há ainda ciclos estacionais que levaria muito longe explorar.
Quando vêm a seca e falta de pastos, os criadores hão-de vender para se libertarem dos animais que não podem alimentar. Se chove depois da seca,
Lançam-se ardorosamente ao empreendimento e alongam o processo de produção.
Se o preço anima, aumentam o património pecuário, convertem cereais, forragens e pastos em sangue.
Levaria demasiadamente longe insistir nesta matéria do geral conhecimento e onde cada um fará o apontamento preciso no seu espírito.
Sr. Presidente: o consumo do povo português é um tema que esta Câmara conhece pelas suas discussões e experiência e que estará sempre presente nas cogitações e programas dos Governos.
Mas é um assunto propício às grandes liberdades de interpretação, a uma certa preferência crítica, e que favorece e acalenta grandes margens de dúvida e de erro, às quais a estatística, por menos rigorosa, não pode fàcilmente pôr termo. Desde os Gregos que os demagogos foram filósofos, poetas e romancistas da fome, mas nem por isso deram de comer às multidões famélicas.
Nos trabalhos da F. A. O. mais recentes Portugal figura entre os países consumidores de carne com menos de 20 kg e mais de 10 kg anuais, acompanhado da Grécia, Itália e Turquia: figura com 13 kg de capitação anual, o que acusa debilidade.
Numa palavra, a situação é insatisfatória e presta-se a melancólicas observações, que contendem não só com o consumo, mas com a produção que o alenta.
Há dez anos calculava-se esta capitação em 8,39 kg. a que se acrescentavam outras carnes de aves e coelhos de 1,1 kg.
Portanto, manifesto progresso na capacidade de consumo, mas o lugar baixo na escala permanece.
Estos números têm de ser completados com as invulgares disponibilidades de peixe e bacalhau, que não se repetem na maioria dos orçamentos dos outros povos, e com um consumo relevante de elementos que entre nós abundam, como o azeite e as frutas, e que outros não possuem.
Segundo a ração esquemática indispensável, torna-se um ideal político chegar a 2800 calorias com esta diária:

Carne - 100 g.
Manteiga - 10 g.
Queijo - 20 g.
Ovos - 1,5.

ou seja 36 kg anuais de carne, de que estaremos ainda distantes e havemos de aproximar-nos, ajudados pelo peixe.
Apesar disso a F. A. O. considera na generalidade a produção de carne e a exportação dela em nível geral favorável, confrontado com as posições anteriores à guerra mundial. Parecem-lhe razoáveis os preços que correm no mercado mundial, achando cara a carne bovina, confrontada com o preço da carne de suíno. Mas este mercado está não somente bem provido como mundialmente bem organizado, o que salienta as nossas deficiências e dificuldades.
Acrescentemos que, na hierarquia dos produtos alimentícios da maior amplitude, o leite e derivados ocupam o primeiro lugar; os ovos o segundo; a carne de porco está em quinto; a carne de vaca e de vitela em sexto; a carne de carneiro em décimo sexto lugar, e o vinho, com surpresa, a seguir.
Como se vê, a leitura dos orçamentos familiares não será fácil e são muito de recear os confrontos e dogmatismos neste capítulo.
Sr. Presidente: a oferta de bois para o corte apresenta várias origens.
Deriva do gado retirado do trabalho e sacrificado. Deriva do gado leiteiro que envelheceu e não se con-(...)