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DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 49 1018

não querem ver, mas esses, di-lo o Evangelho, são os piores cegos ... A Pátria é que deve ignorá-los - ia a dizer, desprezá-los, e, sobretudo, esquecê-los!

Nem tudo foi perfeito, nem podia sê-lo, durante a longa acção governativa do Doutor Salazar. «Governar», disse-o o Doutor Marcelo Caetano, «é necessariamente descontentar; no balanço de uma política há, por força, um passivo a enfrentar o activo». Mas na hora da verdade em que falava o Presidente Marcelo Caetano - afirmou-o ele - «o saldo positivo é enorme». E tanto maior era quanto é certo que Salazar, ao assumir o cargo de Ministro das Finanças, «recebera um país arruinado, dividido, convulso, intoxicado por uma política estéril; e deixou-o ordenado, unido, consciente, seguro dos seus objectivos e com capacidade [e discernimento, acrescento eu] para os atingir».

E quem isto disse não é um político comum, pouco esclarecido ou faccioso; um homem que pretendesse defender qualquer coisa que julgasse prestes a perder ou da qual dependesse o seu destino político; quem o proclamou foi, justamente, um político hábil e sóbrio, um homem inteligente e firme; um estadista que aceitou substituir Salazar na chefia do Governo para prosseguir, embora adoptando o seu critério de governante, na defesa e engrandecimento da Pátria.

Sr. Presidente e Srs. Deputados: Não desejo alongar-me. Depois do que foi dito e escrito aquando da morte do Presidente Salazar, eu, humilde Deputado pelo círculo de Lisboa, que do Regime nada recebi, antes pelo contrário, algum esforço dei, algumas horas de vida trabalhosa e difícil e, sobretudo, em holocausto à Pátria, o meu filho mais velho, não encontrei, para sintetizar o meu pensamento e a minha amarga saudade, nada mais significativo e certo do que referir principalmente, e baseando aí algumas conclusões, as palavras e o sentir de quem, a partir de 27 de Setembro de 1968, aceitou sobre os seus ombros, voluntária e patrioticamente, o encargo de prosseguir para bem da Pátria na política . que tantas benesses trouxe à nossa terra e às suas gentes, elevando-as internamente e no conceito das nações; terra e gentes essas que, tendo como padroeira a Virgem Maria, a ela devem erguer preces para que as continue a proteger no momento crucial que a Humanidade atravessa, quando o espírito, a ordem, a moral e a própria Igreja parecem subverter-se num verdadeiro caos, para o qual não se descortina bom fim!

Não me parece descabido que nesta Assembleia, onde têm lugar antigos e distintos governantes, directos colaboradores, portanto, do Doutor Salazar, alguém, com menos credenciais, é certo, mas que por ele não tinha menos amizade, nem menor dedicação, erga a sua voz para afirmar, pública e solenemente, a sua total e eterna fidelidade à memória do Homem e aos princípios que ele encarnava; não pode esquecer-se que estes estiveram sempre coerentemente presentes na obra de ressurgimento nacional levada a efeito pelo eminente estadista, cuja memória acabo de evocar com profunda saudade, embora, infelizmente, sem qualquer talento ou sequer o menor brilho. Apenas sentidamente.

«Nunca todos seremos de mais para continuar Portugal.»

Pois bem, façamos más, Deputados, um exame de consciência sincero e (profundo; pensemos nas vicissitudes em que as forças do mal envolveram a nossa juventude que em África se bate pela Pátria, jogando generosamente a própria vida a coda instante, tentando derrotá-la também na retaguarda, pretende-se tirar-lhe aquilo que melhor pode ajudá-la: a confiança em si própria e nos oito séculos da história que a contemplam! Pensemos nos nossos camaradas - Drs. Leonardo Coimbra, Pauto Buli, Pinto Leite e Vicente Abreu - que, na Guiné, abnegadamente, perderam a vida pela causa que queriam aprofundar e conhecer melhor; pensemos no exemplo de Salazar e de quantos com ele serviram, no venerando Chefe do Estado, exemplo vivo da nulidade que se deseja; pensemos e recolhamo-nos por um momento! Temos, nesta Assembleia, de não trair os que nos elegeram e dê nós esperam que sirvamos e defendamos os seus legítimos interesses. Mas a melhor forma de os defender e cumprir o nosso dever de portugueses e de representantes d» Nação não é demolir, demolir sistematicamente!

Aponte-se, com inteira uberdade e franqueza, o que está mal; apresentem-se soluções práticas, exequíveis e, sobretudo, portuguesas. Deixemo-nos de figurinos estrangeiros ou adaptemos o que lá fora se faz de bom, de construtivo e pela grei ao nosso meio, às nossas possibilidades e às nossas gentes. Sem perda da nossa própria independência, sem ultraje à consciência Ide cada um, todos nós poderemos contribuir, dialogando e até -se quiserem- contestando (dentro dos justos limites, claro está), para que se governe sem dividir, dando assim a certeza ao Mundo sempre atento de que, quer nesta Câmara, dedicando à causa «pública todo o nosso esforço, quer nos compôs de batalha, com o sangue dos nossos filhos, quer, ainda, na retaguarda, com o suor do nosso povo, apenas e simplesmente, queremos continuar Portugal!

Vozes: - Muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Themudo Barata: - Sr. Presidente: 1. Evocar alguém pode ser apenas um frio exercício de memória, pode ser outras vezes um ardente chamamento da sensibilidade para satisfazer exigências do coração; mas pode ser bem mais e pode ser bem diferente.

Com efeito, a evocação de alguém que Deus chamou a Si, quando tenha lugar num templo, deverá ser acima de tudo um acto religioso, movido pela fé; quando efectuada numa academia, será por certo a construção de um pedaço de história, dominada naturalmente pela preocupação fria e objectiva do rigor científico; quando levada a cabo no círculo de familiares ou de amigos, falará por direito próprio a voz do coração, para exteriorizar a nobre fidelidade dos seus afectos e para tentar preencher, com o avivar da saudade, o vazio deixado por quem partiu; quando, porém, tal evocação - sobretudo de homem de Estado tão ilustre - seja feita nesta Gusa e deste lugar, por constituir ordem do dia desta sessão, ela é, por sim própria natureza, um neto essencialmente político.

Não quer isto dizer, é evidente, que a política deva ignorar ou possa esquecer Deus, aquele Deus que cria os homens e os chama a Si e que, misteriosamente, movimenta os grandes fios da História; ou que ela sirva de pretexto para impedir, ou sequer desaconselhar, que se estude e se critique o passado, com toda a amplitude e toda a objectividade, sobretudo na medida em que o tempo for ajudando a criar a justa perspectiva; não significa tão-pouco que se tenha por descabida uma palavra sincera e calorosa de admiração ou de reconhecimento - que muitas vezes será até um dever de pura e elementar justiça: quer dizer apenas que tal evocação, quando aqui feita, deverá estar marcada pela preocupação dominante do bem comum - que é o único sentido que eu entendo digno dar à palavra «política».

2. O bem comum «diz respeito ao homem todo, tanto às necessidades do corpo como às do espírito», mas não se restringe ao indivíduo, pois diz também respeito às