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2666 I SÉRIE - NÚMERO 63

O clima criado pelo Governo e pelo Sr Ministro, a mobilização dos efectivos policiais e o entendimento manifestado pelo Governo sobre a convocação da greve obrigavam a inevitável descoberta de uma insurreição que justificasse a histeria do Governo e sobretudo que desse fundamento aos métodos ilegítimos de que o Governo fez uso no combate à greve do dia 12 de Fevereiro.
É neste contexto que o Sr. Ministro surge nos ecrãs da RTP, tirando do bolso, ante o olhar atónito e surpreso dos Portugueses, as provas insofismáveis, na sua opinião, da existência de uma insurreição. Só que o Sr. Ministro parece não ter compreendo que o espectáculo de normalidade oferecido pelas suas - exceptuando os incidentes do Rossio, alias acicatados pela policia de choque com agressões indiscriminadas a cidadãos, incluindo jornalistas identificados - constituía o desmentido mais flagrante à credibilidade de qualquer acção conspirativa contra o regime. Encenar sobre um cenário de normalidade publica um subcenário insurrecional pode ser uma excelente ideia para um filme burlesco, mas não para mistificar o Pais», escrevia-se no Expresso de 20 de Fevereiro (ver. p 48-R), a propósito da aparição Televisiva do Sr. Engenheiro Ângelo Correia.

Vozes do PS, do PCP e da UDP: - Muito bem!

O Orador: - Vejamos os factos essenciais através do «insuspeito» semanário Tempo, de 18 de Fevereiro de 1982:

Aveiro - armas encontradas em Albergaria-a-Velha,
Braga - apedrejamento de transportes particulares. Pneus furados.
Castelo Branco - veículos obstruindo uma garagem da RN. Sabotagem em rações para animais.
Coimbra - pneus furados.
Évora - pneus furados.
Faro - tentativa de ocupação de casas em Vila Real de Santo António.
Leiria - violação de seccionador da EDP. Pregos na via pública. Apedrejamentos. Pneus furados. Explosões de petardos;
Lisboa - pregos nas estradas. Pneus furados Cabeças de fósforos e pregos em fechaduras de estabelecimentos comerciais. Atropelamento em Alcabideche Detidos 4 indivíduos em Sacavém. Encontradas armas e aparelhos emissores com proclamação no Parque Eduardo VII.
Portalegre - pneus furados.
Porto - pneus furados e apedrejamentos.
Santarém - tiros no Couço durante uma operação stop.
Setúbal - atropelamento em Ermidas-Sado. Tiros em Corroios.
Viana do Castelo - pneus furados.

Risos do PS e do PCP.

São estes, Sr. Presidente e Srs. Deputados, os factos indicados como evidenciadores de uma conspiração de caracter insurreccional -pasme-se- contra o regime democrático.
Dos factos atrás apontados cumpre salientar que as armas encontradas no distrito de Aveiro nem sequer funcionavam que o seu proprietário foi preso a 200 Km de distância do local das armas que se destinavam a decoração, tendo o seu possuidor provado que eram recordações de guerra, que a sabotagem verificada em Castelo Branco numa fábrica de rações foi produto de engano na colocação do sal que entre na composição das rações, que o atropelamento verificado em Alcabideche não tem ligações directas ou indirectas com a greve, que a morte do chefe do posto da GNR em Ermidas-Sado constituiu apenas um acidente que a própria GNR local encara como tal, que não se confirmaram as explosões em Leiria e que em Corroios não houve tiros. Com excepção das armas e dos emissores apreendidos no Parque Eduardo VII, a insurreição inventada pelo Sr Engenheiro Ângelo Correia, reduz-se, com os elementos vindos a público, a pregos, fósforos, pneus furados, apedrejamentos, pinheiros de médio porte abatidos, sabotagem em semáforos, tiros em operações stop Isto é, insurreições deste tipo deveria havê-las muitas vezes ao ano em Portugal, mormente quando as forças de segurança montam operações stop. Um jornalista insuspeito como Fialho de Oliveira disse isto mesmo num programa da RDP - Rádio Comercial.
Vejamos com mais detalhe as armas e os emissores apreendidos no Parque Eduardo VII. Foram apreendidas 2 pistolas-metralhadoras. Uma de marca JEP de funcionamento duvidoso, dado o tipo de culatra que possui e que, por ausência de manipulo, se encrava logo aos primeiros disparos.

Risos do PCP.

Outra de marca Sterling ou Star, armamento em uso na PIDE/DGS antes do 25 de Abril e que foi após esta data, entregue ao Exército. No que respeita aos emissores, cuja maioria dos componentes se pode adquirir livremente no mercado, o esquema eia o seguinte, a avaliar pelas informações do Tempo e outras que conseguimos recolher cassete num gravador que por seu turno se encontrava ligado a um emissor alimentado por uma bateria normal, tudo ligado a uma antena tipo garra presa no exterior do capôt do automóvel. Raio de difusão, emitindo nas frequências da Radio Comercial: 2 km Locais de emissão, que depois de verificados pela PSP não trouxeram nada de novo Parque Eduardo VII, Cristo-Rei, Sintra, Alto da Graça, Arrábida e Monsanto.
Admita-se que para armamento insurreccional as duas pistolas-metralhadoras são manifestamente insuficientes e que o raio de alcance dos emissores para a proclamação conspirativa e insurreccional e ridículo. A proclamação, afinal, não eia uma proclamação para sei lida a seguir a conquista do Poder, mas um simples apelo de apoio a greve Estranha-se, finalmente, a prontidão com que os detidos confessaram as suas ligações ás autodenominadas Forças Populares 25 de Abril e o facto de a viatura que transportava as armas e os emissores serem encontrados bem próximo do local onde as viaturas da PSP que vigiavam um cortejo automóvel da CGTP receberam ordens para montar operações stop.
Sr. Ministro da Administração Interna, tem V Ex.ª outros elementos, para além dos que foram tornados