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3406 I SÉRIE- NÚMERO 80

desemprego, com o seu cortejo de ameaças de miséria e convulsões sociais.
As respostas encontram-se em novas formas de organização social e económica que tomam vários nomes em diferentes países chamados de economia avançada, como a República Federal da Alemanha (movimentos alternativos), França (trabalho autónomo, autogestão), Estados Unidos da América (self-management, literalmente autodirecção) e no Japão, onde proliferam sob diversas formas.
Daqui que, por um lado, não se pode continuar a dizer que a autogestão é uma utopia e, por outro, é incorrecto continuar a falar de autogestão, pois que há várias formas e experiências de autogestão em curso e é necessário serem estudadas e encaradas diversificadamente, como fenómeno político importante que são.
Com efeito, o crescente desenvolvimento daqueles movimentos resulta da massa crescente de desempregados, na sua grande maioria constituída por jovens que não encontram emprego (no sentido habitual de trabalho subordinado) e organizam pequenos empreendimentos, sobretudo na campo da saúde, da habitação, da agricultura. Sucede ainda que, em especial nos Estados Unidos, muitas experiências autogestionárias se iniciam a partir de empresas falidas, abandonadas pelos seus proprietários.
O interesse de dirigentes políticos e de intelectuais pelas diversas experiências autogestionárias tem vindo a aumentar nos últimos anos.
A título de exemplo, permito-me citar dois depoimentos significativos e de grande peso político e cultural sobre essas experiências. Os dois vêm publicados no último número da revista Autogestions (no plural).
O primeiro é um conjunto de 14 "teses", subscritas por Erhard Eppler, membro do Praesidium do Partido Social Democrata Alemão, e que são afinal um conjunto de reflexões subordinadas ao título "Do bom uso político das alternativas".
Considera Eppler que é necessário estabelecer uma relação entre o movimento alternativo e a política e dá como assente que, na República Federal da Alemanha tem-se a viva impressão de estar num beco sem saída, pois que as crises vão mais longe do que a gestão da crise.
Descreve depois as atitudes dos dirigentes políticos face à situação e afirma que: "ao lado da atitude dura dos que defendem a continuação do mesmo modo de agir há uma segunda atitude que é a procura de alternativas".
Refere então que entre os 11 membros da direcção do SPD, que encontra todas as segundas-feiras de manhã, há mais 3 receptivos à procura de alternativas do que havia 3 anos atrás.
Das suas reflexões subsequentes, julgo de reter, para não ser fastidioso, a que afirma: "qualquer experiência de um estilo de vida e de trabalho alternativo está condenada se não se traduz num determinado momento em transformações políticas". Tal afirmação, que considero justa e correcta, tem o mérito de afastar a ideia da autogestão como mera forma económica, desprezando o seu aspecto global em que o político é determinante. Daqui que as teses que sustentam a independência ou a autonomia da autogestão face ao poder político e aos seus problemas específicos têm hoje de ser postas de parte.
Eppler trata mais adiante o problema do desempregado, o qual, diz ele, sente-se, na Alemanha, supérfluo, rejeitado pela sociedade. Ora, se forem possíveis duas formas de trabalho, o assalariado e o autónomo, o acento tónico pode deslocar-se para este último e temperar o desespero gerado pelo desemprego. Cita, como exemplo, o que se tem passado na região de onde ele é originário, o Wurtemberg, que tem suportado muito melhor que o Ruhr as crises dos últimos 70 anos, porque durante muito tempo uma grande parte dos operários possuía ainda uma pequena parcela de terreno arável.
Por último, a sua concepção das experiências alternativas que, ao contrário de grandes utopias exaltantes, são caminhos estreitos que têm de ser abertos entre o "mato" existente e que, quanto mais forem utilizados mais probabilidades têm de se transformar em vias de trânsito possível.
As reflexões de Eppler, em particular por virem de um dirigente político experiente num país dos mais avançados industrialmente, não podem deixar de fazer reflectir todos os que não tenham da política uma concepção imobilista, mesmo para além da esquerda e dos socialistas, face aos becos difíceis em que a AD nos meteu mas em que estamos todos metidos.
A segunda reflexão a que me referi é de André Gorz, o celebrado autor do Adeus ao Proletariado, livro excessivo e com o qual tenho muitos pontos de desacordo, mas no qual se reconhece a ousadia e o pensamento autónomo de um grande intelectual.
Essa reflexão de Gorz vem na revista citada em termos de entrevista, e dela retirarei algumas ideias que julgo valiosas para a discussão em curso nesta Câmara.
A primeira consiste em considerar que a pretensão de eliminar completamente a alienação do homem, no trabalho, é uma característica do totalitarismo, seja qual for o tipo de sociedade ou o regime político. Gorz sustenta que qualquer sociedade exige que os indivíduos se conformem com imperativos técnicos cuja execução não tem nada de exaltante ou gratificante. E então podemos reparti-lo por forma a que cada um gaste nele o mínimo tempo possível, ou podemos (tentar) transformá-lo num dever moral e cívico. Ora, não haveria necessidade de glorificar o trabalho se ele fosse realmente gratificante e exaltante.
E estamos chegados ao que parece um beco sem saída ou uma conclusão do tipo "nada a fazer". Gorz não o nega, mas defende que o aumento de eficácia e de produtividade na "produção socializada heterónima" permite uma autonomia crescente e uma grande riqueza e diversidade possíveis de actividades autónomas. A lógica deste pensamento conduz à redução gradual do trabalho para outrém, através de uma produção social muito aperfeiçoada que fornece tudo o que é indispensável para viver de forma a que, produzindo-se o máximo num mínimo de tempo, "cada um tenha bastante tempo para fazer o que quer". A finalidade é, pois, a de aumentar os tempos livres, já que, para uma parte do trabalho estamos condenados à alienação.
Este raciocínio levado às suas últimas consequências, conduz a uma civilização em que a produção mercantil e as trocas monetárias poderão tornar-se secundárias, o que, em última análise, segundo Gorz, só se realizará objectivamente por acção de uma vontade política.
Quer em Eppler, quer em Gorz, os movimentos alternativos, as experiências autogestionárias, são consideradas vias possíveis de saída dos impasses em que a sociedade industrial mergulha os trabalhadores, mas