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17 DE MARÇO DE 1982 2777

de lutador tenaz e consequente pelos valores da liberdade e democracia;
A Assembleia da República manifesta o seu profundo pesar e envia à família enlutada os seus sentidos pêsames.
Naturalmente que o voto que acabei de ler entrará na longa lista de votos que temos para apreciar, mas penso que no momento oportuno todos os deputados de todos os grupos parlamentares se pronunciarão a favor.
Gostaria ainda de informar a Câmara de que conheci e contactei com Álvaro Seiça Neves durante o período de luta antifascista. Habituei-me a ver nele e a admirar-lhe a lucidez, a cultura humanista, o trato afável, a amizade leal que a todos os seus amigos dedicava, a determinação que sempre manteve na luta antifascista.
Contactei mais frequentemente com Álvaro Seiça Neves nos dois últimos anos, em actividades mais reservadas, nomeadamente no plano interno de actividades do meu partido. É que Álvaro Seiça Neves já não podia, ou não queria, participar publicamente, dado o seu estado de saúde, a aguardar a morte, que sabia não poder demorar.
Do período final da vida deste cidadão exemplar e activo combatente pelos valores democráticos e socialistas, de um período que hoje poucos conhecerão, gostaria de dar aqui pessoal testemunho da sua dimensão humana e coragem. Fisicamente diminuído, já completamente cego, praticamente imobilizado, Álvaro Seiça Neves nunca esmoreceu a sua confiança num futuro de progresso para o nosso país. Sempre participou em actividades como militante democrata empenhado, pois que acima do seu sofrimento pessoal colocava a luta pelos ideais de solidariedade humana, que nortearam toda a sua vida.
De Álvaro Seiça Neves podemos dizer que foi uma vida exemplar de firme coerência de princípios aliada à tolerância e espírito unitário. Com ele desaparece um dedicado militante do nosso partido -naturalmente que não foi nessa qualidade que apresentámos o voto de pesar na Mesa -, mas desaparece acima de tudo, um grande democrata do nosso tempo, um grande português, cujo exemplo enriquece o combate pela liberdade e pela justiça social no nosso país.

Aplausos do M DP/CDE, do PSD, do PS, do PCP, do PPM, da ASDI, da UEDS e da UDP.

Sr. Presidente e Srs. Deputados, como há pouco referi, está a ocorrer neste momento o funeral deste grande democrata que foi Álvaro Seiça Neves. Gostaria, pois, de também pedir à Câmara que guarde l minuto de silêncio.

O Sr. Presidente: - Com certeza, Sr. Deputado. A Mesa, pelo menos o Presidente, pensa que o falecimento de alguém, independentemente de qualquer deliberação sobre o voto apresentado, è sempre um momento de reflexão e gostosamente assume a iniciativa do Sr. Deputado Herberto Goulart, propondo à Câmara uns momentos de reflexão acerca do falecimento de Álvaro Seiça Neves.
A Câmara guardou, de pé, l minuto de silêncio.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra para uma intervenção o Sr. Deputado Barrilaro Ruas.

O Sr. Barrilaro Ruas (PPM): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Seria de minha obrigação dizer algumas palavras de homenagem a João José Cochofel e a Álvaro Seiça Neves, mas, uma vez que os votos que se referem à morte destes 2 portugueses aguardam oportuna discussão, para essa altura também fará a minha intervenção muito simples.
Quero, em todo o caso, aproveitar, em nome do PPM, os 5 minutos que, regimentalmente, cabem a cada partido no prolongamento do período de antes da ordem do dia para me referir a um assunto de interesse nacional de que acabo de ter conhecimento através do Jornal do Fundão, de 12 deste mês.
Trata-se da situação, muito grave, em que se encontra um velho monumento de grande interesse histórico e artístico que é o Convento de Santo António, junto à vila de Fundão.
Há muitos anos pude visitar esse Convento, e encontro agora no Jornal do Fundão notícias recentes, que peço para resumir, com a leitura de alguns trechos:
Quem quiser saber o significado que tem a defesa do património neste país pode visitar o antigo Convento de Santo António, mas não deve demorar muito ou encontrará apenas ruínas do que foi um dos mais antigos edifícios do Fundão.
Actualmente é a imagem mais acabada da desolação, onde não falta a destruição macabra das sepulturas feitas por ocasionais caçadores de tesouros.
E, pormenorizando, o articulista conta:
As sepulturas que se encontram no pequeno claustro tem sido objecto de depradação. Desde finais do último Verão, de noite, caçadores de tesouros ali procuram riqueza fácil. Dos tesouros, nem pó, mas os resultados da sua actividade destruidora podem ver-se em lápides com inscrições danificadas, lajes partidas, terreno cavado. De resto, as ruínas estão também no interior. Nas salas, nas antigas celas, na cozinha, por todo o lado a mesma imagem: abandono e destruição.
Trata-se, Sr. Presidente e Srs. Deputados, de um convento do século XVII, do qual escrevia Eduardo Coelho:
A igreja do Convento era um bonito templo, com muita obra de talha dourada. Na sacristia há ornatos excelentes. Tudo está já a cair.
Há um século, em 1883, isto quanto à igreja.
A livraria era de 3000 a 4000 volumes.
Pensa José Hermano Saraiva que Gil Vicente terá talvez habitado algum tempo nesse Convento.
Para lá desse facto, subsistem outros argumentos de valor cultura] do monumento. A história hoje procede a uma autêntica arqueologia em relação a este tipo de património monumental. Que melhor forma de descobrir como se vivia naquele tempo do que recolher e proteger a memória que ainda resta do Convento de Santo António?