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13 DE ABRIL DE 1967 665

Sr. Presidente: a corrente emigratória portuguesa para os Estados Unidos da América foi iniciada por ousados e valentes pescadores de baleias, oriundos do arquipélago dos Açores, posteriormente prosseguida e ampliada com a partida do novos contingentes açorianos, madeirenses, metropolitanos e cabo-verdianos, atraídos pelas riquezas dessa portentosa nação, indo uns empregar-se na construção civil e outros na indústria têxtil da Nova Inglaterra ou na agricultura da Califórnia.
Está por escrever, com o devido realce, a epopeia de esforços, sofrimentos, desânimos, tenacidade, esperanças e triunfos dos emigrantes portugueses chegados à América do Norte em condições muito precárias, por desconhecimento da língua inglesa e sem a necessária bagagem intelectual e técnica que o novo meio exigia para melhor adaptação e mais fácil consecução dos objectivos impulsionadores da saída da terra natal. Nessa pequena história há-de indubitavelmente render-se justa homenagem ao brilhante contributo dos Portugueses para o engrandecimento dos Estados Unidos da América.
Sr. Presidente: cada bom português, ao deixar a sua pátria, com o entranhado amor a esta, leva no coração e na alma fervoroso amor a Deus - a insubstituível armadura para enfrentar e resistir corajosamente às adversidades que o aguardam no território estrangeiro.
Arribado à América do Norte, o nosso emigrante sente-se só e abandonado, roído de saudades; mais tarde, conformado com a sua situação, porque vai compreendendo a língua, se adestrou no ofício e se familiarizou com a gente patrícia ou estranha, o emigrante vê crescer os meios pecuniários, graças às suas qualidades de trabalho e ilimitado espírito de sacrifício e à preocupação dominante de amealhar economias para regressar à pátria.
Mas o tempo passa, o colono constitui família ou chama a que ficou em Portugal, desfruta de bem-estar e conforto modernos, adquire novos hábitos sociais, acabando por imiscuir-se na política local; fixa-se e naturaliza-se - não por atenuação das virtudes patrióticas, mas por tal acto ser condição indispensável à sua ascensão profissional, económica e social.
Sem a naturalização, o emigrado nunca terá profissão ou exercerá cargo de certo relevo na vida privada, nem tão-pouco seus filhos usufruirão os direitos constitucionais americanos, incluindo o de candidatar-se ao desempenho de funções político-administrativas, que podem ir da chefia de humilde aldeia até às de senador e deputado estadual e federal, para prestígio próprio e proveito moral e material de toda a colónia portuguesa.
Não se tome a naturalização como atitude censurável ; todos os emigrados estrangeiros procedem de igual modo nos Estados Unidos da América. Mussolini aconselhava com insistência aos seus compatriotas naturalizarem-se americanos; é que ele sabia muito bem que, desta sorte, a influência dos milhões de seus irmãos de sangue ali residentes far-se-ia sentir mais eficientemente, com a consequente e fecunda repercussão nos interesses políticos e económicos da Itália.
Semelhante actuação tinha, aliás, feliz tradição, vinda do século passado; grandes nomes da política, das actividades económicas e financeiras e da igreja católica norte-americanas eram e são italianos naturalizados ou destes descendentes.
Demais, a lei americana que autoriza a naturalização não cuida de saber se os estrangeiros naturalizados continuam ou não a gozar as regalias dos cidadãos do país de que provêm. Devo acentuar que, para os americanos de origem, quanto maior dedicação manifestem os naturalizados à pátria-mãe, mais segura garantia estes dão de servir lealmente a pátria adoptiva.
Do portuguesismo dos milhares de luso-americanos com quem tive a satisfação de contactar na Nova Inglaterra e na Califórnia sou testemunha; ao ouvi-los falar, saudosa e enternecidamente, do torrão natal e da passagem de S. E. o Cardeal Patriarca e dos Ministros Paulo Cunha e Sarmento Rodrigues, ao referirem-se orgulhosamente ao progresso de Portugal de hoje e ao seu genial obreiro, Salazar, ao dar-se conta do carinho o emoção com que entoam A Portuguesa e as nossas velhas cauções e da veneração que votam à bandeira nacional, fica-se com a plena convicção de que os luso-americanos são portugueses dos melhores.
Tem-se declarado, e com verdade, que milhares de luso-americanos falam mal ou não entendem a língua portuguesa e muitos se bateram e morreram pela América nas duas grandes guerras. Das causas do primeiro facto, bem desconsolador, e do exame dos meios de inutilizá-lo me ocuparei nesta Casa qualquer dia; a segunda verificação não pode surpreender ninguém - a nossa história regista múltiplos exemplos desta índole, sem que os seus protagonistas deixassem de amar Portugal.
A gratidão dos Estados Unidos da América aos luso-americanos mortos heroicamente em sua defesa está patente nos vários monumentos erigidos em honra deles ou nos nomes das praças e ruas de diversas localidades norte-americanas.
Desde a Guerra da Independência muitos portugueses têm pelejado pela segunda pátria; Pedro Francisco é considerado pelos americanos como «o mais famoso soldado raso da Guerra da Revolução», a quem o estado de Massachusetts dedicou o dia 15 de Março para rememoração das suas heróicas acções.
Sr. Presidente: para que o amor a Portugal não possa vir a esmorecer, mas antes a engrandecer-se e a consolidar-se no peito dos luso-americanos, é condição fundamental que estes saibam falar e escrever correntemente o nosso idioma e pratiquem a fé de seus antepassados; a religião dos nossos compatriotas em terra estrangeira constitui «a guarda avançada da língua portuguesa e dos nossos costumes e cultura tradicionais» e, por conseguinte, o magnífico arauto e impulsionador dos mais nobres sentimentos nacionalistas.
Um dia o Sr. Cardeal Patriarca, com a autoridade de eminente príncipe da Igreja e de grande filho de Portugal, disse: «Os portugueses são na América do Norte uma pujante presença de Portugal. Salvaram-nos de se afogarem nesse mar imenso de raças, línguas e costumes diferentes principalmente as igrejas portuguesas, verdadeiros larários da Fé e da tradição nacional».
Sr. Presidente: vem a propósito salientar o cuidado espiritual que os emigrantes tom merecido a Pio XII.
Na Constituição Apostólica Exsul Família, promulgada por Sua Santidade, está clara e magistralmente definida a posição da Igreja a este respeito. Permito-me transcrever, quase na íntegra, o resumo, inserto no Ossercatore Romano de 7 de Agosto de 1952, como preito de humilde devoção filial ao grande papa, felizmente reinante, e para ser melhor conhecido da Nação Portuguesa. Este notável documento pontifício compõe-se dos dois títulos seguintes: «Solicitude materna para com os emigrantes» e «Normas para a cura espiritual dos emigrados».
O primeiro título abrange dois capítulos, o primeiro dos quais começa com algumas evocações históricas sobre o amparo religioso - desde Santo Ambrósio à sobra de conversão e inserção na comunidade cristã das populações bárbaras» e ao «zelo das ordens religiosas na libertação dos crentes deportados e tornados escravos», e à «assistência espiritual dada aos primeiros colonizadores do Novo Mundo e aos escravos negros», trazidos da África; salienta-se a preocupação constante da Igreja, consignada na Scholar Peregrínorum, de dar aos peregrinos, exilados e desterrados (saxões, lombardos, fran-