480 DIÁRIO DAS SESSÕES N.° 126
Como todos os homens de acção projectada directamente no exterior, os que fazem suas vidas nos campos são pouco inclinados a manterem grandes registos dos seus feitos e negócios; confiam à memória o essencial e nem ao papel os acidentes ou incidentes que julguem sem consequências.
Não ao parece, todavia, que o Instituto Nacional de Estatística, ao dirigir-se, nos seus inquéritos e recenseamentos, a pessoas do sector agrícola, tenha suficientemente em conta esta característica. Na verdade, os boletins emitidos para recolha de informações descem a minudências de perguntas para qualificar as quais não será exagero nem injustiça aventar o conceito de delírio de inquirição estatística, pois certas questões parecem transcender as probabilidades de registo das escriturações mais cuidadas. Dou como exemplo o inquérito de há meses, em que se pedia a hortelões para indicarem, espécie por espécie, as colheitas dos meses anteriores para uma grandíssima variedade de hortaliças, culminando na exigência da unidade folhas para a expressão da quantidade respeitante à modesta e banal couve galega!
Agora mesmo tenho aqui na mão, Sr. Presidente, exemplares dos impressos destinados ao arrolamento geral de gados e animais de capoeira.
São estes impressos de dois tipos: o primeiro destina-se às pessoas que possuam apenas aves e animais de capoeira, com número reduzido de cabeças de gado, nas zonas rurais, nomeadamente os seareiros, os trabalhadores, os almocreves e carreiros, etc. Pois bem, a estes é pedido que dêem as respostas a nada menos do que 73 questões, que envolvem perguntas tão fáceis de responder, para pessoas deste género, como as seguintes: número de ovos chocados no ano de 1955; número de pintos nascidos e de pintos vingados; número de galináceos que morreram por doença ou acidente (sempre no mesmo ano de 1955); número dos que compraram, dos que venderam e dos que comeram!
A mesma curiosidade se aplica aos patos, enquanto que para os coelhos basta dizer quantos se compraram, quantos se venderam, quantos se consumiram e, além disto, quantas peles aproveitou o respondente ao inquérito.
Como V. Ex.as, Sr. Presidente e Srs. Deputados, estão a ver mesmo daqui, nada mais natural almocreves e carreiros, a trabalhadores assalariados ou assoldadados, e mesmo ao citadino que cria no quintal meia dúzia de galinhas para o caldo em caso de doença ou para os assados de domingo, do que terem a conta dos ovos que puseram a chocar, dos pintos que vingaram e das galinhas que comeram. Como se podem esperar respostas satisfatórias sobre factos que hão-de ser de tão pouca relevância para a quase totalidade dos inquiridos, não porque não tenham sentido os prejuízos, mas porque com certeza não foram riscar atrás das portas as mortes dos «bicos» ou quantos frangos comeram guisados com batatas
Para os proprietários que façam criações de gado há, porém, outro boletim notavelmente mais complexo nas suas perguntas. Este divide-se em duas partes: a primeira, relativa aos efectivos existentes, põe 113 questões; a segunda, que se refere ao comportamento dos efectivos durante o ano de 1955, não se satisfaz com menos de 115. São, portanto, ao todo 238 as interrogações feitas, algumas sobre motivos de tanta curiosidade como os acidentes pré-maternais ou maternais das fêmeas, sem, aliás, se mostrar descurado o interesse pelas mortes acidentais e pelas transacções de todas as espécies que já se haviam manifestado no boletim destinado aos proprietários mais modestos.
Parece-me, e parece a muita gente mais, que para uma boa contagem do gado e dos animais de capoeira existentes no País à meia-noite do dia 15 de Dezembro de 1905, a qual, aliás, à parte o pormenor do momento - que, todavia, tinha de ser um certo-, é da maior utilidade e interesse para a administração pública, como para todos os estudiosos de questões económicas e de pecuária, não seria indispensável descer a tanta minúcia. E parece-me mais que esta mesma minúcia se arrisca a falsear o arrolamento pela natural repugnância a dar tanta resposta.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - O esforço de rebusca que exige, seja na memória, seja em apontamentos, o aborrecimento que pode despertar, que certamente despertou, a multiplicação de perguntas cujo interesse para o fim essencial procurado não é evidente, o convencimento de que muito mais se enfadarão com os termos do inquérito, e repugnarão, portanto, a responder-lhe certo, tudo contribuirá para que cada proprietário de gado e animais de capoeira, de per si irritado, mas ao mesmo tempo receoso das sanções prometidas na lei e relembradas nos boletins de inquérito, preencha o seu com números apenas pouco mais ou menos exactos, quem sabe quantas vezes de propósito ou por descuida largamente eirados.
Custa-me a compreender como este risco e o consequente perigo de falsear todo o arrolamento não fez hesitar os redactores dos boletins. Que as declarações estatísticas, que todas as declarações estatísticas, serão sempre eivadas de alguns erros, é facto de que poucos duvidarão; mas quando elas se renovam ano após ano é lícito esperar que os factores de erro, acidentais ou voluntários, mantenham a sua ordem de grandeza e de efeito, pelo que a comparação dos vários resultados permitirá ao menos confiar nas tendências traduzidas. Mas em apuramentos feitos em intervalos tão longos, como os deste arrolamento de gados e animais de capoeira, penso que todo o cuidado deveria dirigir-se à redacção de boletins de inquérito suficientemente limitados aos pontos na verdade essenciais, para reduzir ao mínimo todos os muitos perigos de conclusões inexactas, entre os quais me permito insistir e pôr no primeiro lugar o das reacções contra a prolixidade dos questionários.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Bem sei que, para quem procura conhecer os fenómenos sociais e económicos através da estatística, nunca há informações demasiado abundantes. Por experiência própria sei quão frequentemente sentimos a falta de alguma coisa mais, e a lamentamos, quando não criticamos, sem pensarmos no trabalho que já houve para recolher o que se publicou. Mas, afinal, ninguém, nem o mais sequioso amador da minúcia estatística, deixará de preferir o sacrifício da abundância das notações à sua mais provável exactidão.
Eis porque vim aqui, desejoso de chamar a atenção do Instituto Nacional de Estatística para o perigo em que os seus próprios desejos de perfeição põem o valor e inquéritos como este a que me estive a referir. Mas tão-pouco esqueço que à vida atribulada do homem de hoje, constantemente assediado com pedidos de informações, declarações, participações, manifestos, estatísticas que às vezes se repetem, pois são primeiro prestadas ao organismo de coordenação económica e depois ao Instituto, e algumas vezes por fim ao serviço do Estado que superintende na matéria, já não é de modo nenhum indiferente que sempre que possível lhe poupem algum trabalho desta natureza.