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742 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 108

lise das suas complexas funções, sem esquecer o fim que Be tem em vista, que é organizar a região de molde a servir os interesses nacionais e os da população que nela vive.
O planeamento é, assim, obra que, apoia, apoiando-se nas técnicas, possui um profundo conteúdo humano: a técnica servindo o homem, e não o homem ao serviço da técnica.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Sr. Presidente: À cidade tem de ser estudada nas suas bases naturais e sociais, o sitio e n posição, o perfil do seu crescimento, a variedade das suas {unções, a estrutura e evolução da sua população, o nível, os gostos e a competição que os habitantes exercem por grupos entre si.
Assim se definirão na cidade nas áreas ou zonas cuja fisionomia realçam, quer pela densidade e carácter da população quer pelos tipos de edifícios, solidariedade social que os seus membros manifestam, pela forma de organização familiar, nível educacional e nível de vida ou ainda pela maior ou menor incidência de fenómenos perturbadores da vida social, tais como crimes, prostituição, divórcio, etc.».
Isto é, sem deixar de compreender-se o todo que é a cidade, há que chegar-se à minúcia do bairro, definido nas atitudes e nos sentimentos do homens vivendo em comunidade.
15 assim que, se a geografia deve estar na base dos estudos, a economia será o seu recheio e a sociologia o coroamento. E importante não esquecer que o planeamento é mais qualquer coisa que traçar num papel, a partir da dados técnicos, ruas, largos e caixotes com prateleiras para arrumar a população de um local ou de vima região.

O Sr.º Lopes de Almeida: - Muito bem!

O Orador: - Não se veja nestas palavras menos consideração pelos técnicos a quem, repito, cabe a maior parte da execução do planeamento, mas sim a amargura de quem tem verificado, por vezes, subestimarem-se rumos humanísticos a favor de um tecnicismo ausente das preocupações, necessidades e desejos reais dos homens.
Não seria difícil apontar exemplos que justificam estas afirmações, tais como obras de hidráulica agrária que viriam a beneficiar populações sem lhes terem criado hábitos de rega; bairros suburbanos onde nenhum espaço se reservou à agricultura familiar, quando nas formações espontâneas deste tipo ela acompanha sempre as instalações humanas; afectação de baldios a floresta quando representavam recurso indispensável ao pastoreio extensivo das aldeias próximas; construção de barragens que subverteram povoações sem que se resolvesse primeiro a colocação da gente que assim se desalojava das suas casas e perdia os seus campos.

Vozes: - Muito bem !

O Orador: - Grandes e pequenos desvios das realidades que resultaram em certa medida do divórcio, que suponho hoje em vias de declínio, entre técnicos e humanistas. Temos hoje bons técnicos e, julgo poder afirmar, alguns humanistas. Estreitem-se, pois, as mãos, para bem da terra e dos homens.
Vem a propósito salientar que no parecer da Câmara Corporativa se assinala como imprescindível aos trabalhos do futuro plano u colaboração de arquitectos e geólogos. Só um lapso, um simples lapso, poderia justificar a não inclusão de arquitectos no plano.
Pela natureza das suas preocupações, pela especialização de alguns em urbanismo, se bem que muitas vezes tomado no seu sentido mais restrito (local, e não regional), por ser a um tempo técnico e artista, o arquitecto é elemento colaborante não só indispensável, mas si quem caberá, na linha técnica e na linha artística, o trabalho da expressão e resolução estética dos problemas levantados pelo planeamento.
A inclusão de geólogos também não deve merecer discussão. Bastaria citar os valiosos estudos de Carlos Ribeiro, Paul Choffat e Pereira de Sousa em trabalhos de ampliação e transformação da cidade de Lisboa para que tal ficasse comprovado.
Lapsos felizmente que não passaram na fieira criteriosa do parecer da Câmara Corporativa. Não pode dizer-se que os geógrafos tenham sido esquecidos, mas não se lhes dá, na realidade, o lugar que lhes compete no planeamento.
Diz-se, de facto, no pertinente parecer:

Assim se compreende que os programas de urbanismo só possam conceber-se e realizar-se, ao nível do nosso tempo, mediante um trabalho de equipa, em que hão-de participar solidariamente o arquitecto Q o economista, o engenheiro e o sociólogo, o geógrafo, o agrónomo, o higienista e o assistente social.

São do meu inteiro agrado as referências ao trabalho de equipa e à participação solidária dos técnicos no mesmo; parece-me, no entanto, que a ordenação dos especialistas é pouco clara, tanto mais que, subtraindo aos agrónomos o título de engenheiros, a que; têm, em meu entender, pleno direito, poderá vir a pensar-se que de geógrafos se trata de engenheiros geógrafos.
Questão aparente de somenos importância, mas que vale a pena esclarecer - os geógrafos cuja especialização porventura se desenvolve no sentido das cidades são os formados em geografia humana, mais humanistas que técnicos. E a eles, e só a eles, que a referência se deve entender. Embora não esquecidos .no texto, não lhes cabe participação clara na comissão do plano director.
Creio, Sr. Presidente, que das minhas palavras já para trás é possível extrair a posição e o papel que o geógrafo desempenha no planeamento, pelo que me dispenso de mais comentários neste sentido.

O Sr. Dias Rosas: - Muito bem !

O Orador: - Esta Assembleia, através das palavras de oradores idóneos, não deixará passar tal lacuna, que, a. manter-se, poderá reflectir-se na articulação harmónica do planeamento:
Sr. Presidente: vive-se hoje numa época de amplas capacidades realizadoras no domínio da técnica, que oferecem aos homens grandes possibilidades no arranjo da natureza. Cataclismos ou calamidades houve que, apesar das numerosas vítimas, foram muito providenciais; tudo arrasaram, obrigando a novos arranjos dos homens nos espaços que ocupavam.
Nos seus traços essenciais, a fisionomia actual da cidade de Londres deve-se a ura grande incêndio, que em algumas horas reduziu a cinzas grande parte dos bairros ribeirinhos; o terramoto de 1755 implicou a transformação da cidade baixa de Lisboa, tendo-lhe fixado um estilo próprio.
Hoje em dia, porém, não se torna necessário esperar um cataclismo para que se possa proceder ao planeamento e á organização do espaço. Valha-nos isso, ao me-