20 DE ABRIL DE 1956 899
e do progresso automobilístico, tem de ser encarada de frente, combatendo-a, de forma a fazer eliminar os seus prejuízos, oferecendo ao mesmo tempo vantagens ao público.
A rápida e inteira renovação do material, das vias e até dos edifícios impõe-se urgentemente, para assim se evitar o custo elevado da produção e desconforto e insegurança, com a consequente fuga do público para outros transportes.
Comodidade - aumentando a velocidade e a frequência de circulação-, actualização do material, redução das tarifas - resultado de tracção mais económica -, electrificação de algumas linhas, melhoramento dos horários e tratamento atencioso e urbano que é devido a todos os passageiros, tais são os requisitos indispensáveis à conquista da confiança por parte do público nos transportes ferroviários e, consequentemente, à sua valorização e eficiência.
Tudo o que se acaba de dizer é do conhecimento geral e não é preciso ser-se um técnico ou especializado no assunto para se afirmar a urgente necessidade de lhe dar rápida efectivação.
É sabido que tão elevados e patrióticos intuitos estão do há muito no alto pensamento e no programa de acção do Governo e da empresa concessionária.
Solicitar a aceleração desse programa por maneira a vencermos no mais curto prazo o atraso em que ainda nos encontramos em comparação com outros países, contribuindo assim para darmos um maior e mais forte impulso na transformação e melhoria da vida económica nacional, tal é um dos objectivos das rainhas considerações de hoje.
Sr. Presidente: para além das solenidades e cerimónias previstas na comemoração do 1.º centenário dos caminhos de ferro portugueses, que considero necessárias e oportunas, dever-se-ia dar a tão importante e memorável data um significado ainda mais prático e mais positivo do que aquele que também se lhe atribui.
O ano que decorre deveria marcar o inicio de realizações a curto prazo susceptíveis de transformarem radicalmente o panorama ferroviário nacional.
Para além das importantes obras de electrificação em curso, da construção do ramal de Mourão, no Baixo Alentejo, para assegurar a ligação mais rápida e directa entre Lisboa e Sevilha, da substituição das seis pontes metálicas na linha da Beira Alta, entre Luso e Santa Comba Dão, cuja primeira ponte foi há dias inaugurada, da construção de segundas vias na linha do Norte e, porventura, de outras realizações de que não tenha conhecimento dever-se-ia, dentro do mais curto prazo, promover a rápida e directa ligação do Norte com o Alentejo e Algarve, beneficiando as respectivas vias férreas, introduzir os melhoramentos indispensáveis na linha do Douro, renovando o material circulante, aumentando a velocidade mediu dos comboios, que é diminuta, cumprindo fielmente os horários e fazendo as indispensáveis obras de consolidação que evitem o desprendimento de terras e rochedos sobre a via e, finalmente, dever-se-ia restabelecer imediatamente a circulação de automotoras na linha do Dão, entre Santa Comba Dão e Viseu, e aumentar em mais unidades as da linha do Vouga, dado o seu enorme tráfego.
Estas são algumas das realizações a curto prazo que se torna imperioso e urgente efectivar, permitindo-me destacar como a mais simples e a mais fácil a do restabelecimento das automotoras na linha do Dão.
Impõe-se acabar com um estado de coisas lamentável e anacrónico.
Percorrer 49 km em cerca de duas horas, em carruagens sem conforto e em péssimo estado de conservação, pois chegam a deixar passar a água das chuvas para o seu interior, não se coaduna com a época actual, é obsoleto, inadmissível e inconveniente.
Daqui, desta tribuna, faço um veemente apelo ao Governo e à C. P. para que ao menos em Setembro próximo, por ocasião da Feira de S. Mateus, na cidade de Viseu, aonde acorrem muitos milhares de visitantes, voltem a circular as automotoras na linha do Dão, o que é de primacial interesse para a região e para a cidade.
Sr. Presidente: como empreendimento a levar a cabo em mais longo prazo pura o qual chamo a esclarecida atenção das entidades competentes, formulando o voto do que se debrucem sobre o problema, o encarem de frente e resolvam satisfatòriamente, a bem duma cidade e duma região que merece toda a protecção e carinho dos Poderes Públicos, desejo ainda referir a velha e justa aspiração de Viseu de ver transformada em via larga a linha do ramal de Santa Comba e sua ligação a Mangualde.
Centro agrícola e comercial de grande importância, com uma riqueza mineral de certo vulto, com uma intensa vida agrícola, que envolve largo movimento de produtos e mercadorias, Viseu situa-se a meio de uma região de belezas naturais - panorâmicas e paisagísticas - das mais interessantes do Pais e possui à sua volta muitas estâncias termais e de repouso que fazem atrair a si muitos visitantes do País e do estrangeiro. Com um museu que, pelo conjunto das suas obras de arte, é dos melhores do País, com a sua Sé Catedral imponente e grandiosa e com a sua riqueza histórica, monumental o artística. Viseu é hoje um dos mais progressivos centros de turismo, sendo uma das mais visitadas cidades do País.
Servida, porém, pela linha férrea do Dão, que, pelo gravíssimo inconveniente dos trasbordos, a impede de iniciativas e de largos empreendimentos industriais, Viseu sente-se oprimida na sua economia e o seu desenvolvimento natural enormemente prejudicado.
Os transportes de mercadorias e de passageiros tazem-se, na maior parte, por intermédio da viação automóvel nas estações do Santa Comba e de Mangualde, fugindo-se assim às despesas e contratempos que origina o trasbordo pelo ramal do Dão ou Vale do Vouga.
Impõe-se, pois, por forma inadiável e premente para o futuro progresso de Viseu e da sua região a transformação em via larga do ramal da linha do Dão.
Trata-se, sem dúvida, de uma questão vital para Viseu, mas que o é também de autêntico interesse nacional.
Sede tradicional de uma divisão militar que foi extinta precisamente pela falta de comunicações ferroviárias eficientes, a construção da via larga daria ensejo ao estabelecimento das condições necessárias ao reatamento da secular tradição militar de Viseu.
Não existem razões técnicas nem económicas que obstem à realização de tão justa pretensão, afirmam-no altas competências profissionais que há muitos anos estudaram o problema; pelo contrário, as facilidades de ordem técnica que se deparam são de tal ordem que não seriam investidos grandes capitais no empreendimento e o rendimento económico da futura exploração estaria assegurado sabendo-se que todo o movimento de passageiros e mercadorias deixaria de fazer-se por intermédio da viação automóvel.
Sr. Presidente: Viseu não esquece, antes reconhece, o carinho e atenção superiores com que ùltimamente vêm sendo tratados e resolvidos os seus problemas.
O futuro de Viseu, porém, o seu progresso e o sou engrandecimento só se tornarão possíveis com o estabelecimento de comunicações ferroviárias cómodas, céleres o eficientes.
O seu desenvolvimento industrial depende absolutamente de uma via ferroviária com ligações rápidas o directas às grandes linhas nacionais.